Deus de Caim e Toada do Esquecido

de 05/9 a 24/9 · Cuiabá, MT
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
1/9/2006 · 28 · 6
 

É tempo de Ricardo Guilherme Dicke, o maior escritor vivo do Brasil! Assim vaticinou Gláuber Rocha nas telinhas de todo o país, no programa de TV "Abertura", TV Tupi, no final dos anos 70, começo dos 80. Com seu jeito vibrante e exagerado, Gláuber, bradava para todos que o Brasil devia ler o romance que tinha em mãos: "Caieira".
Mas vamos falar agora de outro romance: "Deus de Caim", seu primeiro romance. Premiado no concurso literário mais importante da época (1968), o Prêmio Nacional Walmap, é um romance deslumbrante. O júri era constituído por Guimarães Rosa. Jorge Amado e Antonio Olinto. Naquele ano, Dicke já despontava como grande revelação das letras brasileiras.“...Ficamos, os três, certos de que ali estava um romancista de tipo novo, um homem capaz de abalar nossa ficção”, escreveu no prefácio, Antonio Olinto.
O livro foi publicado, mas não resistiu ao tempo. Está desaparecendo, se decompondo. Esse foi o principal motivo dessa republicação, com verba do Fundo Estadual de Cultura e realização da editora Fábrika de Letras. O (re)lançamento acontecerá na Feira Sul Americana do Livro, em Cuiabá, entre os dias 16 e 24 de setembro.
O nosso gigante das letras está mais vivo que nunca e é muito bom poder celebrar e compartilhar com ele esse momento especial. Dia 5 de setembro também será lançado a novela inédita "Toada do Esquecido", publicação associada das editoras Tanta Tinta e Cátedra, também com recursos do Fundo Estadual de Cultura. No Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, rua Voluntários da Pátria, centro da cidade, bem próximo à avenida 15 de Novembro. Com a presença do autor, a partir das 19:30h.

onde fica
Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, na rua Voluntários da Pátria, logo depois da avenida 15 de novembro, no centro.
Literamérica- Feira Sul Americana do Livro (de 16 a 24 de setembro) no Centro de Eventos do Pantanal, próximo à avenida Miguel Sutil.
quando ir
05/9/2006 a 24/9/2006, às 19:03h
contato
A Fábrika: fone (65) 3023 0771

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João Negrão
 

Prezado Eduardo: há algumas imprecisões nas informações sobre o lançamento do livro do Dicke pelas editoras Carlini & Caniato e Cathedral Publicações, a começar pelos nomes das mesmas.
O nome do livro é “Toada do Esquecido & Sinfonia Eqüestre” e está sendo editado por iniciativa única e exclusiva das duas editoras, que estão bancando todos os custos. Portanto não há nenhum patrocínio pelo Fundo Estadual de Cultura, como foi mencionado.
Não é uma novela e sim dois contos inéditos.
O lançamento de fato acontecerá no dia 5 de setembro, às 19 horas, no Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, que fica na rua Voluntários da Pátria, centro da cidade, bem próximo à avenida Prainha.
Abraços
João Negrão
Da assessoria

Segue release sobre o lançamento:

Cathedral Publicações e Carlini & Caniato Editorial lançam inédito de R.G. Dicke


Livro, que reúne dois contos do autor - 'Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre' -, inaugura série de publicações do escritor mato-grossense organizada pelas editoras


Dois contos inéditos de um dos grandes prosadores do Brasil contemporâneo, o escritor Ricardo Guilherme Dicke, serão lançados no próximo dia 5 de setembro. "Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre", uma co-edição da Cathedral Publicações e Carlini & Caniato, apesar do teor regional, reveste-se de uma aura que transcende o nacional, inserindo-se na literatura latino-americana.

Personagens arquetípicos desfilam pelos contos, que levam o leitor a interpretações singulares. O espaço privilegiado é o misterioso sertão mato-grossense. Cabe ao leitor o deleite de se embrenhar na obra deste ser (tão) fantástico que é Ricardo Guilherme Dicke.

"Toada..." é a 11ª obra do escritor de 70 anos, que teve o trabalho reconhecido desde cedo com prêmios como Remington de Prosa, conquistado com o romance "Caieira", em 1977, e o prêmio Orígenes Lessa, da União Brasileira dos Escritores, recebido em 1995 pelo belíssimo "Cerimônias do Esquecimento".

Algumas de suas obras já migraram para outras artes. É o caso de "O salário dos Poetas", adaptada para o teatro e apresentada em 2005, em Lisboa. Atualmente outra montagem da obra, dirigida por Amaury Tangará, viaja pelo Brasil.

No conto "Toada do esquecido", o leitor acompanha a viagem de uma trupe de amigos que, ao se esconderem sob máscaras de personagens fictícios, acabam tomando, para o leitor, feição de ficção. E o real e o imaginário brincam o tempo todo.

Em "Sinfonia Eqüestre", Dicke nos presenteia com uma saborosa narrativa sobre a vida da jovem Janis Mohor, que, após o assassinato do pai, se vê às voltas com as contradições de sua vida.



Série de publicações

O livro inaugura uma série de publicações do autor que as editoras Cathedral Publicações e Carlini & Caniato Editorial organizaram, sempre com o lançamento de uma obra inédita e a reedição de outra esgotada.

A iniciativa, segundo Mário Cezar Silva Leite, da Cathedral, é um projeto das duas editoras de investir na produção de Ricardo Guilherme Dicke, de popularizar sua obra entre o público mato-grossense e nacional. "Queremos que cada vez mais pessoas leiam o Dicke", disse.

A Cathedral Publicações e a Carlini & Caniato Editorial organizaram a série com investimentos próprios, sem nenhum apoio público ou do autor. Trata-se de uma iniciativa relativamente inédita no mercado editorial local, onde boa parte dos livros editados só o são com algum tipo de incentivo.

Os editores acreditam é que possível mudar essa realidade. "Nosso mercado está se desenvolvendo muito", observa Ramon Carlini, da Carlini & Caniato. A aposta é tanta que depois de "Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre" o próximo lançamento será a reedição de "Madona dos Páramos", de 1981, que já está no prelo. Em seguida, entram na fila outro inédito e provavelmente a reedição de "Caieiras".


Sobre o autor

Ricardo Guilherme Dicke nasceu a 16 de outubro de 1936, em Chapada dos Guimarães. Seu primeiro livro "Caminhos de Sol e Lua" foi escrito em uma fazenda, onde também pintou muitos quadros expostos em Cuiabá.

Filósofo especialista em Merleau-Ponty, com mestrado em Filosofia da Arte, participou do XV Salão de Arte Moderna, em 1966, no Rio. Estudou pintura e desenho com Frank Schaeffer e Ivan Serpa.

Trabalhou como revisor, redator e tradutor; foi repórter e pesquisador do 2º Caderno de O Globo. De volta a Cuiabá, trabalhou como professor e jornalista e fez diversas exposições de pintura.

João Negrão · Cuiabá, MT 4/9/2006 12:36
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eduardo ferreira
 

joão negrão, é um prazer te encontrar por aqui. bom que o site é colaborativo. que bom que você corrigiu algumas informações imprecisas. sem justificativas...agora, quanto a ser conto ou novela, há controvérsias. Toada do Esquecido - muito longo para ser um conto, muito curto para ser um romance. No meio do caminho havia uma Novela...Segundo o próprio Dicke, em conversa informal: Toada é uma novela.

Gostaria de informar também que Toada do Esquecido veio à tona em 1996, quando Ricardo e eu planejávamos realizar ma minissérie (TV) matogrossense e ele retirou das gavetas a referida obra. Não virou minissérie, virou um roteiro de um longa- metragem (filme) que ainda estamos tentando realizar.

bom...no mais: obrigado pelas correções.

apareça mais por aqui. o ideal é que vc mesmo publique as agendas do eventos que estiver assessorando. o overmundo é para isso...

grande abs

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 4/9/2006 13:09
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João Negrão
 

Você tem razão, Eduardo.
De fato não é um conto. Hoje mesmo, em entrevista ao SBT, o Dicke se referiu a "Toada..." como uma "novela pequena", uma "noveleta".
Conto é só o "Sinfonia eqüestre".
No mais, agradeço pela oportunidade de participar aqui deste Overmundo e parabéns por seu trabalho.
Parabéns também pelo programa de rádio da campanha. Tenho acompanhado.
Grande abraço

João Negrão · Cuiabá, MT 4/9/2006 21:34
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Silas Correa Leite
 

Pequena Resenha Crítica





Livro ‘DEUS DE CAIM” - Estágios Escuros de Vivências Romanceadas com Estilo e Furor
Ricardo Guilherme Dicke, Prêmio Walmap, Magnífica Literatura Arrojada em seu Esplendor Literário


As batalhas nunca se ganham. Nem
sequer são travadas. O campo de
batalha só revela ao homem a sua
própria loucura e desespero, e a vitória
não é mais do que uma ilusão de
filósofos e loucos.

Wiliam Faulkner, O Som e a Fúria



O cavernoso romance (novel?...) “DEUS DE CAIM” do surpreendentemente estupendo escritor Ricardo Guilherme Dicke, agora muito apropriadamente relançado em alto nível pela LetraSelvagem, na coleção Gente Pobre, sob a organização do escritor-editor Nicodemos Sena, bem faukneriano e contemporâneo ainda, destila verbos, venenos, e inventaria brumas da relação ser/sociedade, vida/morte, amor/dor, fantasia/frustração, carne/espírito, dilemas/sentido e percepção, moendas (interiores)/engenhos (de almas atribuladas), tormentas pertinentes/insanidades comportamentais arrazoadas, Deus e o diabo no húmus entre Pasmoso e a profunda cauda narrativa que flui com densa liquidez expressionista/existencialista, e os cárceres das tentativas. A prosa do espaço, a dialética do exterior e do interior “as geografias solenes dos limites humanos”(Paul Éluard) e a porção carbono-C rusoé de cada ser. E Nelly Novaes Coelho (crítica literária, USP) já no início do livro ricamente editado já muito bem levanta panos e tintas:
“O homem interrogante; aquele que sonda o vazio existencial (...); em Dicke predomina a sondagem dos escuros do homem (...); Deus de Caim escava fundo um dos interditos que alicerça a civilização cristã ocidental (...); tempo de caos; romance labiríntico (...)”.
Toda arte de alto nível é cheia de pontos de interrogações como se propositalmente desinterligados. A arte de escrever nos leva a afirmação da vida em nós. Lágrimas não ficam para sementes, senão na arte? É melhor ser triste do que arrogante. Quatrocentas páginas de puro deleite que, explorando o fluxo narrativo (em júbilo?) do autor, vai de casa a casa, de ambientes a embustes, de fachadas a desfrutes, do historial ao fabuloso, entre o espanhol ao francês, nacos de poesia propositalmente semeadas, levantando lebres, apontando sítios letrais e escavando horrores quase que impossíveis de serem silenciados. Escrever é teatro de ocupação?
Artista plástico e filósofo, de pai alemão, Ricardo Guilherme Dicke pintou sua literatura de tintas brilhantes, novíssimas para a época em que foi inventada, um épico com cargas humanas, demasiado humana, como diz, fragmento de ensaio a respeito do livro (Ronaldo Cagiano):
“Nos 21 capítulos da obra a história da família Amarante vai se desdobrando numa colcha de retalhos de situações conflituosas e metaforizam a própria historia do Brasil (...)” (In, Carlos Herculano Lopes, Caderno Pensar, Estado de Minas, 06/02/10).
Aliás, Hilda Hist o considerava “um gigante”. Caim, Abel, Lázaro; personagens desbiblificados entre sombreados com querelas, acontecências, traições, taras; a vida nua e crua revelando sinais de pânicos e disfarçando conflitos, neuras. A par disso, bem pintados, filosofados, livros bons acabam joias preciosas. O medo nos delimita? Existe mais insanidade do que sensatez na vida, nas cargas dos ombros dos homens, no mundo. Somos todos espécies transfiguradas de paisagens com passagens de agonias, sonhadores ao extremo, não moscas-de-frutas. O Deus de Caim soma tantos pontos de interrogações até sobre palavras não ditas; dadas a entender.
“Romance capaz de abalar a nossa ficção” - (Guimarães Rosa). O âmago das crueldades destrinchadas em núcleos cênicos e traços existenciais carregados de ferramentas de crueldade e características psicológicas. Os arquétipos da fantasia e de uma loucura surda, enviesada, tudo em DEUS DE CAIM, a partir do mote de um irmão atentando contra o outro. A realidade é mais embaixo.
A consciência, a inconsciência, o que afinal resta dos refinamentos de uma ótima ótica para ver/sentir/; escrever com domínio da pena. Dicke naturalmente arrasa quarteirões, expõe as vísceras de momentos retratados, mas, ainda assim, com a ótica apurada de um pintor, desqualifica e expressa o horror (de viver?); teatro de ocupação reinando o tempo todo, num vareio de linguagem. Você só acredita porque está lendo. Como é que pode? No mundo da fantasia os monstros engordam parágrafos; na verdade, sangue/suor da dura e inominável vida real. Real?
Contundente, impoluto, altamente criativo, perspicaz, denso, e ao mesmo tempo de uma fineza extraordinária. É difícil ler Dicke e ficar indiferente. Não há neutralidade na sua leção. A atônita realidade captada em parágrafos que vão embora... Realidades sentenciadas com estilo e alto pendor estético, num talento literário surpreendente, agora reconhecido. Quem sairá do labirinto do livro sem se impressionar com as virtudes?
A história fala de nós

Silas Correa Leite · Itapeva, SP 21/5/2010 16:51
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Silas Correa Leite
 

A história fala de nós, segundo Horácio, em sua sabedoria latina. Às vezes temos demônios e anjos à flor da pele. Nas dissonâncias há mais pureza do que no estojo linear das ideias. A arte de buscar o incompreensível nos leva à afirmação da vida. É o paradoxo de sobreviver além da sentição, e campear o lado pensador do humanus. A meditação não é escrachante quando aponta o humano vagando em suas erranças existenciais e sublógicas. Pode isso?
.................................................................................................................................................
“(...) Lembremos que toda pessoa tem o direito à vida, não é? Mas de onde lhe advém esse direito? Da Bíblia. E tirá-la, é claro, equivale a tirar um direito fundamental que constitui, desde o tempo de Moisés, violação à lei (...). O problema é este – chegar-se a um plano utópico em que não haja necessidade de leis e necessariamente todos os preconceitos se tornarão cinza inútil, relegada aos museus da morte e das coisas extintas. Imagine o que é não existir nem poeira desses preconceitos de agora que tanto nos martirizam, imagine uma cidade futura e ideal, em que todas as aspirações e inibições que jazem em nós sufocados, reprimidos e inexprimidos, aliadas à técnica elevada à perfeição, o que não seria! Por enquanto só algo mui longínquo disto se delineia em algumas obras de artes. Aliás, toda obra de arte é utópica” (Pg 135).
Você lê se palpitando no entressombreado do livro Deus de Caim e as cinzas aqui e ali soturnas das horas, relações e desmontes de significâncias, e reserva para a sua surpresa seduzida, um lugar para uma nova releitura ainda mais significante a seguir, e quiçá compreenda melhor, inteiro, se isso for possível, como a obra que vale o peso, a fama, a própria paixão de ler e de escrever. Obra única, feito um Cem Anos de Solidão, O Perfume, Baudolino, Invenção de Onira, A Espera do Nunca Mais, Vidas Secas, Grandes Sertões: Veredas. A narração é a redenção?
“Lidando com uma simbologia a que ele dá um sopro vital, fora do comum, Dicke não deixa coisa alguma de fora (...). O homem de fora está cercado de outra mundologia, as realidades violentas e subversivas da narração de Dicke envolvem com rapidez. Sexo e morte são evidentes (...). (Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras). O ser humano precisa sentir sua exata sensação de estar e ser no mundo. Dicke tira pertencimentos das trompas da cólera, do desamor, da vida fugaz em sua saciadade de aproximação com estados calamitosos. Nada é impossível para ele. Desde Caim e Abel, a história nos fez acorrentados a culpas e sentimentos de medo e opressão.
A irrazão humana. A emoção humana tão desnaturada. Surpreende-nos Dicke em cada parágrafo, mesmo quando a narração ou enfoque vara páginas de limbos. A invisível esquizofrenia costumizada da apática sociedade decadente e falsificada para consumo. O biscoito da vida não é da sorte, não é de vida plena. Lágrimas não são guloseimas. Sentir dói. Em que lugar ficamos livres de tantos nós, senão nas asas da literatura? Bruce Hood dizia: “Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo. Esse desenho às vezes nos leva a acreditar em coisas que vão além de qualquer explicação natural.”
Uma obra clássica como Deus de Caim não se explica, mas se justifica pela excelência do autor. Em esmerada edição agora pela LetraSelvagem, Ricardo Guilherme Dicke é resgatado no auge do que a sua historicidade criativa congrega e vem-nos assim reeditado em sua maior obra-prima. Os porões da alma clarificados. Os subterrâneos da vida distinguidos com sua pena distinta, singular. Os sótãos de cabeças e sentenças nominados. É incrível a “lógica” funcional do escritor extremamente crítico, irônico, criativo e, claro, agora mais do que nunca, cult.
Literatura pura, de primeiríssima qualidade. Não há babel, bezerro de ouro ou cepo de Abrahão que esconda o sortilégio e o trágico fruto de Caim que vem enlutando a história da humanidade desde os primórdios. Escrever é pagar um preço? Escrever não é apenas cutucar onça com vara curta, é soltar todos os bichos. E Dicke faz isso muitíssimo bem, assustadoramente muito bem, liberta os seus (os nossos?), abre as comportas de seus próprios diques criativos interiores. Ah os escuros recônditos das almas embrutecidas com a fúria de ter que comparar, sobreviver, parecer que é o que não é.
E o Deus de Caim - que paira sobre todos nós – acode para uma leitura a altura, exige atenção pontuada, ao mesmo tempo olhar de remanso, para deguste e assim se poder sacar o esconderijo das ideias que ventila, ramifica, aponta e crava com o crivo de uma criação única. E quem sai ganhando é o leitor que se envolve dele, surpreso com a qualidade que custa assentar. Não é fácil. A vergonha, o incesto, a mentira, a dissimulação, o que pode parecer bizarro ou sexista. Quer mais humano do que tudo isso?
O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filo

Silas Correa Leite · Itapeva, SP 21/5/2010 16:52
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Silas Correa Leite
 

O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filosofando sobre conjecturas ou o que poderia ser e não foi, muito além das fronteiras das almas e seus estágios vivenciais estarrecedores. Ou seja, a humanagente no seu viveiro de contrastes. Vejamos a pintura literária:
“(Considerações, entretexto) O vermelho é a paixão e a força telúrica do Sol Matrogrossense, o azul são as paixões da noite e o negro a melancolia do sangue remotamente flamengo. O amarelo é a ânsia, o ouro, o desejo e as outras coisas nunca alcançadas. As formas que lembram labirintos e meandros ora são vegetações, ora caminhos, ora nervos em expansão, ora o ideal de um laboratório em que busco as equações de um mistério, de um nepentes ou de um descobrimento perfeito. Quero que quem os veja sinta uma contração pulsar e repulsar. E ao mesmo tempo, indague o que é o mundo – com múltiplos e infinitos signos estranhos – o que é o mundo, estas linhas, estas cores, esta massa, este movimento, este ser. Rilke disse que uma obra de arte é de uma solidão infinita. Quero pois que quanto mais solitário melhor. Cada qual encontre um pouco de seu eco que se perd e. É a natureza que recrio – e se fosse Deus – assim a recriaria – e é a relembrança dos países que não fui, no tempo das harmonias. É minha alma e a sua capacidade de entender alguma coisa que em mim não se perde para sempre, como as outras coisas que se perdem para jamais. É a poesia que não fui. As cores que eu amo e minha intenção de buscar entender o efêmero (...)”. Pg 251.
A extravagante literatura caudalosa (e por isso mesmo ocasionada de parágrafos em narrativas angustiantes) de Dicke; uma pintura extravagante de situações sociais em ermos e fugas, estados espúrios, de decomposições da efêmera vida social e sócio-familiar, quase árido, ou, como diz João Ximenes Braga (In, Dicke: o vôo da eternidade): “Dicke realiza uma estranha alquimia de política com metafísica na temática, e de realismo social como barroco no estilo (...) E ainda há intervenções de personagens místicos que o aproximam do realismo mágico (...)”. Pois Deus de Caim é uma soma disso tudo, e surpreende nos entremeios, na narrativa, nos belíssimos enfoques que o autor destaca e desenvolve com a paleta da escrita que mistura tintas de situações e aparências entre cores de convergências sociais apontando embustes; tirando etiquetas do armário, uma espécie as sim de romance-ensaio se reportando a conflitos, traumas e sequelas da natureza humana em decadência.
Um dos maiores romances escritos no Brasil, e mesmo tendo sido inicialmente lançado e premiado há cerca de quarenta anos atrás (Prêmio Walmap 1967), permanece muito atual, como toda obra de arte que se supera superando o tempo real, indo além de sua época como consagração de vanguarda e reconhecimento de talento e estilo próprio. Ricardo Guilherme Dicke, assim, escreveu um épico num estilo raro, único, onde concilia fluência e domínio absoluto da linguagem e da criação em seu esplendor, a verdadeira arte romancesca. Bravo!
___________
Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

Silas Correa Leite · Itapeva, SP 21/5/2010 16:53
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