A Confraria do Retrós (de Alma Welt)
Não mais contem comigo, ó ociosos,
Que aos mistérios preferem ninharias,
E acreditam seus flertes mais gozosos
Pois agradam o comum dessas gurias.
Não tenho tempo, que é curto e veloz,
Embora tenha o tempo deste mundo
E talvez de um outro, bem no fundo
Do tear que é cobrado a todas nós.
Mas se a mim foi dada outra arte
Não posso e não quero fazer parte
Dessa grande Confraria do Retrós
Ou do tricô, crochê e outras rendas
Que ocupam até hoje vossas prendas,
Penélopes tardias, mas... sem voz.
07/06/2006
Nota
Acabo de encontrar, esta manhã, entusiasmada, este notabilíssimo soneto, inédito, de minha irmã. Notem a graça e habilidade dessa sua verdadeira "profissão de fé" de sonetista e porta-voz de uma outra dimensão das mulheres, mormente desse nosso Pampa arcaico. (Lucia Welt)
Ensejos e reveses (de Alma Welt)
Terei vindo com o dom de escrever,
Mas só recentemente descobri
Que a minha missão é a de ser,
Que pra isso vim e... escrevi.
A inspiração que me atribuem
Não é a minha, simplesmente,
Mas a que causo em certa gente,
Alento que em si mesmos alguns fruem.
Seria isso sugestão ou só viés,
Mas quero acreditar pois sinto e vejo,
O que me fez persistir após revés:
O mal que um desejoso me causara
E que a mim me atribuíram dar ensejo
Somente por ser bela, nua, e... rara.
(sem data)
Nota
Este soneto que, comovida, acabo de descobrir na Arca da Alma, aborda uma questão delicada de nossas vidas. Mas como a Alma se propôs desde sempre a contar tudo, absolutamente tudo, de sua vida, e esse fato ao contrário de lhe tirar o mistério parece tê-lo aumentado (a julgar pela opiniões e debates de seus fãs e leitores na Internet) resolvi agora também revelar ou confirmar algo que a poetisa contou no seu romance A Herança: Sim, meu ex-marido Geraldo (falecido), foi esse "desejoso" a que Alma alude no seu soneto. Esse homem, apesar de ser o pai dos meu filhos, se revelou um bandido, durante o episódio da luta familiar entre a Alma, ele próprio e nossa irmã Solange de quem ele se tornaria amante e cúmplice no roubo do espólio de nosso pai. Esse conturbado episódio foi agravado pelo estupro de minha irmã por esse bandido e adúltero, que aliás, talvez por justiça divina acabou assassinado por um membro de sua quadrilha depois de ele próprio ter atirado em Solange, que acabou morrendo nos braços da Alma, num perdão mútuo que foi uma trégua na desgraça que reinava sobre esta casa. Sei que isso parece um imbrólio dos diabos, ou excessivamente romanesco, mas reamente aconteceu, e pensei que o desenlace redentor atenuaria os traumas e seqüelas deixadas por tão trágicos acontecimentos em nossa famila. Mas, a verdade é que esse estupro deixou marcas profundas na alma da doce e genial poetisa, minha irmã, declanchando uma depressão bipolar que talvez a tenha levado, anos depois, à sua morte trágica. (Lucia Welt)
Som e fúria (de Alma Welt)
A vida é a estória, só, de um louco,
Cheia de som e fúria, e sem sentido,
Como disse o Bardo esclarecido
Para o nosso ouvido ainda mouco?
Bem provável, pois não encontro par
No meu próprio sonho, e, ao contrário,
Tenho muito, por meu reino, que lutar
Neste pampa que me coube por cenário.
Pois a Poesia é vista com reserva,
Se não for para cantar a gauchada
Depois do chimarrão, de muita erva.
E, sombra a avançar pela coxilha,
Seria eu apenas prenda amalucada,
Se não fosse do patrão a bela filha...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto, que revela uma queixa de incompreensão, da Poetisa em sua saga poética, aqui neste pampa isolado, de fim de mundo.
*como disse o Bardo esclarecido - como a maioria dos leitores deve ter percebido, Alma se refere a William Shakespeare, que colocou na boca de seu Macbeth, sua famosa frase imortal: "A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia sobre o palco e depois é esquecido. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada."
Meu credo (de Alma Welt)
O que me faz crer que Deus existe
Não é uma doutrina exorbitante,
Mas a própria Natureza que persiste
Mesmo agredida a todo instante.
Desde o primeiro riso do menino
Ao livre crescimento de uma planta;
Ao ar que respiramos, antes fino,
Agora grosso e pesado como manta.
Mas pra que a descrença não me morda
Ouço a grande soprano não mais gorda
E um portento a tocar um violino
Maravilhosamente e desde antes,
Quando o arpejou e era franzino,
Brincava e sonhava com elefantes...
(sem data)
Lied (de Alma Welt)
Esta dor que sinto mal se explica,
Pois vem d’alma e não do coração,
Que este me é alegre e justifica
O brilho que nos olhos me verão.
Poucos deram pelo pranto da guria
Que na coxilha, sim, na vastidão,
Cantar ouvem numa tal algaravia
Que é somente um lied, em alemão.
Mas nesta ambigüidade que não vêem
Refugio-me pra ter meu próprio mundo
Embora eu seja dele uma refém...
E apesar de alguns lances indigestos,
A beleza que emana dos meus gestos
Vem de fonte cristalina, bem do fundo.
(sem data)
Nota
* Lied - é como se designa canção ou o cancioneiro erudito alemão, cantado em solo (por um soprano ou contralto, ou tenor ou barítono ou baixo) acompanhado por um pianista. Vide os "lieder" (plural de lied, em alemão) de Schubert, como A truta, A Fiandeira, o Rei dos Elfos, todas canções famosíssimas, algumas com letra de poemas de Goethe. (Lucia Welt)
Amor e Arte (de Alma Welt)
Francamente eu preferia a Morte
Se na vida não mais houvesse Arte.
Sei que é radical e muito forte
Proclamá-lo aqui e em qualquer parte.
Mas Amor é básico e irradiante
E faz rodar a Terra no seu eixo;
O sol e outras estrelas, disse Dante,*
E de citar il Bardo não me queixo.
Se é a Arte que a vida nos sublima
Com as cores mais belas da paleta,
O Amor é quem pinta e ilumina,
Faz obra-prima de simples garatuja,
Cria um Iris em pincelada preta,
E torna lindo o filho da coruja...*
16/08/2005
Notas
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e me deparo com mais uma obra-prima da Poetisa, ao meu ver. A chave de ouro é sublime, ao meu ver, pois ligeiramente humorística... (Lucia Welt)
*O sol e outras estrelas, disse Dante - alusão ao verso final da Divina Comédia, de Dante Alighieri :"L'amore que muove il sole e l'altre stelle."(O amor que move o sol e as outras estrelas).
*E torna lindo o filho da coruja- Alusão à famosíssima fábula de La Fontaine.
Mais sonetos inéditos encontrados pela Lucia na espantosa Arca da Alma. Já chegam perto de 2.000 o número de sonetos da Poetisa universal do Pampa.
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