Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

A Árvore Maravilhosa dos Frutos de Ouro

1
Rakyul · Rio de Janeiro, RJ
11/7/2011 · 4 · 4
 









A
Árvore Maravilhosa
dos
Frutos de Ouro














Raul Augusto Silva Junior



Ela nasceu e cresceu no lugar que se tornaria o centro daquele povoado.
No meio da praça que se formou ao seu redor, e que era cortada por um rio que banhava suas raízes. E no qual a garotada tomava banho e brincava, e sempre atirava pedras nos sapos que haviam por lá.
Mesmo depois de eles terem sumido, continuaram a atirar pedras no rio que acabou ficando conhecido como Rio Pedras.
A árvore tornou-se frondosa com imensa copa esverdeada, com galhos firmes e um tronco forte.
Era uma árvore frutífera e seus frutos muito saborosos.
Perto da primavera começavam a aparecer os pequenos frutos que se tornariam a alegria da criançada, bem como de todos os habitantes do lugar.
Era uma festa.
Da árvore também diziam coisas, que era encantada. Uma árvore mágica e outras coisas.
Mas o certo mesmo é que dava ótimos frutos.
Certa vez ela deu tantas frutas que seus galhos pendiam quase até o chão. Era fruta que não acabava mais...
Mas, acabou...
E só sobrou um. Um único fruto que se tornou intocável. Ninguém poderia mexer com ele.
E é aí que começa nossa historinha.
Era uma vez...
O Conselho dos Sete se reuniu para decidir o que fazer com aquele fruto.
O Conselho era formado pelas sete pessoas mais velhas do lugar, os anciães, e liderado por Moro que fora escolhido por unanimidade por sua serenidade e sabedoria e era chamado de Mestre Moro.
Sua palavra era a Lei para toda a comunidade.
Naqueles tempos e naquele lugar não havia juiz, nem policia, e muito menos cadeia.
Eles viviam em paz, trabalhando de sol a sol e ganhando a vida com o suor do rosto.
Eram poucas as novidades e a maior delas era quando a árvore frutificava.
E como daquela vez os frutos haviam acabado com muita rapidez, isso foi motivo de muita falação entre eles.
O conselho decidiu, com a benção de Moro e aprovação de todos, que ninguém poderia tocar na frutinha.
Mas a criançada em segredo, só entre eles, revolveu que quem conseguisse pegar o fruto seria o bambambã entre eles. O mais esperto. Seria o líder da garotada. Daí em diante eles viviam confabulando pelos cantos.
Num belo dia pela manhã, eis que surge uma novidade que mexeu com toda a população.
A tal fruta amanheceu caída num buraco, espatifada. Com um detalhe. Apesar de espatifada seus pedaços continuavam unidos uns aos outros.
Corre, corre. Alvoroço geral.
Quem foi, quem não foi?
Uma fofoca só.
E não apareceu nenhuma alma viva que fosse o culpado. Filho feio não tem pai. Consternação geral.
Agora só restava esperar pelo ano seguinte. Quando chegasse a primavera e a árvore voltasse a dar novos frutos.
E foi aí que tudo aconteceu...
Na manhã seguinte um dos meninos amanheceu passando muito mal. Com enjôo, vômito e diarréia. Tudo ao mesmo tempo.
Dores pelo corpo todo e febre. Muita febre.
De repente, sem mais nem quê o garoto adoeceu. Dormiu bem e acordou doente, mal. Muito mal.
O que foi o que não foi? Ninguém sabia dizer.
Sua mãe, coitada, corria da sala pra cozinha. Parecia uma barata tonta. Fazendo das tripas coração, para amenizar sua dor. As mulheres da aldeia se solidarizaram com ela e rezavam pela melhora do menino.
Até um médico da aldeia vizinha foi chamado para ver o doente.
O “esculápio” chegou montado num cavalo tordilho. Apeou em frente onde morava o garoto e foi logo ver o paciente.
Tirando do “alforge” seus apetrechos deu inicio a consulta. Auscultou o peito e as costas. Mediu a pressão, a febre, enfim fez tudo o que era possível, e nada. Prescreveu um chá de ervas, cataplasma e escalda pés, e partiu. Pensando com seus botões que doença seria aquela que ele nunca tinha visto, nem nada parecido, em tantos anos de exercício da profissão.
Pediu para darem noticias e escafedeu-se sem saber o que mais fazer naquele momento.

Todos aqueles acontecimentos e todos de uma só vez naquele fim de mundo causaram o maior reboliço na aldeia. Tudo cercado de grande mistério. E não havia outro assunto entre os habitantes do lugar.
Naquele tempo havia um ditado que dizia: “O castigo vem a cavalo!” Hoje deve vir mais rápido.
E o menino dizia pra si mesmo:
- Ai, meu Deus! Livrai-me dessa doença e juro que serei o melhor menino do mundo.
Dizem que coração de mãe não se engana, e o daquela mãe lhe dizia que aquilo não era doença comum. Era tudo muito estranho. E ela resolveu chamar o mestre Moro e com ele se aconselhar sobre o que estava acontecendo com seu filho.
Dito e feito e o mestre prontamente atendeu ao seu chamado indo visitar seu filho enfermo.
E aí foi um escândalo. Mal o mestre colocou os pés naquela casa o menino começou a gritar:
- Eu confesso! Eu confesso! Fui eu...
E ao mesmo tempo em que gritava, soluçava e seu corpo tremia todo. Parecia um alucinado.
Moro levou um susto e por um instante se sentiu abalado emocionalmente, perplexo com o que presenciava. Mas logo
recuperou sua serenidade e acomodou-se ao lado do menino, segurando sua mão e disse-lhe:
- Fale criança, abra seu coração. Conte-me tudo.
O garoto aos poucos foi se acalmando e contou tudo.
Naquela noite ele esperou que todos dormissem e esgueirou-se sorrateiramente até a árvore. Lá chegando pegou sua atiradeira e seu saquinho de pedras. Certificou-se de que ninguém o havia seguido e com certeira pontaria atingiu a fruta na árvore, iluminada pela luz do luar.
Tentou correr para pegar o fruto caído, mas um segundo antes, ao cair no chão de terra a frutinha fez um tamanho estrondo que ele parou aturdido e medroso, com as pernas bambas. Teve a sensação que toda a aldeia havia acordado com tamanho barulho. Com algum esforço conseguiu chegar bem pertinho da fruta e aí seu coração disparou, parecendo querer sair pela boca.


A frutinha estava lá caída, mas apesar de espatifada na terra, seus pedaços continuavam unidos como que colados uns aos outros, dentro do buraco que fez ao cair. E dela emanava uma fumazinha azulada...
O susto que levou foi tão grande que caiu sentado na terra.
E ouviu nitidamente uma voz que dizia
- Menino malvado! Viu o que você fez comigo?
Ele conseguiu levantar-se e ainda meio trôpego, saiu correndo como podia até sua casa. “Pernas para que te quero.” Conseguiu pular a janela e meteu-se na cama debaixo das cobertas morrendo de medo.
Ele não conseguiu dormir a noite toda. E pela manhã já não se agüentava de dor e muita febre. Um febrão.
Depois do desabafo ele começou a melhorar, a febre baixou e aos poucos seu estado foi se normalizando.
Moro pensava, e pensava...
Conversou longamente com o menino e com sua mãe que a tudo assistia e só chorava.
O pesadelo havia passado. E logo ele se reuniria com o conselho dos sete para deliberar sobre o fato e ver qual a melhor solução para o caso.
Ficou resolvido que o menino não receberia nenhuma punição a mais, já que o susto lhe teria bastado como castigo. Mesmo porque ele se retratou perante todos da aldeia.
A fruta foi enterrada ali mesmo, antes que aquele local virasse motivo de romaria por parte de algum fanático.
E após o tumulto a vida retornou ao normal, à espera de nova floração da árvore.
O menino até conseguiu reaver sua atiradeira que havia caído dentro do rio naquela noite.











O tempo passou...
Novamente se aproximava a primavera quando de repente outro reboliço tomou conta da aldeia.
Tudo de novo.
Era bem cedo quando um dos moleques da aldeia entrou correndo pela casa de Moro adentro gritando:
- Mestre! Mestre Moro! A árvore... Tem uma fruta na árvore...
Com a aproximação do tempo em que a árvore costumava frutificar, toda a aldeia punha-se a vigiá-la. Na expectativa de saborear seus frutos deliciosos. E ao menor sinal, era uma agitação geral no povoado.
Moro que ainda fazia suas abluções matinais, já ia saindo correndo e nu conforme estava tal qual Archimedes.
Contagiado pela excitação do pequeno, quando este lhe chamou atenção:
- Mestre, sua roupa? O senhor está nu...


NA: Arquimedes foi um sábio grego que saiu nu pelas ruas de Siracusa gritando: Heureka! Heureka!
(Encontrei! Encontrei!) Ao descobrir a Lei do peso especifico quando tomava um banho de tina, ao ver transbordar a água quando o sabão que usava escorregou de sua mão e caiu dentro da tina.

















Um pequeno ponto brilhante se destacava no meio da copa esverdeada da árvore. E ninguém conseguia identificar o que fosse. Apenas brilhava muito à luz do sol.
De repente alguém gritou:
- Ouro! È ouro! É uma fruta de ouro...
Moro já devidamente vestido com sua túnica branca vinha chegando esbaforido e tentava abrir caminho no meio do povo que já lotava a pequena praça. Uma verdadeira multidão. Quando conseguiu chegar junto à árvore ficou embevecido.
Pegou seus óculos no bolso da túnica e os ajeitou sobre o nariz adunco. Ele usava “pincenê”. Esquecendo-se que as lentes eram apenas para ver de perto. Guardou os óculos e ficou extasiado ao constatar que realmente parecia uma fruta de ouro.
Era ouro! Mas, como? Então a árvore era realmente mágica? Era uma árvore encantada?
Enfim, conseguiu falar e disse:
- Meu Deus, é ouro! É uma fruta de ouro!
E ouviu-se a voz da multidão em coro:
- M - I - L - A - G - R – E !!!
O povo todo se ajoelhou em profundo silêncio.
E Moro fez uma preleção tentando explicar o “milagre” da aparição do fruto de ouro na árvore.
Milagre dos deuses que protegiam aquele povoado. A fruta sagrada. Que aquela aldeia tinha sido abençoada, etc., etc.

















O Conselho dos Sete se reuniu em caráter de urgência para deliberar sobre o que deveria ser feito naquela situação.
E debateram por muito tempo a portas fechadas na casa de Moro.
Na praça a turba confabulava. Em meio a toda aquela confusão teve até quem caísse dentro do rio. Uma mulher grávida desmaiou. Foi uma loucura.
Finalmente o mestre apareceu na praça seguido pelos anciões e fez-se novamente silêncio.
Fora decidido que três aldeões de cada vez fariam a guarda da árvore e de seu precioso fruto por turnos. De dia e de noite. Para evitar que alguma coisa acontecesse à árvore e seu fruto sagrado. Ou mesmo que algum pacato cidadão fosse acometido de maus pensamentos, ou ainda que alguma tentação mais forte levasse alguém a tentar pegar a bendita frutinha. Afinal, era melhor prevenir do que remediar.
E assim foi feito.
Até que, certa manhã, um garoto mais audacioso subiu na árvore e tentou pegar um dos “frutos santos”, pois àquela altura do campeonato a árvore já estava repleta de frutinhas de ouro.
Mas, oh decepção! Só pegou o vento.
O fruto ao ser tocado sumiu. Desapareceu. Indo surgir logo em seguida em outro ponto da árvore.
O danado do guri tentou novamente. E novamente aconteceu a mesma coisa.
O garoto desceu da árvore, profundamente envergonhado por seu gesto e sob vaia e apupos de todos.
Mestre Moro que a tudo assistia, impassível, constatou que a vigilância da árvore era totalmente desnecessária.
Ela própria era capaz de tomar conta de si mesma e sem ajuda de terceiros.
E com certa tristeza também concluiu que aquela árvore nunca mis voltaria a dar os saborosos frutos dos quais ele mesmo tanto gostava, e que aprendera a gostar desde seus tempos de menino.
Milagre dos Deuses! Castigo dos Deuses!
A novidade espalhou-se rapidamente, como fogo em palheiro.
E foi cantada em prosa e verso.
Veio gente de todo canto. Veio gente de longe, de outros povoados só para ver de perto o “milagre”.

E houve uma festa. Uma grande confraternização
entre aqueles aldeões. Gente que não se via há muito tempo. Parentes e amigos. Foi uma grande festa.
E daquele dia em diante, todo ano e sempre na mesma data havia uma grande festa.
Era o dia da confraternização.
Peregrinos vinham de longe para pedir graças à Árvore Maravilhosa dos Frutos de Ouro.
Aquele povo humilde havia sido abençoado.
E durante muitos e muitos anos aquele povo foi o mais feliz da face da Terra.
Até o dia em que...
‘Mas, isso já é uma outra história.

Sobre a obra

Conto para crianças de todas as idades

compartilhe



informações

Autoria
Raul Augusto Silva Junior - Rakyul
Ficha técnica
conto ficção
Downloads
31 downloads

comentários feed

+ comentar
Doroni Hilgenberg
 

OI Raul,
Ótimo conto, não é a toa que eu acho que vc tem um pouco do Mago Merlyn, esse enredo nos prende do começo ao fim e nos faz ver que ao brilho do ouro é uma miragem muito cobiçada e pouco adquirida. Deus dá a cada povo o que precisam, neste caso caso, a arvore mágica. bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 3/8/2011 16:46
sua opinião: subir
Rakyul
 

Obrigado, amiga por suas palavras...
beijo

Rakyul · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2011 00:46
sua opinião: subir
ayruman
 

Maravilha de conto. Admiro quem assim é capaz de expressar suas idéias. Que venham outras histórias !!!

Saúdee Paz.

ayruman · Cuiabá, MT 11/8/2011 15:45
sua opinião: subir
Rakyul
 

Obrigado amigo Ayruman, por suas palavras...

Rakyul · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2011 22:32
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 12 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados