Sim, ele recebeu uma carta sem remetente onde aparecia a palavra "Nada", um endereço, a figura de um centauro, delicadamente desenhada em tinta nanquim e um número, 108. Ele sabia o que era aquele local.
A festa estava animada. Anos 80. Uma quarentona soltava a loba na pista, dois gays jovens beijavam-se, duas amigas hétero tentavam dançar como eles, um barbudo e sua esposa tentavam parecer animados, sentados, bebendo. Um loiro alto com cara de surfista olhava a parede, um adolescente embriagado dançava como doido ao fundo. Enfim, um local de alívio para o calor do dia, a bagunça da TV e a sensação de insegurança. Mas ali ocorreria uma morte.
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De repente, o surfista cai no chão. O dono da casa, meu conhecido, vai até ele. Está morto.
Ligam-se as luzes, as mulheres gritam. O dono decide trancar as portas e chamar a polícia. Mas é convencido por mim a deixar que eu faça uma busca no local, pegue os nomes e endereços de todos e só depois chamemos a polícia. "Eu sei que você é brilhante", ele me disse.
Fui até o banheiro. Como eu supus, achei na porta colado um pedaço de papel. Era um texto sobre
Heidegger. Era isso a que se referiu com "nada".
Mas quem era o morto? Por que ele? A polícia chegou logo.
De onde eu lembrava me dessa figura de centauro?
O número 108 leva a lembrar do seriado "Lost", onde os números fazem parte de uma equação na qual a Fundação Hanso é obcecada, a Equação de Valenzetti, que definiria o Fim do Mundo.
O texto, datilografado, dizia:
"Quando Heidegger pergunta pelo nada, que é o que sobra das interrogações da ciência quanto ao ente- diz que somente e totalidade do ente negada poderia nos trazer o nada. (A ciência seria, portanto, a fuga do estar entre entes do mundo, num vôo irreal, para fugir ao nada, a morte.)
A totalidade do ente nos é apresentada no tédio ou na alegria na presença de um ente querido: nos entedia não exclusivamente este livro ou aquele espetáculo, mas o todo e nos alegre não a presença de uma pessoa, mas de sua existência. São, portanto, percepções onde o sentido organiza
ou não o mundo?
Mas e o nada? Quando estamos tomados de angústia “afundamo-nos numa indiferença”, há o “afastar-se do ente em sua totalidade”. “Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este nenhum’. A angústia manifesta o nada.”
Comecei a procurar sobre o suposto surfista. Na verdade não era nada disso. Estudava engenharia e era obcecado por História da Arte, Filosofia e História.
Sua mãe, uma simpática senhora gorda, deixou me ir ao seu quarto.
Encontrei um livro que parecia marcado numa foto da catedral de Chartres. Imediatamente me
lembrei onde vira o símbolo do centauro. Fui falar com meu professor, Öle Lies, um erudito
helenista. Contei-lhe o ocorrido.
"A equação do Fim do Mundo e o fato da Ilha de Lost recordar me o fato de o Novo Mundo ter sido considerado como o Paraíso da descrição de Isaías pelos contemporâneos de Colombo, levou me a crer que possa haver alguma ligação com "O silêncio de meia hora no céu" do abade calabrês Joaquim di Fiori, a teoria da história como operação da Trindade no tempo, no qual a LUZ está reservada para a Sexta Era e para o Tempo do Fim."
"Lembre-se, ele me disse, que na catedral de Chartres está representada a Árvore de Jessé, simbolizando que o tempo tem uma direção dada pela presença de Deus e não é um caos absurdo. Lembre-se que a primeira Igreja foi incendiada com seu Labirinto central e o segundo labirinto de Chartres, onde os peregrinos deveriam caminhar para representar sua chegada a Deus, teve seu centro roubado. Ele poderia simbolizar que homem e Deus estão próximos demais."
"O que isso significa?" (cont. no arquivo).
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