A alienação cósmica

1
João de Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
2/4/2011 · 4 · 0
 

Amostra do texto

O mundo para as primeiras civilizações era como o interior de uma ostra rodeada por água. Abaixo da terra, encontravam-se as águas profundas, que e emergiam sob a forma de fontes e rios. Acima do céu encontravam-se as águas superiores, que caíam na terra através de orifícios no firmamento formando chuva. Para os egípcios, os céus eram povoados por criaturas fantásticas. A Lua era devorada por uma porca resultando em um eclipse ou nas fases lunares. O Sol era devorado por uma serpente durante um eclipse solar, mas “aquelas tragédias, como as dos sonhos, eram ao mesmo tempo reais e não reais; dentro de seu berço (...), o sonhador sentia-se regularmente seguro.”

A origem dos mitos provavelmente ocorreu nos primórdios pré-humanos da evolução da razão e da linguagem, e sua formulação se deu em nível coletivo e inconsciente, misturando sonhos com realidade. Foi neste mundo que os humanos viveram durante praticamente toda sua existência. Os primeiros povos a romperem com os mitos foram os gregos. Por volta de 600 AC. os gregos se voltaram para o mundo questionando-o e buscando respostas de forma cada vez mais lúcida e racional. Um dos problemas que eles perceberam foi que os deuses de cada cultura se assemelhavam a seus povos. Se os leões erguessem uma civilização, raciocinaram eles, seus deuses teriam forma de leões. Eles perceberam que as narrativas míticas estavam permeadas de influências que mais diziam respeito às características de cada cultura que à estrutura da realidade. Para satisfazer a razão as explicações teriam que ser mais elementares e abstratas. Após essa percepção bastaram algumas décadas para que os gregos soubessem que a Terra era uma esfera flutuando no espaço vazio. Nos séculos que se seguiram essa nova maneira de olhar o mundo fascinou gerações e transformou a condição humana de forma jamais vista.

A aplicação da razão a esta esfera de conhecimento foi uma subversão desta habilidade. Um hominídeo emergente poderia saber quem roubou suas frutas, ou que sua esposa está o traindo, mas não porque o Sol nasce e se põe no decorrer do dia. A contemplação do mundo e da própria existência humana poderia despertar o desconforto investigador da razão, porém esse desconforto não poderia ser saciado, pois nenhuma resposta para essas perguntas poderia ser alcançada. Uma das possíveis razões do sentimento místico existir foi afastar a razão dessas indagações e concentrá-la onde ela é realmente útil e eficaz. Assim, com o auxílio da linguagem, os seres humanos permearam o mundo com criaturas e lugares fantásticos. Mesmo nos dias atuais, em regiões pouco desenvolvidas, as culturas são povoadas por superstições e acontecimentos fantásticos sem que ninguém tenha muita necessidade de questioná-los seriamente. A condição estranha para os humanos não é o mito, e sim a ciência.

Com o despertar grego, a razão, que até o momento tinha estado confinada à vida prática, libertou-se para o mundo. Tal fenômeno pode estar relacionado à racionalização das relações sociais através de sua quantificação, decorrente da implementação da economia monetária que se espalhou pela Grécia no momento em que seus primeiros pensadores estavam surgindo. Além da libertação do indivíduo da trama social, que o fez olhar para o mundo com um desprendimento que nunca antes havia sido possível, a racionalidade matemática do dinheiro pode ter fornecido o modelo que possibilitou aos gregos darem o salto que libertou a razão. Assim como o dinheiro unificou todas as coisas reduzindo-as a um único denominador comum, o primeiro pensador grego, Tales de Mileto, tinha como principal preocupação a busca de um princípio que unificasse toda a realidade.

Com o progressivo amadurecimento do uso da razão, os mitos deixaram de ser uma resposta satisfatória. Desta forma, os humanos deram uma mordida no fruto proibido e se precipitaram sobre o abismo. Simplesmente não havia a menor possibilidade de os gregos, com seus recursos tecnológicos limitados, conhecerem racionalmente o mundo, ou mesmo, o homem. Como constatou a ciência dos nossos tempos, entender a existência se mostrou ser um empreendimento muito mais difícil do se imaginava. Por volta de 400 AC., após dois séculos de pensamento, em que cada novo filósofo apresentava sua visão particular de mundo, os pensadores gregos começaram a duvidar da possibilidade de se adquirir conhecimento verdadeiro. Sócrates e Platão tentaram resolver o problema se voltando para o conhecimento interior, que podia ser sondado através da introspecção, mas o abismo já havia sido contemplado e uma crise intelectual se abateu sobre a civilização mediterrânea.

Na época do despertar grego, o mundo objetivo e o sagrado não estavam dissociados, e a busca científica era também uma busca espiritual; mas gradualmente esta união foi desfeita. À medida que a sociedade se secularizava, seitas subjetivistas e ocultistas — muitas delas vindas do oriente — prosperavam. Nos últimos séculos do Império Romano a escola mística neoplatônica dominava os principais centros intelectuais do mundo civilizado refletindo uma ânsia por espiritualidade. A solução para a crise, no entanto, veio de uma província remota do Império. Na região de Israel, a cristandade se formou e se espalhou pelo mundo civilizado, substituindo a crença nos velhos deuses tradicionais.

A religião cristã tinha uma espiritualidade mais desenvolvida e intelectualizada que a da antiga ordem pagã. Ela surgiu no mundo civilizado e herdou o raciocínio de meio milênio de tradição filosófica. Ao mesmo tempo em que apresentava um deus abstrato o suficiente para convencer a razão, ela fornecia uma figura — Jesus Cristo — muito mais concreta que os deuses romanos e com a qual as pessoas podiam se identificar. No entanto, ela chegava a ser obsessivamente espiritual, como quem, após ter contemplado o abismo, tenta ocultá-lo reafirmando com toda força sua fé. Ela negou grande parte da ciência helênica e retornou para um universo-caixa protegido no berço cósmico divino. Ocorreu uma grande desvalorização do mundo material, do corpo, e da mulher, e uma enorme ênfase no transcendental e espiritual. A vida passou a ser vista como um momento negativo diante da realidade suprema que viria com o final dos tempos, que, segundo a crença da época, estava bem próximo.

Mas embora a civilização greco-romana tenha acabado, o mesmo não ocorreu com a criação. Tão pouco com a cristandade, que forneceu as bases espirituais para que os povos bárbaros que invadiram o Império Romano erguessem uma nova civilização. Depois de séculos de inquestionável domínio cristão, no entanto, a razão começou a retornar. Após o ano mil, com a crescente prosperidade material da civilização européia, os textos clássicos foram resgatados dos árabes e dos mosteiros. Desta vez, com o amparo da abstrata visão cristã, a civilização européia estava segura de sua espiritualidade, o que lhe permitiu abordar o conhecimento científico com novos olhos.

...

Sobre a obra

Neste ensaio mostro como a abordagem científica da realidade gradualmente corrompeu a visão intuitiva e mítica que o ser humano tinha a respeito da existência, substituindo-a por modelos frios que não fazem sentido intuitivo, cognitivo e emocional. Desta forma, o mundo deixou de ser um lugar acolhedor e “poético” e passou a ser estranho e não mais apreensível através da cognição. A velha ligação do ser humano com o mundo, portanto, foi rompida, e ele se viu só em um universo sem sentido do qual emergiu por acaso.

compartilhe



informações

Autoria
João de Carvalho
Ficha técnica
Adaptação do capítulo 4 do livro “Em busca de uma nova ordem: A crise social da modernidade e novas alternativas para o sistema atual.” Copyright © 2003 by João de Carvalho.
Downloads
352 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 46 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados