O Sol insistia em castigar São João de Meriti. Passava um pouco das duas da tarde de uma terça-feira, a noite não havia sido das melhores. Nem a manhã. Não havia como o dia piorar. Pelo menos no entendimento de Juvenal. Era mais um dia para quem carrega na face as marcas de uma vida pouco privilegiada e nas pernas, três pares de pinos de metal, acessórios acrescentados após um acidente num canavial, ainda na adolescência, no interior paulista. Não, desse mal, Juvenal não padecia. Deixara a cearense Guaramiranga em busca de horizontes além da paisagem seca do agreste.
A chegada à Baixada Fluminense, destino de boa parte dos retirantes, fora uma escolha natural. Juvenal não se queixava. Jovem, negro, corpulento, até fazia sucesso com as mocinhas. Morava com uma tia, irmã de seu pai. Havia conseguido um emprego como auxiliar de escritório numa empresa de produtos eróticos. Gostava do ambiente. Fazia de tudo. Só torcia o nariz quando a tarefa era ir ao banco. Não era para menos. Toda vez que entrava numa agência, a porta de segurança travava por causa dos pinos na perna. Quase um calvário até o jovem conseguir convencer os seguranças de que uma das pernas não era mais só osso e carne.
Naquela tarde, rumou para a única agência da Caixa Econômica Federal em São João. Tinha feito planos de sair mais cedo, mas atendia um pedido de dona Adelaide. Não havia como escapar. Quando pedia um favor a Juvenal, a voz de Adelaide parecia sair daqueles filmes picantes produzidos pela empresa. Rumo tomado, o jovem só pensava em encontrar o banco vazio. No trajeto, calculava as horas para conseguir pegar a tempo o ônibus antes do rush.
Ao chegar à porta do banco, teve um daqueles pressentimentos. Os seguranças que o conheciam estavam de folga. Não tinha como voltar atrás. O sinal da porta travando já zunia na cabeça.
- Por favor, um passo atrás - pediu o segurança.
- Olha, eu tenho um pino de metal nas pernas – argumentou Juvenal, pacientemente.
E começa a tirar tudo de metal que carregava. Chaves, moedas, o aparelho celular, para mais uma tentativa.
- Bem, alguma coisa o senhor ainda tem aí – disse o segurança, com o olhar mais que desconfiado. – Levanta a camisa.
O pedido enfureceu o negão. Preso na porta e uma fila cada vez maior atrás, argumentou mais uma vez.
- Olha isso é uma tragédia. Sofri um acidente e tiver que colocar três pares de pinos de metal na perna esquerda. Fui salvo pela ciência.
- Bem, como eu vou saber – rebateu o segurança.
À essa altura, todos no banco e quem tava na fila já acompanhavam o drama de Juvenal.
- Bem, eu posso tirar a calça para o senhor ver.
- Não precisa, mas não posso abrir se a porta ainda trava.
Juvenal perdeu a paciência. Tirou a camisa e deitou a falar.
- Eu vou ficar pelado aqui. Aí o senhor vai ver que não carrego nada.
- Não precisa e não faça isso.
Foi a senha. Irritado com a situação e na iminência de perder o lugar no ônibus, começou a tirar a roupa. Foi aquele alvoroço no banco. Um corre daqui, cochichos ali. Tirou a calça, deixando a mostra uma samba-canção amarela e um volume de assustar. Foi-se a cueca também. Pronto, o negão estava nu. Preso na porta da agência, mas peladão.
- E agora, está satisfeito?
O segurança, sem saber o que fazer, tentava conter a balbúrdia dentro do banco. Mocinhas e senhoras, entre o espanto e a vergonha, tentavam virar a cara. Cobriam o rosto com as mãos e os dedos abertos. Aquilo balançava e levava junto olhares de espanto e alegria.
- Põe a roupa – pedia o segurança, desesperado.
- Só me visto aí dentro – sentenciava Juvenal.
A porta abriu. Juvenal, como veio ao mundo, seguiu. Vestiu-se, pediu desculpas e partiu para o caixa, sem constrangimento. No caminho, uma senhorinha o interrompe.
- Meu filho, essa arma só deve matar de felicidade.
Entrei no onibus no Leme, bancos vazios, quando vou me sentar vejo uma carteira no banco. Sento e ouço a discussão entre um rapaz negro uns 20 anos e uma branca uns 25. Ele diz: dona ja fiquei pelado aqui, pra lhe provar que não roubei sua carteira!
Voçe ficou pelado porque voçe é um SEM VERGONHA!
Mudei de banco, ele veio sentou no que eu estava, abriu a carteira tirou 80,oo (ano 1980) deu 10 pro trocador e desceu. Desceu com a minha coragem, disposição, decencia e tudo mais que uma pessoa de bem pode ter, e eu fiquei com a frustração até hoje de o destino não me dar outra oportunidade pra me redimir! Esse teu mensageiro da Felicidade devia ser preso por Atentado ao Pudor!
Gazza,
Se prende o negão ia ter ter grito de guerra: SOLTA O NEGÃO! Ele está armado de felicidade, pode ser preso não, só na casa dessa senhorita que avaliou sua arma como pura felicidade .
Marluce
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!