Há dez minutos eu li uma coisa: alguém falava sobre “capitalismo”, “burguesia” e apareceu até a palavra “proletário” – parecia o kit (e o Kitsch) completo. Mas eu estava de saída – estava atrasado para o trabalho – e não pude continuar a ler. Não desvendei, portanto, o contexto daquele texto, nem pude constatar o seu teor. O fato é que eu sempre vi o trabalho (em nosso mundo moderno, pelo menos) como perda de tempo, castração – não necessariamente exploração nem luta de classes, - mas aqui o termo alienação seria útil. E essa visão se intensificava e ficava aterradora quando eu estava atrasado e chovia. Exatamente como está ocorrendo há dez minutos.
Confesso que sou demasiado suscetível sob certas circunstâncias. Talvez alguém, um desavisado, diga que uma chuva matinal, que gera apenas pequenos contratempos em nossa rotina, não deveria ser motivo para esse meu quase desespero (é que me dá vontade de chorar). Mas não se trata, aqui, exatamente da chuva. Eu sempre gostei da chuva! Sempre gostei da lama! Já me deixei cobrir-me de lama quando jogava bola. Na escola, nenhuma chuva me parava no caminho para casa – até me animava! E nem preciso ir longe assim para lembrar que na época da faculdade – quando eu me permitia passeios solitários pelas ruas – a chuva me caía como coisa boa, renovadora. Eu me tornava diferente, eu me sentia diferente do povo das marquises. Então não se trata da chuva.
Enfim, com porcaria de chuva e tudo, eu saí, amaldiçoando-a. Foi isso o que mais me doeu. A chuva, que estava fraca quando resolvi sair, aumentou e me forçou a buscar abrigo sob uma marquise. Foi isso que me acabou, me corroeu o espírito, me destruiu e me fez até sentir-me enjoado. Uma chuva! Pelo amor de Deus. A marquise era uma comuna (lembrei do texto que lia pouco antes e que me pareceu de teor comunista, socialista ou esquerdista). Só que uma comuna de fragmentos isolados. Pessoas com cara-de-porra-nenhuma se espremendo, olhando o relógio de minuto em minuto, e eu ali no meio. Ninguém, ninguém, vai saber como eu me senti. O tumor na alma que aquela chuva fez brotar em mim. Eu era um tumulto e o era sempre pensando que eu estava atrasado para o trabalho. Ah! Esse pensamento “estou atrasado” nascido impossivelmente de meu tumulto lá de dentro de mim, me revoltou, me fez ver a vida, do alto de meus vinte e sete anos, como uma coisa que devia me deixar em paz. Porque ali eu pude sentir em minha pele o quanto eu estava alienado de mim, o quanto a juventude era algo estrangeiro em mim, o quanto eu ansiava por liberdade, uma liberdade simples, simplória até – a de deixar-me molhar naquela porcaria de chuva; ou a de chegar atrasado no trabalho em paz; ou a de sentar a beira de uma praia e ficar pensando, pensando, pensando...
Foi exatamente aí que eu desisti. Meu corpo amoleceu. Minhas mãos pensas denunciavam minha renúncia e um suspiro longo, meio longo, transformou a minha cara em algo sinistro. Cheguei atrasado no trabalho. Talvez eu estivesse pálido e com olhos opacos. Mas, graças a Deus, ninguém ali percebeu nada.
excelente texto. parabéns!
dáia flórios · Rio de Janeiro, RJ 26/8/2006 13:08
No seu texto você aponta uma das fontes de tantas doenças do nosso tempo. O trabalho e a falta dele também.
Por isso, faz-se urgente pensarmos em outra forma de concebermos outro modo de produzir e consumir.
Sendo que agora, complementando a contribuição teórica do marxismo com outras formas de conceber e viver no mundo.
Para isso me inspiro nos zapatistas méxicanos, que se apropiam também das concepções e modos de vida do povo indigena Maia.
PARABENS!
Muito bom, Fabrício! Relata a pura realidade!
Carlos ETC · Salvador, BA 6/1/2007 01:23
Pois Sim Fabrício!
É "o eu, caçador de mim'' o homem se anula, e procura uma resposta nele mesmo.
O trabalho para o homem moderno, é parte do kit opressor imposto pelo sistema capitalista.
Eu queria ser um homem de flecha,
eu queria ser um pássaro,
eu queria ser um peixe,
eu queria ter o direito de nunca ter nada,
nada, nada...........
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