A ÁRVORE QUE NÃO ERA GENEALÓGICA
Um amigo meu mora em uma cidadezinha do interior paulista. Ligou–me dia desses apreensivo, contando ao telefone uma história que bem pouco tempo atrás seria considerada piada ou então diriam que era um refinado mentiroso, ou ainda um insano de pedra. A verdade é que em antanho não escaparia de uma boa pilhéria.
Mas agora é diferente. Quando me falou, pensei logo no aquecimento global que, antes de aquecer a Terra para valer, está esquentando a cabeça da gente.
Ele me disse que lá na sua cidadezinha criança e árvore nascem juntas. Calma, não há exagero em nada do que disse. Entenda-se: uma lei municipal obriga o plantio de uma árvore para cada criança nascida. É justamente uma tentativa de amenizar o aquecimento global. Os pais que se virem e procurem um lugar para o plantio. Fico aqui imaginando que alguns deles serão obrigados a plantar um jardim.
Meu amigo comemorou dizendo que após o nascimento do primogênito estava quase realizado. Pensando que o primeiro filho é quase tudo na vida de um casal, ainda assim insisti em saber por quê. E a resposta não foi bem a que eu esperava:
– Todo homem para se sentir realizado tem que conceber um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.
– Hummm! Falta-lhe somente o livro — disse-lhe, desejando intimamente pôr fim ao papo bobo.
Com uma dose de ufanismo, ele revelou por que ainda não o fizera:
– Ainda não me inspirei. Não tenho o tema, só por isso não o comecei.
Ele falava com seriedade, acreditem. Não pôde ver a minha perplexidade do outro lado da linha. Também não sei se percebeu a ironia quando eu disse:
– Pois lhe sugiro um tema. É aí no campo da auto-ajuda...
Ele me interrompeu, ansioso:
– Manda que eu gosto...
– O título pode ser algo mais ou menos assim: “Como ter um filho, plantar uma árvore e de quebra escrever um livro”.
Acho que deu saltos de alegria, pois interrompeu o diálogo comigo e por um bom tempo eu só ouvia um barulho esquisito enquanto ele soltava alguns urros.
– Tudo bem? – repeti algumas vezes, preocupado.
Alguns segundos depois, com a voz ainda alterada, confessou:
– Sim. Mas houve um probleminha na maternidade.
– E o que foi?
– É que o médico só liberava a criança se eu apresentasse a cova aberta.
– Cova aberta? Seu filho nasceu morto?
Ele sorriu.
– Não, não! A cova para a árvore.
– Ah! Que susto você me deu, rapaz!
– É, mas ainda houve mais.
– Mais?
– Sim. A lei é nova e por isso muita gente foi pega de surpresa.
– E o que aconteceu?
– Foi assim: logo depois da cova ele falou mais, procurando esclarecer o assunto: ‘O senhor não tem a árvore pronta?’ E eu, ainda meio perdido, paguei um mico quando perguntei se ele se referia à árvore genealógica.
Eu não resisti:
– Nossa, que gafe, hein?
– É verdade...
-E ele?
– Me falou sorrindo: ‘Estou falando do vegetal, o senhor entende agora? Daquelas árvores que os macacos se dependuram. O senhor já brincou numa?’
rsssssssssssss...
O texto é muito divertido, apesar do assunto ser sério.
Hoje, pelo jeito, todo mundo é escritor (!).
A auto-crítica não é mesmo um atributo da modernidade.
beijos
Olá, Saramar. Essa realidade realmente existe, a partir dela montei o diálogo. A lei que obriga ao plantio é em Martinópolis-Sp.
abcs
JJLeandro
Votei e achei hilário, bom mesmo.rs
abç.
ahahahahahahahaah Dei foi muita gargalhada aqui diante do PC, no RJ!
Que maravilha! E que bom é poder estar vizinho, vizinho de janela, de um escritor que mora em Araguaína, Estado do Tocantins!
Gostei e já votei. Grande JJ, prossiga mano! Mais! Mais!
Abraço do
Baduh
No meu caminho tinha um Leandro, tinha um Leandro no meu caminho...Fechei de novo!
BJK
CRis
Leandro, excelente odisséia. Parabéns!
Abçs; Benny.
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