A BEM DA VERDADE
João era garçom. Por caráter e imposição da profissão era atencioso e verdadeiro. E para dimensionar sua seriedade costumava dizer aos colegas: ‘A verdade vale a vida’.
Um domingo à tarde, como era costume, ele servia a clientela no bar no qual trabalhava. Ainda era cedo e o pouco movimento permitia a João observar o sol descer no horizonte no espetáculo nostálgico e silencioso de todas as tardes. Comumente, filosofava nessas horas: ‘A beleza não faz barulho, extasia os sentidos’. Entrementes, a monotonia do bar foi quebrada pela chegada angustiada de um casal perseguido por um homem. Os dois dirigiram-se com rapidez ao encontro de João. O homem, muito nervoso, adiantou-se um pouco à mulher — vigilante ela da aproximação do outro homem que vinha apressado e com o rosto em verdadeiro transe colérico. João olhou os três e pensou: ‘É hoje!’. O primeiro homem, sem rodeios, abordou João com voz bastante nervosa: ‘Cuidado, muito cuidado, confirme o que eu disser; sua concordância vale uma vida!’ João nada entendeu, e esperou, alternando olhares ao trio.
O segundo homem, ao alcançar a mulher, com um safanão, puxou-a pelo braço até junto de João e do primeiro homem. O primeiro então perguntou ao garçom, em voz alta embora trêmula: ‘Estivemos ou não, eu e ela, bebendo e conversando por duas horas neste bar?’ João esbugalhou os olhos e calou-se sem saber o que dizer. Num átimo, sua mente, diagnosticou a causa da encrenca: ‘É adultério’.
Toda sua vida e seus princípios eram naquele momento colocados à prova, sem bobear João respondeu: ‘Não senhor; os senhores chegaram ao bar agora. Nunca os vi antes’. O primeiro homem olhou impotente e descoroçoado para João, à mulher e para o outro homem cujos olhos faiscavam ódio. João, uma vez mais foi preciso ao olhar para o último homem: ‘É o marido traído’.
Desmascarado, o primeiro homem, num gesto desesperado, levou a mão à cintura e sacou uma arma.
O diagnóstico preciso do comportamento humano João adquirira convivendo com todo tipo de gente, o que seu mister favorecia demasiado e do que muito se orgulhava. Por duas vezes, naquela tarde fatídica, fora impecável. Para ele, tanto acerto em seqüência era mais importante do que ganhar na loteria. Demonstrava que conduzia a própria vida com tirocínio. Pela terceira vez no dia ele pensou; e pensou no que o homem faria com a arma, mas jamais alguém soube se mais uma vez fora preciso; nem mesmo esse autor. O plausível é que tenha falhado, pois a bala à queima-roupa estourou os seus miolos.
Impactante, JJ. Gostei e já marquei para ser avisado.
Um conto-curto que é uma beleza!
Abração do
Baduh
Leandrto,
Gosto deste teu jeito agreste de contar CONTOS contidos.
Abçs. Benny.
Bacana...a verdade vale uma vida.."como" vale!
abçs. Perfeito. Votado
Baduh, amigo, muito agradecido pela gentileza. abcs
...
Benny, estou em débito com vc. Durante a semana retribuirei, estav viajando. Meus contos assim mesmo, com a aridez do Nordeste. abcs
...
Cíntia, um abraço, amiga.
obrigado.
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