CIA DE TEATRO GENTE COMEMORA DEZ ANOS COM SEGUNDA MONTAGEM INÉDITA NO BRASIL DE TEXTO DO ANGOLANO JOSÉ MENA ABRANTES
NO OUTRO LADO DO MAR...
Com o espetáculo “Amêsa” iniciamos uma viagem rumo às cicatrizes deixadas pela guerra (explícita ou não) no corpo de uma pessoa. Desejando dar continuidade a essa caminhada, fizemos a opção por “No outro lado do mar...”, texto também de Mena Abrantes, que foca outro ângulo da mesma experiência. Neste texto, é como se pudéssemos ver de dentro pra fora, do centro para a superfície.
Iniciamos o processo andando, de mãos dadas, no escuro. Muitos foram os registros inconscientes do nosso corpo que se apresentaram no processo de criação. Sentimos medos, angústia e agonia, mas estávamos vivendo um exercício profundo de nos ver com um “terceiro olho” proposto por Aldren, e isso nos ajudava a ter alguma serenidade no processo.
Algumas brechas de luz foram se abrindo no caminho. O homem e a mulher, personagens da cena, foram encontrando suas casas nos corpos de Everton e Ana, e a consciência de que esses personagens são arquétipos comuns na atualidade foi-se ampliando. No entanto, o escuro, com os seus silêncios, ao invés de sumir com o tempo, tornou-se a atmosfera do espetáculo. Afirmou-se. Reafirmou-se.
Ao estrear, no Martim Gonçalves, em fevereiro, não tínhamos um espetáculo pronto. E depois da temporada, o temos menos pronto ainda. Nosso objetivo maior é descobrir o jeito mais livre de estarmos em cena com a presença de todas essas marcas. Caminhamos com as histórias de um homem e uma mulher em direção ao mar. “Um mar que nos foge”? E levamos conosco as marcas invisíveis de tantas mortes, na expectativa de encontrar, pelo caminho, algum sinal de esperança.
A CIA:
Neste ano a Cia de Teatro Gente está completando uma década de nascimento. São dez anos de busca por uma identidade que seja, ao mesmo tempo una e multe, respeitando e sustentando as muitas diferenças de quem a mantém viva.
Nessa busca, a CIA foi montando espetáculos que investigam o corpo vivo do ator, as diversas formas de estar presente em cena, mas que se propõem também a investigar lugares que pertencem a tantas outras questões relacionadas à raça, ao gênero, às origens, às histórias de vida, à espiritualidade, ao social, às individualidades, às relações, à ancestralidade, ao silêncio, ao invisível.
Para onde a Cia está caminhando hoje, aos dez aninhos, com essa pesquisa e mais esse espetáculo cheio de nascimentos e mortes? “Não sei. Sinceramente, não sei.” Mas penso que chegaremos a algum lugar... quem sabe...
No outro lado do mar...
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