A conceituação de organização em Talcott Parsons

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Bernardo Barreto · Recife, PE
2/10/2010 · 1 · 0
 

por Luiz Bernardo Barreto

Talcott Parsons vem conceituar que “organização” se refere ao tipo de burocracia. Em seu texto, Sugestões para um Tratado Sociológico da Teoria de Organização, no Tratado Sociológico da Teoria de Organização, o autor aponta “aspectos comuns a todos estes tipos de organização que ultrapassem as separações freqüentes e comuns entre as disciplinas das ciências sociais”. O estudo da organização constitui apenas parte do estudo da estrutura social. O mesmo poderá se aplicar à conceituação de comunidades locais, a subsociedades regionais e uma sociedade como um todo, concebida como uma nação. Para Parsons, os grupos de trabalho não convencionais, grupos de amigos, não são organizações nesse sentido.

A prioridade de atenção para uma meta específica é considerada característica de definição de uma organização, distinguindo-a de outros tipos de sistemas sociais (especialização profissional, por exemplo). A consecução (andamento) de uma meta é definida como uma relação entre um sistema, e as partes em que ele atua ou funciona. Esta relação poderá ser concebida como a maximização de alguma categoria ou espécie de produção (output) do sistema. “Uma organização é um sistema que, atingidas suas metas, “produz” um elemento identificável que pode de alguma forma ser utilizado por outro sistema; isto é, a produção da organização representa para outro sistema uma entrada ou acréscimo (input)”.

Presume-se que no caso de todas as organizações, exista algo análogo a um “mercado” para a produção, o que constitui a consecução de sua meta, e que exista uma espécie de troca dessa meta por entidades que são meios importantes para que a organização possa desempenhar sua função num sistema maior. A troca da produção pelo acréscimo na divisa é um dos sistemas que estão mais envolvidos na definição das características básicas da organização. “Quando a “produção” especializada e seu consumo ou utilização final se efetuam dentro da mesma unidade estrutural, não há necessidade de diferenciação de organizações especializadas (...) sociedades primitivas geralmente não possuem organizações claramente diferenciadas nesse sentido”. Isso seria um sistema comunal de produção, função e atribuições numa suposta organização. Essa última afirmativa do autor, facilmente o enquadra como neoevolucionista (mas, o mesmo, no começo de suas obras, mostrava inclinação para o funcionalismo).

O processo de tomada de decisões, e os processos que tais decisões podem contar com a mobilização no interesse de uma meta, são mecanismos de mobilização e constituem o que comumente imaginamos como o desenvolvimento do poder em um sentido político. Entendemos então que a tomada de decisões (em um sistema hierárquico) é apenas concebida diante do cargo ocupado, sendo tal decisão equivalente ao cargo e função. O que do ponto de vista da organização é uma meta específica, é parte diferenciada do ponto de vista do sistema maior. Esta relação constitui o ciclo básico entre uma organização e o sistema maior, proporcionando a classificação dos tipos de organização.

O autor vem apresentar duas abordagens: a primeira refere-se a um sistema característico por prioridades essenciais a qualquer sistema social, e a segunda refere-se a um subsistema, funcionalmente diferenciado de um sistema social maior. Sua afirmativa é que “as características da organização serão definidas pela espécie de situação em que precisa operar, e que consistirá nas relações que prevalecem entre ela e os outros subsistemas especializados, componentes do sistema maior do qual é parte”. Ou seja, é a situação que molda o direcionamento da execução na produção de uma determinada organização. Isso é a conceituação de sociedade.

Uma organização pode ser descrita e analisada sob dois pontos de vista, sendo o “cultural e institucional”, que emprega os valores do sistema e sua institucionalização em diferentes contextos funcionais, como ponto de partida. E o ponto de vista do “grupo” ou “papel”, que considera suborganizações, e os papéis de indivíduos que participam do funcionamento da organização como ponto de partida. O ponto principal de referência para a análise da estrutura de qualquer sistema social é seu padrão de valores:

a) O sistema de valor da organização implica na aceitação básica dos valores mais generalizados do sistema superior, a não ser que se trate de uma organização divergente, não integrada no sistema superior.

b) Baseia-se no nível indispensável da generalidade, que constitui o aspecto mais essencial do sistema de valores de uma organização, que é a legitimação avaliável de seu lugar ou “papel” no sistema a que se subordina.

O foco do sistema de valores terá de ser o da legitimação de suas metas, e, em segundo lugar, a legitimação da primazia desta meta sobre outros possíveis interesses e valores da organização e de seus membros. Então, a meta é objetivo no qual só tem valia se fizer sentido para a organização e seus participantes e produtores. O sistema de valores de uma empresa comercial constitui uma versão de “racionalidade econômica”. A dedicação da organização em relação à produção é legitimada. Está é a “finalidade de organização” em Chester Barnard. A obtenção de lucros não constitui por si mesmo uma função em prol da sociedade, como um sistema.

Os valores organizacionais legitimam a meta do sistema. Haverá regras normativas que governarão os processos adaptativos da organização, sendo regras ou princípios a governar a integração desta, particularmente na definição das obrigações de lealdade dos participantes para com ela. A própria organização deverá dispor de processos institucionalizados, mediante recursos, que objetivam atingir a meta. Portanto, a maneira de obter recursos para se atingir a essa meta, visa um campo principal de institucionalização.

Os recursos a ser utilizados por uma organização são os fatores de produção: terra, mão-de-obra, capital e “organização”. Quanto mais completamente desenvolvido o complexo do mercado, menores serão os bens de uma organização retirados do mercado. Um conjunto de obrigações de recursos em base de valor é o aspecto central desta face do complexo da terra. Os dois fatores mais fluidos são a mão-de-obra e capital, no sentido econômico. “A maioria dos serviços pessoais é realizada em papéis ocupacionais ou em funções. Isto significa que são contratados em algum setor do mercado de trabalho” (Talcott Parsons). Isso claramente é o que, contemporaneamente, conhecemos como o setor terceirizado.

A negociação coletiva se diferencia da individual. “Em sentido econômico, o mercado de trabalho não pode assemelhar-se proximamente a um “mercado perfeito” (...) tais organizações se tornamprogressivamente dependentes em contratos explícitos de emprego para os seus serviços humanos”. (Parsons) Uma das formas de se organizar o serviço é quando nem quem executa (o produtor), nem quem adquiriu (o cliente) pertencem a uma organização. Ou seja, há uma contratação para a produção do produto comercializado, desde mesmo sua etapa inicial até a final, estando esse pronto para o consumo (seria uma forma de imparcialidade diante do resultado final do produto). Daí, a organização toma posse do produto com a marca, e, conseqüentemente, sua simbologia. Essa é a base principal da escala como padrão de remuneração. Um segundo modo de organização, comporta numa prestação de serviços ao padrão normal de produção de comodidades (assessorias).

“A transição é particularmente clara no caso do hospital. Na pratica particular, o paciente inequivocadamente é o ‘empregador’. Mas na pratica hospitalar, a organização emprega um grupo de especialistas, profissionais médicos, para atender os pacientes. Esta admissão do cliente, acolhendo-o dentro da organização, tem implicações importantes para a natureza da organização”. (Parsons) O autor vem afirmar com isso, que as necessidades de uma organização estão sendo atendidas suficientemente pelo financiamento, pela provisão de verba financeira à disposição da organização.

Cada tipo de organização põe a disposição, de forma bastante diferente, seus mecanismos a respeito do recurso financeiro. Em longo prazo, a empresa comercial estará capacitada para autofinanciar-se adequadamente. O financiamento das organizações é considerado interesse público, e deve ser encarado como exercício de poder político. “Todas as submetas dentro da sociedade devem ser integradas na estrutura de metas da sociedade como um todo, e é com esta estrutura de metas da sociedade que as informações políticas se situam acima de todas as demais”. (Parsons)

É através de contratação de serviços profissionais, sendo necessário e desejável, que se há modificação na estrutura mais fundamental das organizações. Seria o que o autor denomina de input, que é a entrada adicional do fator da organização neste sentido técnico. A estabilidade do sistema de valores é a base de referência essencial. Os termos da meta da organização se definem e se legitimam as obrigações dela decorrentes. Surgem a partir dessa base de referência, as normas que definem a contratação de serviços humanos no mercado de trabalho e o financiamento da organização.
Se a organização conseguir controlar os recursos necessários, ela precisará dispor de um conjunto de mecanismos, no qual faça que tais recursos possam influenciar no processo, de forma efetiva, na implementação de metas em uma situação instável.

Há dois aspectos nesse sentido:

1. “Disposição” do “produto” das atividades da organização, na qual se ajusta a liquidação com os recebedores do produto. É o problema do marketing no contexto econômico. É necessário generalizar esse conceito. Por exemplo:

Produtos de uma organização militar podem ser considerados como aplicados imediatamente em relação ao Executivo e ao Legislativo do Governo e ao povo, mas não são vendidas em nenhum sentido direto.

2. Os mecanismos internos da mobilização de recurso para a implementação da meta. Referências internas e externas podem ser tratadas conjuntamente, governadas pelo “código operante” da organização. “No caso da mobilização de recursos, estas bases relacionam-se com o problema das “reivindicações” da organização para obter os recursos de que precisa e a liquidação dos termos em que estaria disponível para ela”. (Parsons)

Ex.: O conjunto principal de decisões será o conjunto de decisões tendentes a atingir a meta. A priori não se faz nem se estima mais do que se pode. O processo de poder ou não atingir determinada meta, vem com a capacidade de maior implementação de recursos da organização.

Outro conjunto de decisões relaciona-se à implementação de recursos disponíveis:

1. A distribuição de responsabilidades entre pessoas, suborganizações e indivíduos.
2. A distribuição de recursos fluidos, potencial humano e facilidades monetárias e físicas.
“Um terceiro conjunto de decisões relaciona-se com a manutenção da integração da organização, facilitando-se a cooperação e lidando com os problemas motivacionais quanto à manutenção da cooperação”. Os primeiros dois conjuntos de decisões estão no setor que Barnard chama o problema da “eficácia”; o terceiro é o locus do problema da “eficácia”, em seu sentido lato. (Parsons)

Tarefa importante para a teoria da organização é a classificação sistemática dos níveis de generalização de decisões. O aspecto crítico das decisões quanto a diretrizes é que compromete a organização como um todo, para desempenhar as ações resultantes, constituindo o problema da responsabilidade. Diretrizes (direção) + Decisões (desempenho) = responsabilidade (autorização).

Em vista da ação da organização como um todo, a autorização torna-se particularmente importante no nível de decisão de diretrizes. Organizações diferentes possuem diferentes caminhos concretos para organizar o processo da tomada de decisões. A especialização nas funções administrativas ou gerenciais afasta dos incumbidos destas funções a execução dos processos técnicos principais, conduzindo à meta da organização da tomada das principais decisões de funcionamento no nível do “trabalho”.

O técnico pode ser considerado responsável pelos resultados de suas operações, não podendo receber “ditado” para realizar determinada coisa ou tarefa a respeito dos processos técnicos pelos quais atinge tais resultados. Ele tem uma diretriz, cunhada no desempenho, estruturando sua autonomia diante de sua responsabilidade. Os aspectos principais do processo de distribuição de decisões são os “departamentos” (suborganizações) e os de natureza financeira (facilidades burocráticas e instalações físicas).

Dessa forma, as operações técnicas poderão ser tratadas e consideradas sendo controlada pela distribuição da responsabilidade de decidir. O orçamento é o segundo aspecto principal do processo distributivo. Esse representa a distribuição de recursos financeiros fluidos, os quais podem ser empregados para determinar “fins”, ou seja, aquisição de facilidades físicas e emprego de pessoal.

“A distribuição de responsabilidade é a definição das funções de subsistemas, organizados de forma humana e preenchidos por pessoas. A distribuição de verbas orçamentárias dá a estas suborganizações os meios pelos quais podem estas desempenhar suas funções (...) ‘decisões decoordenação’ é aquilo quer Barnard chamou de problemas de “eficácia”. São as decisões operacionais relacionadas com a integração da organização como um sistema”. (Parsons)

Coordenação, numa perspectiva da operação da organização, é “cooperação” numa perspectiva do pessoal. A administração da organização deve tomar, ou está pronta a tomar medidas para agir contra o impulso, mantendo reduzida a mudança no quadro do pessoal (turnover), para fazer que o desempenho das subunidades e dos indivíduos mais se adapte às exigências da organização. Há, nesse ponto de vista, um conjunto de três formas fundamentais, que são a coerção, o estímulo e a forma terapêutica de avaliação dos obstáculos motivacionais.

O turnover visa uma familiaridade com a função determinada. Desta forma, a abstração para melhor desempenhar a função estabelecida pela organização, se estrutura como um procedimento no processo produtivo.

Sobre a obra

A estrutura das organizações se dá por metas, objetivos e funções. A implementação do sistema produtivo no mercado em evidência, é baseado num sistema de responsabilidades, na qual determina a ação e a função do operário e das organizações. Autorização, direção e hierarquia funcional nas organizações são elementos que moldam toda estrutura organizacional. Talcott Parsons argumenta sobre a coordenação de um sistema de organização, e a cooperação que pretende com suas metas e objetivos para com o mercado.

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Luiz Bernardo Barreto
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