A CASA DO DR. FRAUD
“Mas naquela manhã quente, queimada por um sol violento, a Casa do Girassol Vermelho, com seus imensos jardins, longe da cidade e do mundo, respirava uma alegria desvairada.”
Murilo Rubião
Sabe aquela impressão que a gente tem; que já esteve em algum lugar assim, assim; que já viveu certa cena..., sabe?
São os mistérios da mente, dirás.
O lugar era uma casa bem arranjada, com um escritoriozinho equipado, repleto de livros, e um contrastante baú maior que eu.
Das paredes, muito claras, destacava-se uma toda espelhada, sugerindo uma amplidão meio ilusória.
E a cena referida era eu, olhos no espelho, a sondar minha memória.
Daí a impressão citada.
Mas o que veio a seguir vai além do ilusório das narrativas sombrias; posto que meu olhar de sondagem trouxe divagação, e a imagem refletida pareceu não ser a minha, mas a de um vulto a acenar-me com lentidão e silêncio.
Num susto então dei de costas, indo quase esparramar-me bem em cima do baú – móvel misterioso, com seus cerca de dois metros; semelhante a um caixão com a tampa até minha cintura.
Em seguida quis abri-lo, mas estava bem trancado.
______
Voltei-me outra vez pr’a o espelho, ensaiando alguma calma pr’a ver direito o tal vulto.
E o vi um pouco melhor, mais nítido. Refletindo meus suspiros, aparentava uns quarenta e poucos anos, era mais baixo que eu, e vestia-se como um mordomo, lembrando um pouco meu padrinho em minha infância.
No semblante meio vago havia algo de súplica, e um molhinho de chaves tilintava em uma das mãos.
Com gestos lentos e humildes sinalizou-me melhor, como a pedir-me que entrasse lá no espelho; mas eu não dizia nada, com a voz perdida no olhar.
Então ele insistiu com um sinal suplicante, a embrenhar-se lá pr’a o fundo.
Dava uns passos e voltava-se, esperando que eu o seguisse.
Até que, a laço ou instinto, ensaiei meus próprios passos; mas não saí do lugar.
Permanecemos ali, lados opostos do espelho; até sumir-se o tal vulto, e eu recobrar os sentidos – a memória ainda longe, e os olhos quase lá dentro.
Aí quis extravasar, num grito sóbrio de alívio; mas só fiz embaçar o vidro. Perdera minha voz inteira pr’aquele olhar na amplidão.
______
Eu estava ali travado; e sem mais nada atinar sentei-me sobre o baú, onde quase cochilei.
Por fim abri um livro.
E minha fala sombria, toda ela, foi o que encontrei transcrito: cada vírgula, cada gesto... e a mudez das palavras – um rosnar estranho pareceu-me vir do vulto refletido lá no espelho.
Foi quando fechei o livro e andei mecanicamente até o baú, forçando a fechadura até poder arrombá-la.
Mirei-me então lá no fundo, estirado com umas vestes de mordomo fazendo vez de mortalha.
Aí voltei para o livro, procurando algum abrigo.
Mas achei foi um bilhetinho manuscrito, voando sob meus pés. Assinava-o outro vulto, que acabara de chegar sem que eu notasse; era o dr. Fraud, também com um molho de chaves.
– Demorei, senhor Vandin? Então! Achou meu bilhete?
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Wancisco Franco
reflexos e reflexões
Wan,
Interessante!!!
Ach o que as vezes a mente nos prega peças e fugimos de uma realidade para um estado ilusório e não sabemos o que é
sonho e o que ou pesadelo .
bjs
As aventuras do Vandim são sempre muito boas
Fico imagininado todas juntas num livro,ia fazer maior sucesso
Quisera ter eu sua capacidade e paciencia pra escrever assim
Beijos amigo e boa semana
Interessante e intrigante esta história do Vandin.
abçs
Espetacularmente sinistro! Gostei mesmo...
andré diefenbach · Santa Maria, RS 13/4/2009 20:09
"Das paredes, muito claras, destacava-se uma toda espelhada, sugerindo uma amplidão meio ilusória.
E a cena referida era eu, olhos no espelho, a sondar minha memória."
ei wan...no conto também há poesia.
e que angustia é essa que agente sente... aquelas cenas que se repetem do nada...ou...no início do sono...uma espécie de pesadelo.
muito bom.
abraços
Wancisco, vc traz Vandim tao vivo
e tao poetico que me apaixonar por seus
contos com ele, já é um doce prazer.
bjssss;)
wancisco franco · São Paulo (SP
A CASA DO DR. FRAUD
Misterioso, sinistro intrigante.
Uma aventura diferente.
Tem gente que tem essa afinidade e até iniciação para isso e ai esta a sua praia.
Um desbravador diferente.
parabéns pela percepção e tão brilhanrte descrição.
Abração Amigo.
Wan,
Seus escritos tem sempre um dose de suspense e desfechos maravilhosos.
Abraços
Interessante...Quando criança sofria desses episódios o tempo todo...O "dejàvu" misterioso...Chegava a "viajar" tanto e por tanto tempo ( alguns segundos ja parecem eternos...) que me atrevia, depois de algum treino, a "prever" o que aconteceria no atmo seguinte...
Hoje, tenho raramente...E não é tão agradável como era.
Dizem agora os cisntistas que é um lapso químico, puramente.
Será ????...
"Existem mais coisas entre o céu e a terra, qeu possa imaginar nossa vã filosofia...", ja bem disse Hamlet...rs
Muito Bom, Wancisco !
abraço !
E não é que o Vandin não é tão cabeça oca como parece? Faz travessuras, mas tem seus momentos de reflexão profunda.
Votado. Ivette G M
Seria Vandin....
episódio:
- Dèja-vú ...
votado
Sempre tive esses episódios...desligo-me do mundo e viajo...
E preciso disso...faz-me bem...
Adoro seus contos!
Votado!!! Como já havia dito na edição... excelente...
andré diefenbach · Santa Maria, RS 15/4/2009 00:00
mai uma obra de arte com certeza
parabens
Wan...querido...vc misturou doses de mistério, psicologia e poesia!!Fantástico!!!Essas sensações são mesmo sinistras...rsrs...projeções,sonhos,déjà vu,pesadelos,sei lá...mas são sempre situações que nos levam à uma procura do nosso eu...um autoconhecimento,de alguma forma...o espelho é sempre uma ponte...
Adorei,muito boa a narrativa e a idéia,enredo envolvente!
Parabéns,querido!
Bluebeijinhos
Bleu
Wancisco amigo muito interessante.
ESSE VADIM NÃO É MOLE !!!!!
Sabe amigo, uma vez me indicaram uma pessoa, que dizia ter poderes extra sensoriais. Curiosa, lá fui eu ver quem era esta pessoa. Diziam ter defeito físico por ter caido 3 vezrs em acidentes de aviões e não havia morrido.
Gavea, Rio de Janeiro.
Cheguei e uma figura sinistra veio abrir a porta do apto.
Estatura média, enrolado numa capa preta, uns gatos pretos circulando... Aí bloquiei qualquer contato mental e esperei atitudes Bloqueado ele não conseguia me dizer nada aí partiu para tentar me convencer a fazer uma experiência em entrar com ele pelo espelho...
Aí caí fora, pois ia entrar num estágio que estava fora de meu controle...
Quando voce falou no espelho, fiquei esperando o Vadim contar a experiencia dele para que eu soubesse como era... Acontece cada uma na vida da gente !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Legal o conto. Parabéns amigo, Bjs, Mirtes Carvalho
.
Misteriosa e envolvente, mais uma aventura do nosso herói ! Parabéns !
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2009 01:27
Esse Sr. Vandin... diferente, mas encanta.
Isabel Furini · Curitiba, PR 16/4/2009 09:07Belo texto e como a imagem veio a calhar.O mistério neste baú-caixão e o espelho.Maravilhoso!
solares · São Paulo, SP 16/4/2009 09:49
Nossa... esse é muito bom. Muito bom. Você precisa seguir essa linha, Wancisco! Você é muito bom nela.
Fiquei intrigada junto com o texto, fui pra dentro do espeho - do meu - enfim, vivi o texto como tem que ser pra ser bom!
Beijo
é...faz tempo que não tenho esta sensação...bastante tempo...
Deu saudades !
vc escreve com tanta alma
que podemos sentir na pele...todas as sensaçoes
de suas historias.
amo te ler.
bjssssss;)
suspense... mistério... muito bom! Leitura prazeirosa. Votei!
llamar al pan · Belo Horizonte, MG 19/4/2009 14:11
demorei sr. wancisco... sorte que cheguei a tempo o desfecho.
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