A casa do ditador povoou exercícios fantásticos de minha imaginação infantil – aquela dos sonhos impossíveis que se sentiam possíveis de tão reais. Imagens tão fantásticas e incontroláveis que se transformavam em espasmos físicos de alegria e de excitação.
Imagens que a mente adulta descarta como devaneios e o tempo da monotonia e da repetição melancólica dissipa definitivamente, haja vista que o exercício da imaginação como fonte de prazer é paulatinamente substituído na juventude pelo entretenimento palpável de um livro ou um filme (isso quando não desaparece de vez).
Passava diariamente em frente à casa do ditador no caminho para a escola. Fixava o olhar até quebrar o pescoço, através da janela embaçada da van nas primeiras horas de dias gelados. Ela era a maior e mais rica casa de um bairro cheio de casas grandes e ricas. Tão grande que parecia um clube, com quadras esportivas e uma imensa sede social. Seu terreno ocupava toda uma encosta da montanha. Tão grande que a cada dia que a van da escola passava pela casa do ditador, na ida e na volta, novas nuances, novos ângulos revelavam outros detalhes que me ajudavam a gravar dia após dia um quadro cada vez mais elaborado de sua magnitude.
Não havia dúvidas: a casa do ditador era a casa dos meus sonhos! A casa onde queira poder morar de verdade, e onde morava de verdade na realidade inventada de meus sonhos. O desejo de conhecê-la por dentro era a fonte de todo o fascínio. Como seriam os cômodos? Quantos quartos teria? Como seria o meu quarto? Imaginava-me morando sozinho, sem ter que obedecer às regras dos meus pais obviamente. Na casa do ditador, eu seria o senhor com todos os desejos atendidos. A viagem para o colégio passava rápido enquanto a mente borbulhava na construção dos detalhes do paraíso de ser o dono da casa do ditador. Um prestativo mordomo serviria a todos os meus desejos, a começar por um magnífico lanche de cheeseburgers e refrigerantes. Nos dias de verão seria fartamente servido à beira da piscina, que na verdade se revelava um verdadeiro complexo de tobogãs de vários níveis que escorregavam para áreas externas e cobertas, que confluíam para a enorme piscina de ondas artificiais – uma idéia que havia roubado dos parques aquáticos norte-americanos e introduzido na “minha” casa do ditador...
A sala de jogos era o ponto central da mansão e ficava no subsolo. A razão para isto era simples: todos os cômodos da casa possuíam escorregadores ao estilo tobogã de água, com túneis de metal e plástico que se entrecruzavam e iam desaguar na sala de jogos. Quando se é criança não há muito o que fazer em salas de jantar e cozinhas, assim que a imagem recorrente em minha mente era sempre de minha saída do meu quarto de dormir para o salão de jogos - a diversão suprema de uma mente lúdica. Para amenizar a queda em alta velocidade, o usuário do escorregador aterrissava sempre numa deliciosa caixa gigante e acolchoada com espumas coloridas... Mas é claro que nada disso teria graça se fosse curtido sozinho, assim que, na minha imaginação recorrente, sempre havia uma penca dos meus melhores amigos para curtir a diversão de sair escorregando pelos cômodos da casa, caindo em piscinas, jogando pingue-pongue e fliperama e comendo quantos cheeseburgers fossem possíveis. E é claro que, como dono da casa mais espetacular de que se têm notícia eu era o aluno mais invejado da escola e o que mais fazia sucesso com as garotas, mas isso era outra história... Com o passar dos anos, o destino quis que eu mudasse de escola, que mudasse de país, que o ditador morresse de velho e que a verdadeira imagem de sua casa jamais pudesse ser conferida por meus olhos já adultos... Só assim pude preservar a magia da arquitetura interior que para ela construí.
Gostei de passar aqui e apreciar o poder da imaginação tão bem descrito nesse belo texto. Uma maravilha! Parabéns!
Rita Costa · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 21:45
Peter,
quando criança, tinha no meu lugar, uma velha negra, contadeira de histórias. Dentre tantas tinha a da rainha da inglaterra e seu palácio de vidro........
um abraço, gostei da tecitura, da urdidura, do encantamento,
um abraço, andre.
Estas deliciosas e coloridas criações da infância, na mente de uma menino imersa na imaginação são tocantes e, ao mesmo tempo, instigantes pelo inusitado da "casa do ditador".
Já fiquei curiosíssima para saber se o texto é ficção ou realidade e, se for esta última, para saber mais sobre essa casa só conhecida por fora.
O ditador e seu poder, imenso para uma criança (e para adultos, em quase todos os casos) é um elemento muito interessante neste seu belo texto.
Gostei muito.
beijos
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!