O problema, você lembra ao pagar a conta no balcão, é a merda do Efeito de Deslocamento.
Desde que descobriram que dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço e o Princípio de Arquimedes foi pras picas (ao contrário da Lei de Newton, que, reza a lenda, um parlamentar burro do tempo de seu avô tentou revogar), a aplicação mais utilizada foi no mercado imobiliário. Nas grandes cidades, onde as pessoas disputam a tapa uma vaga em apartamento (sim, existem os muito pobres que nem isso têm, e você que dê graças a um deus no qual não acredita por não fazer parte dessa turba, dessa plebe rude), os grandes conglomerados encontraram a solução ideal: a divisão pelo deslocamento.
É o seguinte: você mora num apartamento superconfortável, 120 metros quadrados, tipo loft, cheio de espaço só para você. Certo?
Sim e não.
Por intermédio de um uso inteligente de um A.D.E.U.S. (Aparato de Deslocamento Espacial Universal Simples) e um sistema de chaveamento remoto a prova de falhas, seu apartamento pode trocar de lugar no espaço com vários outros. Claro, há algumas inconveniências. Por exemplo, quando outro apartamento está ocupando o seu lugar no espaço, você está em outra zona de tempo, uma espécie de zona do crepúsculo, um sub-espaço de onde você não pode sair até que o outro ceda passagem. Até onde você sabe, nunca houve nenhum tipo de acidente: quando está na zona do crepúsculo, o apartamento fica hermeticamente fechado. Portas e janelas não abrem nem fodendo. Você está seguro até que seja a sua vez de sair para o universo dito convencional.
Porque as coisas não são tão simples assim.
Você tem ouvido histórias.
De pessoas que encontraram universos paralelos nessa tal zona do crepúsculo. Que, ao invés de ser uma região segura e desolada (assim dizem os folders de propaganda das imobiliárias), pequena e autocontida, na verdade ela seria um nexo temporal, ou seja, uma encruzilhada onde vários universos paralelos poderiam se cruzar.
Alguns dizem que isso acontece.
Você não costuma ser paranóico, mas que as bruxas existem, existem. Você dá meia-volta.
Talvez ainda dê tempo. Talvez ela ainda esteja lá.
O elevador demora para chegar ao sexto andar.
Do lado de fora do corredor, as portas são as mesmas. Todas as portas são pardas, você pensa, mas se irrita com essa sua mania babaca de inventar poesia nas horas mais inconvenientes.
Você torce para o 636 ainda ser o mesmo. E, se for, você reza para que ela ainda seja a mesma.
O que você vai encontrar do lado de dentro?
Só abrindo a maçaneta.
E você abre.
abro a braguilha e mostro para a bailarina. pura poesia! fábio, valeu! o 636 continua no próximo capítulo...(para um poeta de meias, palavras bastam)
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 24/7/2006 01:01estou sem meias, mas as palavras me bastam: gratíssimo por elas, Eduardo! Consegui manter a tocha do 636 acesa? Que esse projeto supere qualquer coisa que David Lynch já tenha feito! E vamos ver como essa odisséia continua no próximo capítulo!
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 24/7/2006 08:15
manteve acesa e levou à frente, fábio! valeu mesmo.
quem mais?
faaaabio, c nem imagina o quanto viajei nesse papo de A.D.E.U.S.
fiquei me imaginando...louca...tentando abrir as janelas na tal zona do crepúsculo...putz...
é o próprio 636...onde vários universos paralelos se tocam...se trocam...
me ins pira
Então continue de onde parei, Luciana! Eu adorei o seu conceito do Hóspede 22! Quantos mais não haverão nesses universos paralelos (ou piralelos, já que estamos todos pirando saudavelmente) ;-)
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 25/7/2006 13:08E aí, alguém continuou? Tenho navegado pelo Overmundo e não vejo nada...
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 13/8/2006 21:18Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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