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100 ANOS!

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para_raros · Belém, PA
19/11/2008 · 186 · 28
 

Não havia nada de sobrenatural se o jovem Zélio Fernandino de Moraes, 16 anos, fosse uma pessoa normal. Em fins de 1908, Zélio, vítima de estranha paralisia, ergueu-se do leito e contrariando todos os prognósticos médicos, negativos quanto à sua recuperação, profetizou:

- Amanhã, estarei curado.

Os parentes não acreditaram. Filho de família tradicional de Neves, no antigo Estado do Rio, Zélio tinha-se tornado fonte de todas as preocupações e angústias dos seus pais, que sonhavam em vê-lo exibir a farda da Marinha e galgar os degraus de uma brilhante carreira militar. A doença, como uma montanha, interpunha-se entre o jovem e os planos dos seus familiares.

Surpresa. Estupefação. Alegria. No dia seguinte, como anunciara, Zélio levantou-se normalmente. Começou a andar como se nada tivesse acontecido. Milagre?

Os tios de Zélio eram padres. Foram imediatamente chamados para esclarecer o estranho fenômeno. Por que recuperação tão rápida, quando todos os médicos consultados eram céticos quanto ao destino de Zélio?

Ninguém conseguia encontrar resposta satisfatória. Finalmente, um amigo da família sugeriu que Zélio fizesse uma visita à Federação Espírita de Niterói, centro de grande conceito e renome à época. No dia 15 de novembro de 1908, Zélio foi convidado para participar de uma sessão. Nenhum dos parentes poderia imaginar que os acontecimentos que ali se desenrolariam seriam decisivos para o surgimento de uma religião nova que, com o passar dos anos, galvanizaria as atenções de mais de 30 por cento de brasileiros, ramificando-se em todos os pontos do país, com códigos próprios, regulamentações próprias e elementos éticos e filosóficos de algumas das mais avançadas religiões do mundo.

Na sala, Zélio era apenas mais um que procurava a Federação em busca de uma explicação para fenômenos paranormais. Foi convidado a ocupar lugar à mesa e quando já tinha ocupado o lugar que lhe fora reservado, sentiu-se tomado de “uma força estranha e superior”. Quebrando as normas – que impediam o afastamento de qualquer dos componentes da mesa – Zélio levantou-se e pronunciou uma frase que entraria para a história:

- Aqui está faltando uma flor!

E retirou-se da sala. Saiu e retornou trazendo a flor que faltava.

Houve um certo mal-estar. Afinal, a corrente fora quebrada. O que estaria acontecendo com Zélio?

Quando os trabalhos recomeçaram, fatos ainda mais insólitos ocorreram: no seleto ambiente da Federação, onde só desfilavam espíritos superiores, começaram a se manifestar espíritos que se apresentavam como escravos, índios, caboclos. Foram convidados a se retirar, devido ao seu atraso espiritual.

Zélio não se conformou. Não que pensasse em reagir. Mais uma vez era tomado por “uma força estranha” que o impelia a contestar a discriminação dos espíritos, só porque pertenciam a classe social inferior, de cor negra ou amulatada, ainda muito discriminada no início da década, quando se mantinham bem vivas as imagens da escravidão.

Houve diálogos acalorados. Para um jovem de apenas 16 anos, Zélio conduzia-se com grande desenvoltura, sustentando ponto por ponto de sua argumentação. Os médiuns se sucediam tentando contestá-lo, até que um resolveu fazer uma pergunta direta:

- Por que o irmão fala nesses termos pretendendo que esta mesa aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramente atrasados? E qual é o seu nome, irmão?

Zélio, tomado pela força misteriosa:

- Se julgam atrasados estes espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho (Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos encarnados e desencarnados. E, se querem saber meu nome, que seja: o Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.

O debate prosseguiu:

- Julga, irmão, que alguém irá assistir ao seu culto? – indagou um médium sem disfarçar a ironia.

O Caboclo Sete Encruzilhadas:

- Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei.

A sessão terminou. Anos mais tarde, Zélio lembraria:

Minha família estava apavorada. Eu mesmo não sabia explicar o que se passava comigo. Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabeça branca, em volta da mesa onde se praticava um trabalho para mim desconhecido. Como poderia aos 16 anos organizar um culto? No entanto, eu mesmo falara, sem saber o que dizia nem por que dizia. Era uma sensação estranha: uma força superior que me impelia a fazer e dizer o que nem sequer passva pelo meu pensamento.

Finda a sessão, todas as atenções se voltaram para o dia seguinte. O Caboclo cumpriria a promessa? Ficou marcado, pelo próprio Sete Encruzilhadas, que o novo culto seria lançado às 20 horas. Recordaria Zélio:

E no dia seguinte, em casa de minha família, na Rua Floriano Peixoto, 30, em Neves, ao se aproximar a hora marcada – 20 horas – já se reuniam os membros da Federação Espírita, seguramente para comprovar a veracidade do que fora proclamado na véspera; os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado de fora, grande número de desconhecidos.Pontual, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, às 20 horas, declarou que iniciava um culto novo e aberto aos espíritos dos velhos africanos, que haviam sido escravos e que, desencarnados, vagavam pelo além sem encontrar terreno para manifestar-se nas seitas negras. Estas teriam sido deturpados e dirigidas quase que exclusivamente para a feitiçaria, no entender do caboclo. Na nova seita não haveria discriminação de cor, de credo ou de condição social. Todos seriam iguais. A prática da caridade seria a característica principal, o pilar onde se sustentaria o novo culto, que teria por base o Evangelho de Cristo e Jesus como mestre supremo. O ingresso ao culto seria gratuito, os trabalhos se realizariam diariamente entre 20 e 22 horas e os participantes deveriam trajar-se de branco.

Deu também o nome da nova religião: allabanda, assim um dos participantes anotou. Logo resolveu mudá-la por considerar que allabanda era pouco vibratória. Assim, substituiu o nome original por aumbanda, palavra de origem sânscrita que significa “Deus ao nosso lado” ou “o lado de Deus”. Ficou o nome Umbanda porque, provavelmente, na hora de anotar alguém separou o a do resto da palavra, escrevendo a umbanda.

O caboclo surpreendeu aos presentes falando em latim e alemão. Zélio contaria num dos depoimentos sobre sua vida:

A casa de trabalhos espirituais que no momento se fundava recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolhe o Filho nos braços, também seriam acolhidos, como filhos, todos que necessitassem de ajuda e conforto. Ditadas as bases do culto, após responder em latim e alemão às perguntas dos sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou à parte prática dos trabalhos, curando enfermos, fazendo andar aleijados. Antes do término da sessão, manifestou-se um preto-velho, Pai Antônio, que vinha completar as curas.

O Jornal Gira de Umbanda atribuiu ao Pai Antônio o ponto que se popularizaria em todos os terreiros de umbanda, como saudação ao fundador do novo culto:

Chegou, chegou, chegou com Deus, chegou, chegou o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Esta é a história – misto de verdade e lenda – do nascimento da Umbanda no Brasil. Independente de que a tradição oral tenha acrescentado ou camuflado sobre o que aconteceu ao menino Zélio naquele fim de ano de 1908, quando os monarquistas ainda sonhavam em tomar o poder e a República engatinhava, um fato é incontestável: Zélio jamais poderia imaginar que, ao morrer – desencarnar segundo a terminologia da umbandista -, a nova religião que fundou teria uma legião de 30 milhões de adeptos (estimativas apresentadas no Segundo Festival Mundial de Artes e Culturas Negras, realizado em Lagos, na Nigéria), com templos espalhados por todo o país. Um crescimento muito rápido para uma religião tão jovem. Não foi fruto apenas do misticismo do povo, que, claro, influiu e pesou muito. É que, ao contrário do Candomblé, a Umbanda é uma força organizada: tem jornais, federações, escritores umbandistas que produzem farta literatura e redes de casas comerciais especializadas na venda dos artigos de Umbanda. Uma organização bem mais poderosa do que previu o jovem Zélio na sua polêmica com os sisudos médiuns da Federação Espírita de Niterói.


Sobre a obra

Trecho do livro Misticismo no Brasil originado da pesquisa de Eduardo César S. F. de Oliveira.

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Coluna do Domingos
 

Muito bom trabalho

Coluna do Domingos · Aurora, CE 18/11/2008 10:38
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para_raros
 

Muito obrigada, Domingos!

para_raros · Belém, PA 18/11/2008 18:32
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alcanu
 

Pesquisa apurada, leitura gostosa !
A Casa de Meu Pai deve ter mesmo muitas Moradas...
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 18/11/2008 19:15
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Almirante Águia
 

Gostei, texto bem feito, rico em detalhes, com uma musicalidade que não permite o desinteresse.
São as Histórias do Brasil.

Almirante Águia · Itaberaba, BA 18/11/2008 22:26
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Ivette G.M.
 

Há dias, lí no jornal algo parecido, talvez retirado do mesmo texto que você cita. É muito interessante este tipo de conhecimento. É muito bom conhecer a história das religiões e manifestações culturais religiosas. Parabéns. Votei
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 19/11/2008 09:04
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Vilorblue
 

Esta ai, eu não sabia sobre a origem da Umbanda no Brasil, confesso minha ignorância, o autor foi muito feliz em resgatar parte da história.
Bem explanado..
Votado...

Vilorblue · Colombo, PR 19/11/2008 09:36
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para_raros
 

Muitas Moradas, Al. Mas, sempre o mesmo Pai!
Um beijo!

para_raros · Belém, PA 19/11/2008 09:38
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Paulo Esdras
 

Interessante! Também não conhecia a origem da Umbanda. Ótimo texto! Abraços!

Paulo Esdras · Brumado, BA 19/11/2008 10:32
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Eloy Santos
 

Saudações, Para_Raros.
Eu a parabenizo por esta sua verdadeira e sincera mensagem sobre a Religião Brasileira.
Como você mesma afirmou, nossos textos em homenagem à admirável Umbanda têm a mesma meta.
Com a idade, não perdi meus sonhos, desejos e utopias da juventude.
Minhas preocupações com as questões sociais são permanentes.
E defender a Umbanda é defender um patrimônio incalculável do povo brasileiro.
E esse patrimônio continua sendo atacado por obscurantistas odiosos e odientos.
A Umbanda os derrotará como derrotou a intolerância do clero e o terror do aparelho policial do Estado em outras épocas.
A Umbanda tem parte da alma nacional.
Como companheiro de viagem eu a saúdo, amiga: saravá!

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2008 10:42
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Paulo Apolonio
 

Interessante.
Eu sou de Ketu e sou um pesquisador da religião: candomblé.
Onde conseguiu essas informações?
Bom trabalho

Paulo Apolonio · Salvador, BA 19/11/2008 10:49
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Dú Karmona
 

Muito bom texto...
leitura gostosa.
bj na alma!!!

Dú Karmona · São Paulo, SP 19/11/2008 11:17
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Benny Franklin
 

Excelente! Muito bom.
Abçs.

Benny Franklin · Belém, PA 19/11/2008 11:24
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Sergio Berrini
 

Mais um importante texto (assim como o do Eloy) sobre a Umbanda.
Votado!

Sergio Berrini · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2008 12:58
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azuirfilho
 

para_raros · Belém (PA) ·
100 ANOS!
Trabalho muito bom para ampliar entre nós a Toleráncia religiosa táo diversificada da nossa irmandade Humana.
Um, Trabalho pra nos estimular a congracar com todos irmáos e todas as Religióes.
Inclusive ir lá prestigiar a Religiáo e o nosso Irmáo Querido.
Parabéns pelo texto muito bonito, carinhoso e com tantas familiaridades das crencas dos Brasileiros.
receba minha admiracáo .
Contribui para as pessoas terem amor no coracáo e ajudarem a tornar o mundo melhor.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 19/11/2008 13:27
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Coluna do Domingos
 

votei

Coluna do Domingos · Aurora, CE 19/11/2008 14:04
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celina vasques
 

celina vasques · Manaus, AM 19/11/2008 14:49
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Phelipe Janning
 

votado!

Phelipe Janning · Florianópolis, SC 19/11/2008 15:47
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José Cycero
 

Que aula heim. Informes interessantísimos sobrmaneira para um tema ainda hoje carregado de incompreenções por grande parte da nossa sociedade, por puro preconceito e desconhecimento cultural e histórico. Gostei, votei. Obrigado overmana pela contribuição que deste.

José Cycero · Aurora, CE 19/11/2008 17:06
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João Bosquo
 

Desculpe a demora. Votado.

João Bosquo · Cuiabá, MT 19/11/2008 17:51
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etetuba
 

...

etetuba · Belém, PA 19/11/2008 18:33
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Erode Lino Leite
 

Uma beleza de artigo! Assim como é bela essa manifestação religiosa!

Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 19/11/2008 18:52
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

um grande texto no sentido exato da palavra, parabéns.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 19/11/2008 19:11
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clara arruda
 

De uma lan,deixo carinhosamente meu voto.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2008 19:34
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raphaelreys
 

E viva a nossa origem afro! Vivas os Orixás e os santos nagôs. Viva Apará! Cosí, Obá Can. Afí Olurum!

raphaelreys · Montes Claros, MG 19/11/2008 20:55
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Eloy Santos
 

Votei.

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2008 21:47
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Raiblue
 

Ótimo texto!! Bastante esclarecedor!

beijinhos blue....
Blue

Raiblue · Salvador, BA 19/11/2008 22:27
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joe_brazuca
 

Excelente pesquisa e trabalho !
O Eloy tb tem um bem parecido e fala do mesmo, tb com exímia proficuidade, como o seu.
votado e parabens !

joe_brazuca · São Paulo, SP 20/11/2008 01:26
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carlos magno
 

Adorei minha amiga Para_Raros. Belíssimo texto. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 22/11/2008 22:31
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