A Barata Morta

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Nazareth Fonseca · Natal, RN
31/5/2008 · 96 · 8
 

Ontem matei uma barata. Jogou-se sobre mim em um vôo rasante. Meus instintos de sobrevivência jogaram-me no chão e a chinelada acabou com suas incursões voadoras. Sujei o chinelo, fiquei enojada. Fechei a porta e esqueci o assunto.
Pela manhã ao abrir a porta deparei-me com seu corpo no meu batente. Tive novamente a sensação de repulsa, não tão forte dessa vez. Contudo, algo na sua figura imóvel e asquerosa chamou minha atenção. Pernas para cima, seu corpo tinha mais ou menos 50 mm, o exoesqueleto dando a impressão de que ainda estava viva, um pouco de suas tripas para fora. Ou seria sangue? Pelo que estudei, elas têm sangue, só que ele não tem hemoglobina e por isso é incolor.
Tinhas as pernas negras sobre o peito como se estivesse repousando ou preparada para a jornada final. Nesse momento um pensamento absurdo assaltou-me a mente.
Barata tem alma?Vai para o céu ou inferno? Possui uma religião?
Será que elas têm um Deus para seguir, uma esperança que as impulsione a continuar, mesmo com a probabilidade de serem mortas com um chinelada, um jato de inseticida? Uma vassourada. Ou pior, acabar como hospedeiro de uma vespa. E ali ficar imóvel e sem antenas, enquanto milhares de ovos eclodem de seu corpo! É, barata também tem predador.
Enquanto olhava com pena seu pequeno corpo, fiquei me perguntando se haveria uma sociedade organizada em seu mundo, algo de qual ela fizesse parte. Será que ela teria outra barata? Uma fêmea sentiria sua falta? Afinal era uma barata macho. Sim, somente uma barata macho tem asas. Ele era adulto, podia saber pelo corpo negro e endurecido, pois quando são jovens são claros e frágeis.
Deveria morar ali no meu jardim, dormir entre as rosas de minha mãe, comer os restos do lixo.
Olhei o jardim e senti-me um gigante sendo observado por milhões de outras vidas naquele pequeno pedaço de mundo onde eu era a morte representada por um chinelo, uma vassoura e um jato de inseticida.
Imaginei um mundo de baratas, uma sociedade organizada, famílias inteiras, todas com um caminho diferente a seguir, uma morte diferente a encontrar.
Para onde vão as baratas quando morrem? Lembrei-me de Gregor Samsa, que certa manhã acordou transformado em um inseto. Pergunto-me se Franz Kafka pensou o mesmo que eu. Talvez sim, talvez não.
O certo é que matei uma barata. Fitei seu corpo pela última vez e o empurrei com a vassoura para bem longe, para o lado do jardim onde tudo é cheio de flores e grama. Ali, se existir, ela encontrará o céu das baratas.

Sobre a obra

A visão filosófica da morte de um inseto.

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Autoria
Nazarethe Fonseca
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alcanu
 

Certamente haverá um equivalente ao Valhalla das baratas !
A gente nem imagina o que rola nesse microuniverso dos insetos, né ?
Legal !
Volto pro voto!
Um beijo !
Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 28/5/2008 17:49
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Leandro F. de Paula
 

Muito bom!
Sabe que para cada barata que você enxerga existem outras 50 escondidas? hahaha.
Um dia vou escrever aqui uma guerra que tive contra algumas baratas que ousaram invadir meu apartamento. Boa a comparação com o texto de Kafka. Eu mesmo tenho brincado com aquela idéia nesse link aqui:
http://www.bookess.com/read/176/metamorfezes/

Só que o protagonista se transformou em merda, não em inseto.

Muito bom o texto!
Vale meu voto.

Leandro F. de Paula · Curitiba, PR 29/5/2008 20:56
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Cristiano Melo
 

Hum...apesar de ser contra matar qualquer ser vivente, até mesmo uma barata...rs, adorei o seu escrito, votadíssimo, bjos.

Cristiano Melo · Brasília, DF 29/5/2008 22:51
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EdimoGinot
 

Excelente texto.
Um grande barato!!!
Votado.
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 30/5/2008 15:29
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Cherry Blossom
 

Ueca!!! Graças ao bom Deus ela se foi! Sabe, desde criança eu acredito no "céu dos bichos"...
Delícia de crônica!!!!
beijos e voto

Cherry Blossom · Dracena, SP 31/5/2008 01:55
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clara arruda
 

Adorei menina,agora para vc que já matou uma barata,tenta matar uma formiga e observar por algum tempo a tamanha solidariedade que emanam delas.Voltam para pegar os corpos (se podemos chamar assim)Depois nos escreva como fez tão bem nessa crônica.
meus votos e carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 31/5/2008 08:02
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Nic NIlson
 

Bom, muito bom. E pensar q ela eh o unico inseto q sobrevivera a uma guerra nuclear! Tenho certeza de uma coisa: nojentos são necessários para o crecimento do desejado!
abracos

Nic NIlson · Campinas, SP 31/5/2008 11:40
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Ailuj
 

Menina ,sua historia me lembrou a única vez na vida que pus inseticida numa barata
Era cedo da noite e toda hora que eu ia no banheiro via ela se contorcendo,não sei se de dor,de afliçao ou de agonia,ela juntava as patinhas no que acho que seria o peito,abria e fechava no que pareceia grande sofrimento[estava de pernas pra cima]e isso me deu maior mal estar e nessa noite não dormi,porque sentia o sofrimento do inseto e não tinha coragem de terminar de matar
Nunca mais na minha vida matei nada só mosquito e qdo estiver tentando me ferroar
Beijos e publicando seu conto

Ailuj · Niterói, RJ 31/5/2008 17:22
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