A carta

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Kasinsk · Embu, SP
23/10/2010 · 4 · 4
 

Há uma semana Laura recebera uma carta ansiosamente esperada há pelo menos vinte semanas. E a felicidade era tanta em ter recebido a carta que ela se conteve em abrir o envelope, com o místico receio de que em tanta felicidade houvesse agouro. E conteve a ansiedade. Respirou fundo várias vezes. Não ousou. Resolveu fazer uma caminhada. O dia estava radiante, oportuno. Vestiu o jeans surrado, a camiseta regata por cima do busto verde, o boné azul e saiu à rua. A calçada estava muito movimentada. Quase esbarrou com um estranho que passava com muita pressa. Perguntou-se por que as pessoas normalmente estavam com tanta pressa. O que teriam a perder com o atraso de dois ou três minutos? E continuou a caminhada com a cabeça cheia de sonhos. Chegou a rir em silêncio de si mesma. De sua ingenuidade talvez. Mas não estava sendo ingênua. Apenas feliz. Muito feliz. Mal via a hora de abrir a carta e exultar de tanta felicidade.
Deu duas voltas no quarteirão e regressou. A ansiedade intolerável agora a sufocava. Não era de aço. Sua felicidade estava nas entrelinhas daquela carta tão cuidadosamente lacrada e não podia mais esperar. Outra vez quase esbarrou num estranho. Noutro estranho. Tudo estava estranho. O mundo era estranho. Aquele sentimento ansioso de prenúncio de felicidade plena era muito, muito estranho. Passou pelo porteiro com tanta pressa que sequer o percebeu. Subiu as escadas correndo. Jogou-se na cama com a carta às mãos. Abriu-a sofregamente. Estava ofegante e agora não tinha certeza se era cansaço ou se era ansiedade. Hesitou. Por fim tomou coragem: rasgou o envelope. Seus olhos ansiosos correram a folha de pouca escrita numa fração de milésimo de segundos. Deteve-se. A carta era breve e formal. Árida. De poucas e frias palavras. Viu claramente no jardim de sua alma murcharem as rosas vermelhas da felicidade. Arroxearam-se e feneceram de repente. Não havia felicidade.

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Doroni Hilgenberg
 

Parece que Laura já antevia um desfecho tragico, do contrário, porque a relutância em abri-la de imediato ?
Tem cartas que doem bem mais quando abertas do que quando fechadas,porque lacradas alimentam a esperança. bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 23/10/2010 21:58
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Cláudia Campello
 

Aff !!! fique todo ansiosa aqui. sofri junto com ela...rsrsrs
ahhhhhh continua, ta?
(nao podemos criar mesmo expectativas ante o novo...)
bela liçao.

bjssssss

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 24/10/2010 02:42
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MartaLucena
 

A vida é assim juntamento com os sonhos, demoranamem poucos segundos, agora é sacodir a oeira e caminhar em busca de outros sonhos de outras esperanças...queria saber o que a conteceu com Laura....muito bem desenvolvido interessante. bjs

MartaLucena · Natal, RN 28/10/2010 14:28
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Kasinsk
 

A pedidos, darei continuidade em breve. obrigado pelas considerações.

Kasinsk · Embu, SP 29/10/2010 19:33
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