VIZINHOS DISTANTES
Fotógrafo alemão mostra semelhanças e diferenças entre Brasil e China
Do dia 27 de outubro a 17 de novembro, a Galeria Plano B, em Laranjeiras, vai exibir uma exposição de fotografias do alemão Michael Ende, que compara imagens do Brasil e da China. Ende é um fotojornalista profissional, que trabalha para importantes publicações européias, como Spiegel, Focus, Facts e Vogue. Também atua no campo das imagens publicitárias e já realizou inúmeros documentários e séries para emissoras de televisão alemãs. Repórter sem medo e sem fronteiras, ele se dedica a temas carregados de aventura, como a corrida do ouro em Amazonas, os problemas do tráfico de drogas na fronteira Brasil-BolÃvia, pilotos que trabalham nas selvas do norte brasileiro, mineração de esmeraldas no Brasil central, as relações entre os Ãndios xavantes e os dentistas alemães que cuidam de seus dentes.
Michael Ende aproxima e afasta Brasil e China. Ele próprio afirma: “certamente, eu tenho os dois lados – o olhar jornalista, que capta o momento, e outro olhar, bem mais interessado em ‘cavar mais fundo’, em não mostrar apenas a superfÃcie. Espero que isto ajude a derrubar preconceitos e barreiras, e tornar as pessoas mais tolerantesâ€. Assim o fotógrafo alemão mostra que Brasil e China têm em comum as mazelas do capitalismo globalizado gerador de exclusão social e populações com espÃrito alegre e cordial, hospitaleiras para o outro que chega de fora.
O crÃtico de arte Mário Margutti, que apresenta a mostra, caracteriza assim o trabalho de Ende:
Tecnicamente, suas fotos são impecáveis: sempre no foco e ricas em texturas, são filhas de um olhar experiente que sabe flagrar o instante denso de significados, sejam eles sociais ou culturais. Fotografando Ãndios, chineses, pessoas de terras distantes, ele não age como os antropólogos pioneiros, que queriam interpretar o outro, decifrar os ritos e sÃmbolos de outras as culturas, muitas vezes rotuladas como primitivas: os balineses, os africanos, os Ãndios sul-americanos, os esquimós...
O fotógrafo Michael Ende age como os etnógrafos contemporâneos, que já renunciaram à posição de autoridade e à decifração da cultura alheia, pois tais recursos não passam de jogos de poder. O outro ainda existe, mas pode ser qualquer um: o vizinho do lado, um Ãndio das nossas florestas, um travesti carioca ou um operário chinês. O outro é um vizinho distante, e por isso é familiar e estranho ao mesmo tempo.
Parte da mostra, também aproxima e afasta adolescência e liberdade. Algumas fotos de Michael Ende receberam tratamento especial: molduras artesanais confeccionadas por adolescentes da oficina “Janelas†do CRIAAD (Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente) de Duque de Caxias. A partir de janelas de demolição abandonadas no Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, os alunos surpreendem o público revelando uma sensÃvel capacidade de recriação e apropriação lÃcita e poética dos objetos. As obras de Ende ocupam os espaços enquanto as janelas representam o descortino destes jovens para o mundo libertário da arte e as diversas possibilidades de construção do viver. Vale conferir com os próprios olhos.
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