colaborações publicadas
Íntegra do meu livro, Flor da Pedra, para download, com exclusividade no Overmundo pelos próximos seis meses.
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Poema para Gabriel Nascente, o mais produtivo poeta de Goiás (53 livros publicados, desde a estréia aos 16 anos, em 1966). Conheci Gabriel aos vinte e poucos anos, mas (estranhamente!) só fui lê-lo agora, depois dos 40. As impressões de leitura são muito fortes, dessas que só aqueles que manejam bem o seu instrumental de "luzir palavras" são capazes de provocar no outro, para o...
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Antes tarde do que nunca. E foi assim, dantescamente, no meio do caminho desta vida, que finalmente me encontrei com a poesia de Gabriel Nascente, o poeta falador que chegou barulhentamente muito antes da segunda e definitiva e sublime impressão. Lembro de já ter entrevistado Gabriel. E me acostumei a vê-lo por aí, sempre às voltas com alguma polêmica nos jornais. Mais que isso,...
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Nunca tinha visto a dama da estranha planta em que folhas nascem das folhas como brincos que se prolongam na ramagem. Cresceu, exuberantemente verde à sombra da varanda, num vaso entre sete-dores, cebolinha, coentro e uma espremida pimenteira.
Tempos depois surgiram na ramagem cachos de um rosáceo de despencada palidez. Ninguém ligou para aquela murcha aparição. Passaram-se dias...
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A prosa da vida inteira de Manuel Bandeira
Ultimamente, o que mais tenho feito na vida é bestar. E com toda a fineza da conjugação e o bom humor do verbo preferido de Manuel Bandeira: bestar. E o melhor de tudo, bestando com a prosa viva e inteligente de Bandeira, o velho bardo que nos legou uma vida inteira de poesia, mas também uma prosa deliciosa de se ouvir, mesmo...
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“(...) Com os docemente dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE.”
A minha primeira vez com Mário de Andrade tinha um Manuel no meio. Um Manuel que seria de uma vida inteira. E Mário me veio como um sentimento poético, uma fineza de sensações, um quase de palavras...
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Com as bênçãos dos deuses do teatro
No coração do Brasil existe uma cidade que conjuga tempo com arte e que vibra com os deuses do teatro no TENPO. A cidade é Porangatu – que já estalou na língua ávida de novidades da atriz e poeta Elisa Lucinda –, uma bela paisagem na tradução do tupi-guarani. Distante 400 quilômetros de Goiânia, no corredor da Belém-Brasília (BR-153), divisa...
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Há leituras que escavam a gente. E escavam desde o brejo do barro mais fundo. Fui procurar o meu avô e a sua saga tropeira no fundo do poço da memória de um Brasil perdido, a sua travessia em definitivo do rio Paranaíba (divisa natural de Minas e Goiás), as águas do grande rio dividindo as Minas Gerais de sua alma espraiando-se nos sertões calejados de Goiás – onde tantas...
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Eu sou produto da escola pública (produto no sentido de resultado). Nunca gastei um tostão com escola, exceto uma especialização que fiz em Relações Internacionais, há alguns anos. E desde que me entendo por gente escuto acalorados debates sobre as deficiências da escola pública, a péssima qualidade do ensino e todas as mazelas que corroem o sistema educacional brasileiro. Eu...
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Entre tons, o louva-a-deus passeia na promessa do jardim.
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Mais uma do louva-a-deus na escalada da flor.
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O louva-a-deus contempla a espera da rosa vermelha...
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Quem sou eu (?)... entre texturas, luminosidade, transparências,
sombras do instante mágico de existir para a plenitude do olhar, a
gratuidade da vida, a sua força no passo adiante.
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Tudo que inspira, instiga a conhecer. O olhar sensível do meu
amigo Leo Iran (fotógrafo) despertou em mim também o desejo de
olhar para os flagrantes instantes do louva-a-deus. E sempre
procuro por eles no jardim. Até que dia desses a beleza desse
espécime aí me agarrou pelo olhar. Fui fisgada. E tenho me
interessado por aquele conhecimento sistematizado...
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Um click, às vezes, é infinitamente mais feliz do que esperamos.
Essa luz reflete a minha alegria pelo flagrante. Louvado seja sempre
o instante de existir.
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O louva-a-deus, segundo JJLeandro uma fêmea, continua
camuflando-se nos objetos da minha sala. Infelizmente, sumiu da
minha vista curiosa. Nas últimas vezes, avistei a danadinha no
trançado da peneira e depois na lança do Dom Quixote de sucata.
Continuo observando-a nos flagrantes da macro na última aparição
no jardim. Aqui ela espicha-se seguindo a discreta...
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Uma história personalíssima do desbravamento do sertão goiano
Queria falar de um Brasil profundo, um Brasil engolido pelo tempo, soterrado por uma palavra que encobriu misérias e enganos monumentais. A palavra é progresso, uma das pernas ufanistas da inscrição na nossa Bandeira, o símbolo augusto da pátria que cantamos no Hino. E esse Brasil é mais profundo ainda se...
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Louva-a-deus no hibisco vermelho, louvando a flor na manhã
ensolarada do meu quintal.
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Louva-a-deus na folha de antúrio, casamento suave de cores e
texturas.
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Apesar da secura arrastando agosto setembro adentro, sem o
menor sinal de chuva, as rosas capturam o olhar. E o louva-a-deus
escala uma rosa vermelha, antes que a doideira de Zéfiro mande
pétalas ao vento.
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O louva-a-deus esquecido de movimentos na maciez aveludada das
pétalas da rosa vermelha... O tempo escorre e ele ali, nem aí para
o espetáculo do meu olhar...
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Parte do meu final de semana foi dedicada a observar um lindo
louva-a-deus. Seguindo o exemplo do meu amigo Leo Iran (que
adora fotografar esses seres) adotei o bichinho. O danado cismou
em fazer da lente da câmera trampolim de apoio. Era só chegar
perto dele e o perna longa saltva para a lente. Mas o resultado
compensou e muito, embora ele tenha dificultado...
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Dirigir o carro do sol não é fácil. Mas deixando a mitologia de lado,
sigo os seus vestígios instantâneos na paisagem do meu quintal... E
o astro rei pinta assim...
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Na brevidade de um click, o rastro fugaz do pôr-do-sol no
horizonte do quintal...
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O sol da poesia ou a poesia do sol. Não, no fundo do tacho
raspado da linguagem, uma imagem, a eterna pintura da vida. Eu e
os meus pretextos, às vezes, fotografia. Instantâneos, uns passos e
céleres segundos e já não alcançamos mais. Fim de tarde, espicho
o olhar para a linha do horizonte, eis a fotografia: o pôr-do-sol.
Corro, pego a máquina fotográfia,...
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Ando de caso com a lua. Até pulo a cerca. Sorrateiramente, saio
para espiá-la. Esqueço as horas e giro noite adentro de olho nela.
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Nada mais bonito que o pôr-do-sol no mês de julho no Planalto
Central. Incêndios no céu de uma paisagem convidativa à
contemplação. E o título é para homenagear Lygia Fagundes Telles.
Venha ver o pôr-do-sol, o conto, abriu em mim os
surpreendentes incêndios das palavras de Lygia. Aquele suspense
todo embrulhado na aparente banalidade de um fim de tarde.
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Lendo Fernando Pessoa, sempre relendo com aguçados sentidos
Alberto Caeiro e deixando o rebanho dos pensamentos seguir as
nuvens... A natureza no quintal mostra a grandiosidade nos
recortes dos dias e das noites. Vou captando, sentindo os
incêndios do sol de julho na paisagem ressequida e exuberante do
cerrado. É na secura que o cerrado explode em cores,...
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Irresistível! E só descobri isso recentemente.
Minha alma faz mesuras e galanteios ao chapéu. O analista com
certeza explicaria. Mas como nunca cheguei perto de um divã,
deixa meu chapéu fora dessa. Sob essa sedução, com certeza,
moram meus afetos, delicadezas, fantasias, utopias e fantasmas.
Numa série de fotos, acho que consegui efeitos inesperados com...
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Impossível a indiferença do olhar quando a beleza que se propõe
no meio do caminho, no incêndio do dia, é da flor do maracujá. Ela
sempre captura o meu olhar. Quanto mais me entrego mais beleza
descubro. Nesta, além da harmonia das cores e forma, vou no
embalo do movimento da flor em sua pacífica entrega à suavidade
de Zéfiro.
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Bem que tentei flagrantes de vôos e detalhes visuais. Mas os
gaviões estão sempre no alto, dificultando os clicks. Aqui, num
breve e arisco repouso nos galhos da sucupira rosa. O carcará,
quando aparece no pedaço é de endoidecer as galinhas, que
fogem aflitas em busca de abrigo. Passei a manhã de olho nesses
predadores naturais do meu quintal.
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Exímias caçadoras, ferozes e ariscas. Elas estão sempre por perto,
mas mantendo a distância segura dos três metros. Eu sempre de
olho...
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O generoso mamoeiro faz a festa das manhãs e tardes dos
majestosos tucanos que dão o ar da graça colorida no quintal. Eles
estão chegando cada vez mais perto e ficando mais tempo. Vêm em
busca de alimento e se acostumam à segurança de uma convivência
pacífica, sem ameaças. Algumas vezes apenas os meus clicks
insistentes, mas respeitosos e guardando a devida...
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Passei e vi a surpreendente florada de uma árvore que nem
imaginei que fosse ipê. Estava sem máquina fotográfica. E fiquei
com medo de perder o flagrante, pois a florada do ipê quando
despenca rumo ao chão é em questão de horas. Lição aprendida
na prática. Há uns três anos passei por um ipê amarelo, daqueles
de endoidecer de tão bonito. Não parei para fotografar...
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Cravei os dentes. E não cravei sozinha. Como num círculo tribal em
que se reparte com fé o pão da vida, a primeira graviola do meu
quintal foi recebida com um prazer ritualístico. E dividida
irmanamente entre os que a viram madura e os que a desejaram.
Foram quase quatro longos anos de espera pela generosidade do
fruto, que na forma lembra a ata, a fruta-do-conde...
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Que flor linda a do maracujá! Descobri no fundo do meu quintal um
invasor exuberante. Pulou a cerca do vizinho e está flertando com
as árvores do meu quintal. E veio com força total. E já abriu
caminho entre as guarirobas, jacarandás do cerrado, sucupiras,
limoeiros e bananeiras. E vai trepando, de árvore em árvore, e
explodindo em cores numa floração singular....
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Linda, linda essa florzinha, que nem sei o nome, mas é um luxo
visual no meu quintal que fica no quadrilátero de Zéfiro. E quando
ele acorda brisas, ah, nem conto das delícias. Essa florzinha ao
vento é toda leveza...
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Além dos pássaros-pretos, claro, o que mais gosto nesta foto são
essas zonas de luz e sombra e os triângulos... Ãngulos e mais ângulos
pontilhando a moldura de um céu azul, azul.
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Flores pra que te quero... Quero. O exercício do olhar na calmaria
do quintal, o universo das encantadas miudezas e realezas. Ah, eu
quero!
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Ando flora, flora. Flora, flor da pele. Atenção desdobrada aos
quadrantes do quintal. Hibiscos! Ah, os viris hibiscos polinizando a
rosa dos ventos, num infindável duelo com Zéfiro. Às vezes tento e
algumas vezes consigo, o flagrante exposto à luz matizada do dia.
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Nunca escutei canto mais alegre do que de pássaro-preto, o
sertanejo "passo-preto". Voam em bandos, fazem solo, duetos,
quartetos, quintetos, sinfônicas. E, melhor que tudo, no meu
quintal, no teto da minha casa que beija o céu (pé direito de oito
metros!), no cata-cata de bichinhos da grama, embaixo das
mangueiras. Teve um que se enamorou da minha janela...
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Vermelhos estratégicos no jardim, sensualidade para capturar o
olhar que passeia displicente pelas tardes. Vermelho nervura,
explosão despudorada de um hibisco. Ai! Que fisgada!
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No bréu da noite e dos medos, a estonteante lua vem me contar
segredos meus, desses bem guardadinhos, guardadinhos...
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Glorioso, o sol mergulha na linha do horizonte e vai sumindo entre
azuis e segredos do mundo de lá... Na cortina desses bréus
recorto flagrantes e colo na moldura do fim do dia.
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Ele era minúsculo, mas ficou gigante na minha lente de tanto que
me espichei feito lagartixa para capturá-lo na teia dos movimentos
do meu olhar. Esses dias amarelos e arregalados são um santo
remédio para as dores da alma.
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Azul esgotado, cena de uma tragédia no quintal
Três jovens talentos no palco e a mão sensível de uma diretora teatral, discípula do irreverente e inventivo Hugo Rodas. E o princípio dos princípios: o fio de uma idéia, aquele fiapo que puxamos de um misterioso novelo que se chama processo criativo. A cena, que inicialmente nem era cogitada no novelo que se desenrolava,...
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Ainda rodeando o toco, com a série corujas no quintal
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Mais do que na hora de encerrar essa overdose de lua. Lua cheia,
cheia de lua, cheia de graça e graças enluaradas. Que venham as
outras fases: quarto crescente, nova, minguante. Mas sempre de
olho nela e nos seus rompantes abrindo a cortina do céu.
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Esta imagem é só para erguer um brinde ao anjo torto
Carlos Drummond de Andrade, o primeiro poeta da minha alma, já
recitanto uns versos: "(...) Mas essa lua/mas esse
conhaque/botam a gente comovido como o daibo".
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Essas luas nas manhãs, esse tênue rivalizar com o sol no
firmamento. Imagens que me encantam no meu quintal. E justificam
sair da cama tão cedo. Aqui, a Lua Branca, para homenagear
Chiquinha Gonzaga, uma mulher que soube se impor na vida e na
história do Brasil.
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Curvas da manhã, curvas da lua, curvas da mangueira... Esses
contornos diáfanos da aurora no meu quintal.
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O céu com o mesmo azul cristal do Planalto Central, sem efeitos de
computação. E a corujinha atenta integra o clã que há algumas
gerações fazem a festa no meu quintal. Aqui, a coruja-buraqueira
(faz a toca em barrancos e cupinzeiros) no galho de um
jacarandazinho do cerrado.
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Tons e ângulos, numa doida perseguição à lua que baila na manhã
plena de céu.
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A exuberância do cerrado, principalmente no período de seca, é
qualquer coisa de tirar o fôlego e prender o olhar. Sucupiras rosas
e roxas, ipês amarelos, rosas e roxos, e o abençoado pequizeiro. A
florada do pequizeiro é uma das coisas mais lindas que já vi na rica
flora do cerrado. No meu quintal, dois pequizeiros (plantados por
mim) compõem a paisagem...
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Guariroba é uma palmeira típica do cerrado, que produz um
palmito amargo muito apreciado na culinária goiana. Tenho vários
pés de guariroba no quintal. Claro, estes jamais irão para o prato.
O coco, quando maduro, faz a festa dos passarinhos,
principalmente periquitos. Aqui, a folhagem da guariroba serve de
persianas para emoldurar a lua neste click.
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Lua, lua, sempre lua, em todos os quadrantes do meu quintal. Aqui,
ela sobe e espraia-se na quina do telhado.
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Gilberto Gil tem uma música fantástica sobre a lua. O Canto de Gil
me impressionou mais pela palavra do que pela musicalidade, em
plena corrida da conquista da lua... Para homenagear Gil, uma
referência ao Lunik 9: "Poetas, seresteiros, namorados,
correi/É chegada a hora de escrever e cantar/Talvez as
derradeiras noites de luar". Perdoem qualquer deslize...
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Gosto muito desse negócio de espichar o olhar para tudo o que
brota no meu quintal. E a bananeira que plantamos para camuflar
os holofotes do vizinho deu cacho. Numa manhã qualquer (que
nunca é uma manhã qualquer), me deu uns clicks e... Bem, eis a
bananeira com seus frutos, um sedutor sol a pino, desses de
dourar a pele, e um azul puríssimo pontilhado...
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Gosto de miudezas, essas belezas miudinhas que, num rompante,
agarram o nosso olhar e se agigantam. A flor amarela do
flamboyanzinho de jardim (aqueles naniquinhos mesmo), com a
vagem onde dormem as sementes, impõe-se com delicadeza na
imensidão do céu. Flor, haste e vagem, ensaindo uma forma de vôo.
Beleza pura. Ah, e com essa história dos diminutivos mais...
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Numa dessas noites de lua cheia, não sei se no final de maio ou
início de junho, não resisti aos encantos da eterna namorada dos
poetas. Saltitei no bréu do quintal para captar cenas da lua na
instigante moldura do meu olhar em movimento. Nesta aí, ela
brinca de esconde-esconde comigo, uma bela aparição atrás do
Nin.
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Essas manhãs e seus dourados acendendo o fogo sagrado
da vida, um dia após o outro. E eu ainda tenho fé nos dias que
virão.
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Ele dança com deuses e demônios
Tenho um amigo fotógrafo, o José Afonso Viana (Zekafonso para os íntimos), que me acompanha há mais de 20 anos. Ele fotografou minha irmã caçula, Jordanna, aos cinco anos e ao longo das últimas décadas flagrou vários momentos dela, como apresentações teatrais, formatura... Essas coisas prosaicas da vida que depositamos nos álbuns de família...
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Um dos quadros da Frida Khalo que mais gosto é O
Vestido. Adorei aquele vestido sobressaindo-se entre os
automóveis. Click, click, click. E um vestido para compor a
minha imagem de lua e aurora...
Vou exercitando o olhar.
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Moro num lugar privilegiado. Em qualquer direção a minha vista
alcança sempre a linha do horizonte. Bom ver a cidade ao longe,
na moldura do dia ou da noite. E fico atenta às fases enamoradas
da lua. E também imagino umas coisas, umas cenas. Aqui, a lua no
varal, por volta das seis horas da manhã... E tome clicks.
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Há mais de 20 anos convivo com fotógrafos, por força da profissão.
Muitas vezes, não resistia à tentação e acabava funcionando como
um terceiro olho, chamando a atenção para um ângulo, uma leitura
de contexto ou mesmo detalhes de cenas que considerava dignas
de click. Mas como fotografia exige mais do que olho (que é muito
importante, claro), ficava com preguiça...
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Com as cores da alma
Os melhores escritores que li na vida eram os que sabiam pintar com as palavras. Melhor: sabiam pintar e bordar com as palavras. Tinham na paleta mágica das palavras as cores da alma e o poder do encantamento da agulha – a nos cutucar e remendar por dentro.
Escritores de palavras... Passei por tantos... Escritores de imagens... Esses moram na minha...
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Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe que é uma tradução de Brasil
Mário, Mário!
Por muito, mas muito tempo mesmo, você ficou esquecido entre tantos e confusos títulos na minha estante... Até que veio o baque, o estalo, o romper da casca. Mas essa é uma outra história que não convém relatar agora. E não vejo outra forma de contar da alegria do meu encontro com...
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As imagens capturadas por olhos frenéticos de ver, descobrir, sentir e transpor um quê de incômodo espelho na alma compõem mais que a paisagem, um itinerário de tempo transcorrido e vertido nos passos das gerações, essa sucessão na corrente sanguínea e nas águas tranqüilas de um rio de nome sugestivo: Rio Vermelho. Histórias que mexem e remexem com a gente, sem explicação plausível....
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No coração do Brasil existe uma cidade quente, eqüidistante mil e quinhentos quilômetros dos portos de Itaqui (MA) e de Santos (São Paulo). Para o Norte ou para o Sul lá estão eles, os mil e quinhentos quilômetros que sonham com a ferrovia, a Norte-Sul, que teima em não passar por aqui e chegar até à bela paisagem de Porangatu (Goiás), onde um tupi-guarani batizou o que viu...
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Hoje resolvi futricar em uns textos antigos e eis que esbarro neste registro pra lá de emocional de um encontro com Adélia Prado, ocorrido em Goiânia, se não estou equivocada no dia 26 de maio do ano passado. Foi um dia de alegria para o meu coração devotado à poesia da borboleta pousada Adélia Prado. Aliás, a primeira vez que a poesia de Adélia soprou no meu ouvido foi com um verso...
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Taquicardia
O sol continua fabricando manhãs na minha janela
Manhãs de nunca mais o brilho
Do teu olhar abrindo as cortinas
Nunca mais aquela alegria sem explicação
As tardes ficaram longas e vazias
Faço pausas no trabalho
E respiro profundamente a sua ausência
Que me inunda a alma de nunca mais
Os ciclos se repetem
O tempo...
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A magia dos dias está nas surpresas da vida. Aquilo que toca e sacode o nosso mortal cotidiano. Gosto da minha vidinha sossegada, mas também sou uma pessoa de viradas bruscas – nunca inconseqüentes -, dessas de dinamitar pontes, virar a casa de pernas para o ar, bater a porta e não olhar para trás. Gosto do remanso do sossego na medida do possível, o que não me impede de mergulhar...
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As pedras falam. Só aparentemente calam. As pedras condenam. As pedras explicam. As pedras gritam perguntas além do tempo dos homens presentes e da vida presente, como diria o poeta Carlos Drummond, que encontrou no meio do caminho uma pedra-enigma. A imagem mais forte que queimou (e queima) dentro de mim como um guardado incômodo na alma é a das pedras da Cidade de Goiás.
Impossível...
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Vellozia é nome de planta. Popularmente conhecida como canela-de-ema esta planta alonga-se em uma haste que lembra mesmo a ave pernalta do cerrado, parecida com avestruz. Mas a beleza da vellozia está mesmo na flor lilás e na sonoridade da palavra. Esqueçamos a etimologia e os dicionários. Que palavra soberba, linda e perfeita! Na ausência de uma palavra mais apropriada, digo...
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Fragmentos de um discurso amoroso.
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“Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo daí, é póstumo”.
Guimarães Rosa
Outro dia li o texto de um menino na internet que falava do quanto o exercício da escrita tinha aberto os canais de sua sensibilidade. E penso em canais de rio, os subterrâneos da alma que afloram à luz de uma terra fértil. Ele usou a expressão...
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(Re) lendo Bandeira, o Manuel de todas as deliciosas horas entre procuras e prateleiras, as lombadas de letras douradas, da modesta biblioteca do Colégio Estadual Professor Pedro Gomes, que me encheu os olhos de uma febril cobiça. Entre química orgânica, fisico-química, trigonometria, matrizes, tabela periódica, números atômicos, camadas de cebola no microscópio, a biblioteca, o...
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- Pode ser devagar?
- O quê?
- O mundo, ué.
- Ah, sei não. Tô muito ocupada agora. Depois a gente conversa sobre isso.
Esse diálogo tatibitateante e descompassado coloca na balança dois pesos (im) ponderáveis: o mundo na velocidade da máquina e o mundo (cada vez mais perdido) na velocidade natural do homem – regulado pelos ciclos da natureza e a biologia. Apesar da máquina,...
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(...) Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e...
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