Ela já foi pejorativamente comparada à arte dos doentes mentais (que também já provou valor) e à arte infantil. Foi duramente criticada por desobedecer a regras acadêmicas do desenho. Mas sempre tive a impressão que o cerne da questão estava na questão social-econômica. A arte naif parece ter incomodado durante muito tempo a academia (em geral elitizada) pela origem de seus artistas autodidatas, a maioria vinda de camadas pobres da sociedade.
Mas não há preconceito que resista ao talento, seja ele adquirido em escolas ou espontâneo. A prova disso é que o Sesc São Paulo está com inscrições abertas até dia 20 de junho para a oitava edição da Bienal Naïfs [Entre Culturas], um dos maiores eventos do gênero que será realizado em setembro em Piracicaba.
A arte naif, apesar de ainda ser vista com olhos desconfiados por muitos, tornou-se uma das expressões mais autênticas da cultura brasileira nas artes plásticas, com reconhecimento internacional (para variar, tem que primeiro ser respeitada lá fora para depois aqui). Em 1966, levou prêmio na Bienal de Veneza, uma das mais importantes do mundo, com Chico Silva. E é, sem dúvida, uma das mais procuradas por estrangeiros que passam por aqui.
Chamada também de arte espontânea, ingênua ou primitiva, é arte feita sem orientação que, em geral, retrata a cultura popular de um modo bastante particular. Daí, o uso do termo “naif” – do latim “nativus” (nascente, natural, espontâneo, primitivo). Ou seja, não segue os padrões reconhecidos pela academia.
Certa vez, escrevi uma matéria num jornal em trabalhava em Bauru e usei a palavra no título, mesmo sem saber muito do que se tratava. Um amigo me criticou: “Você deveria ter usado outra palavra que esclarecesse melhor o que quer dizer isso”. Tinha razão: eu é que deveria ter sido mais espontâneo, ingênuo, primitivo, mas caí na tentação acadêmica. Por sorte, essa arte parece não depender tanto da mídia intelectualizada (à qual tento me excluir), mas sim de artistas autodidatas e sensíveis como são eles. Essa bienal está para provar isso.
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