A casa amarela da rua rubra - conto

afernandez
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arlindo fernandez · Campo Grande, MS
28/2/2007 · 89 · 16
 

A casa amarela da rua rubra
As casas eram mudas, assombradas e todas brancas, exceto a do fim da rua, de cor amarela, com jardim de flores purpúreas, que matizavam as manhãs. As calçadas eram feitas com tijolos avermelhados como ferrugem. Seguia enfileirada, do outro lado da rua, uma centena de árvores de acácias vermelhas, que deixava tudo rubro de nuances incertas, que variavam conforme o sol mexia e a terra andava. As cores nasciam com o dia e, à noite, os gatos perambulavam pelos telhados de cor néon à procura da Lua. Os cachorros, que eram só três - Caronte, Fobos e Deimos - trocavam confidências e uivos para a mesma lua refletida nas poças d’água.
Havia um poste cuja luz clareava o jardim e a janela frontal da casa amarela, onde ficava o quarto de Mimas, a mais nova das três mulheres que ali moravam; era uma menina de nove anos, cabelos avermelhados, sardas por todo corpo e olhos acinzentados. Tinha um grande amigo que sofria de depressão, um peixinho corcoroca que vivia no aquário em seu quarto. Ela caminhava pela vizinhança da rua rubra em saltos e passos de balé – se imaginava dançando o Lago dos Cisnes pelas calçadas. Ajudava as pessoas e sonhava em desinfantilizar a lógica da sua avó, da mãe e de todos os moradores da rua rubra.
Carme, a mãe de Mimas, fazia doces ajudada por Europa, à avó. As duas mulheres misturavam açúcares, essências, clara em neve ao ponto, especiarias e teciam o dia como um vidro mole; depois, deixavam os docinhos sobre um girau de madeira e ficavam a olhar a noite passar pela janela dos quartos.
Nas madrugadas, Carme dizia ter encontros com a alma de Oberon, seu marido e pai de Mimas. Europa tinha mais de 60 anos. Ávida, possuía uma cabeleira de cometa, tocava harpa de som doce e polcas que deixavam as tardes como que suspensas na vermelhidão carmesim da poeira. E como todos os moradores da rua rubra, Europa também via fantasmas e assombrações.
As três mulheres que viviam na casa amarela, iluminada e com um jardim purpúreo, eram diferentes dos outros moradores da rua rubra; principalmente Mimas, que tinha uma visão perpendicular às coisas do mundo. Ela compreendia porque aquela rua era assombrada, não só pelas longas sombras das acácias vermelhas, mas por um pavor motivado por encontros ou aparições imaginárias de coisas sobrenaturais que habitavam na mente de seus vizinhos.
Às vezes, Mimas se perguntava: aquela gente da rua rubra teria mesmo existido?
Embora fosse muito jovem, Mimas entendia o tratado da natureza e convenceu Carme de que a causa inexplicável das aparições de seu pai, por exemplo, era apenas uma peça pregada pela mente, influenciada por emoções guardadas. Oberon sempre aparecia de terno branco e chapéu de feltro cinza, fato que contrariava a lógica, uma vez que roupas e acessórios não poderiam virar fantasmas. Se fosse possível um evento dessa natureza, talvez, muito talvez, fosse uma centelha de energia sem forma, mas somente de coisas vivas.
A menina da casa amarela ficou conhecida e festejada por todos os moradores da rua rubra. Dançava balé pelas calçadas, vendia os doces feitos pela mãe e avó, também curava ignorância e espantava assombrações.
Numa noite ela chorou ao voltar para casa. No aquário, um vulto rígido de animal cinza flutuava sem vida. O peixe corcoroca morreu afogado. Mimas se emocionou pela falta que o pequeno corcoroca faria em sua vida, ela o enterrou no jardim purpúreo e iluminado da casa.
Miranda era a vizinha mais próxima, tinha oito gatos: Erriapo, o patriarca que vagava sobre os telhados em companhia de Pallene, e seus filhos Rhea, Dione, Io, Tarvos, Janus e Belinda. A velha senhora era uma pintora que não pintava nada.
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informações

Autoria
Arlindo Fernandez
Ficha técnica
Silício ? elemento não metálico muito abundante na crosta terrestre. Usado na fabricação de ligas e memória artificial - computadores.

Silicaluminoso ? composto de silício e alume.

Peixe Corcoroca - Haemulon Album
Corpo alongado, moderadamente alto e um pouco achatado. Coloração cinza-bronzeada clara uniforme em todo o corpo. Medem normalmente de 15 a 20 cm de comprimento, podendo chegar a 50 cm e pesar mais de 1 Kg.
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Bia Marques
 

Acho que tem muita dessa areia na minha vida... Sempre bárbaro, Arlindo!

Bia Marques · Campo Grande, MS 27/2/2007 12:25
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Rangel Castilho
 

Arlindo, meu querido, não perdestes a verve.
Parabéns!!!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 28/2/2007 10:54
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Katine Walmrath
 

Rico.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 28/2/2007 12:34
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Corah Medeiros
 

Meu pai!
Arlindo Fernandez não está conseguindo "logar" no site - 3 dias.
Já tentou falar com várias pessoas e não consegue resolver o problema.

Corah Medeiros · Campo Grande, MS 28/2/2007 12:47
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Bia Marques
 

continuamos a batalha do login, não desanime, pra fazer besteira a gente faz sozinho, mas pra uma c... homérica é preciso um computador!

Bia Marques · Campo Grande, MS 28/2/2007 15:03
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Roberta Tum
 

Denso. Gostei!

Roberta Tum · Palmas, TO 28/2/2007 18:13
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arlindo fernandez
 

Salve pessoal!
Eu tive um problema com meu login. Na verdade eu troquei o email e não troquei o login...(foi difícil) O Viktor resolveu - estou 4 dias sem conexão.
Muito obrigado a todos!
saudações pantaneiras

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 1/3/2007 07:02
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Camafunga
 

Texto rico e belo, como sempre.

Camafunga · Pelotas, RS 12/3/2007 16:33
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Glaiddhe
 

Querido Arlindo,
Tudo em paz?
Terminei a monografia e, como te disse, fiz uma citação com a "laranja azul"! De vez em quando me pego cantando o tango... gosto muito.
Mais um conto maravilhoso. Sempre que tenho tempo e acesso o Overmundo, procuro teus escritos, que só pelo título já são verdadeiras viagens.
Cheiros.

Glaiddhe · Paulo Afonso, BA 2/4/2007 12:52
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arlindo fernandez
 

Glaiddhe!
Que bela surpresa!
Obrigado pela citação "laranja azul" - me sinto eternizado numa imagem.
cheiros
af

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 2/4/2007 15:43
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Carol Alencar
 

Olá Arlindo...
Brilhante o texto...
A partir deste renasci para os contos...
Obrigada!!!

Carol Alencar · Campo Grande, MS 16/4/2007 22:35
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carlos magno
 

Arlindo, este teu conto é muito bom, rapaz. A imágem colorida da rua, é alegre demais e a estória tem um desevolvimento muito legal. Eu adorei, parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2007 00:31
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arlindo fernandez
 

Salve Carol!

Agradecido pelo brilhante e felicidade pelo renascimento!
saudações pantaneiras

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 17/4/2007 12:08
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arlindo fernandez
 

salve Magno!
Tenho um grande amigo,escritor dos bons, aí no Rio - Nivaldo Lemos. (ele tem alguns contos publicados aqui).
Muito agradecido e te convido a ler alguns outros contos
http://www.overmundo.com.br/banco/a-extraordinaria-vida-de-clorofila-conto

saudações pantaneiras do sul

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 17/4/2007 12:15
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NatashaCorbelino
 

arlindo,
vc sempre inspirador! e inspirado!

NatashaCorbelino · Rio de Janeiro, RJ 30/4/2007 16:01
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Cicero de Bethân
 

Oba!
Grande, as cores de suas histórias tilintam em minha mente. Muito bom, já está adcionado nos meus favoritos e sempre que tiver novidades me avise (já estou tratando de ler seus já postados).
Abraço!

Cicero de Bethân · Vitória, ES 5/9/2007 10:47
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