A conta
Busco diversão nos finais de semana. Mas não integro a grande seara das pessoas que procuram levar vantagem em tudo.
Dia desses estava com os amigos numa lanchonete e culpei a sobrecarga de trabalho da garçonete pelos erros que ela cometera.
Coitada dela, no primeiro erro ficou aflita, olhava-me com olhos suplicantes, alternando ainda olhares aos meus amigos e em direção ao caixa. Talvez lá estivesse o patrão e ela temesse ser demitida se ele ouvisse o nosso diálogo. No segundo erro não me lembro em que botei a culpa, talvez ela já estivesse nervosa.
Ela trouxera a conta que, conferindo o cardápio, eu já fizera mentalmente: dezenove reais. Comentei com os amigos: a conta está errada. Tá! Não tá! Tá! Não tá! E essa lenga-lenga se estendeu por alguns breves minutos. Um dos amigos, com uma ponta de maldade, testou-me: Ah! paga do jeito que tá e vamos embora. O assentimento dos outros reforçou em mim a disposição de não levar vantagem.
Balancei a cabeça negativamente e chamei a moça. Ela esperava pelo acerto encostada no balcão, afastada um pouco de nós.
Ela veio.
Eu disse, balançando a comanda:
— A conta está errada.
— Errada, senhor?
— Sim, errada.
Meus amigos, rosto fechado, davam gravidade à cena. Ela, coitada, não parava os olhinhos aflitos sobre mim, ora em meus amigos, ora ao caixa.
Eu voltei à carga, quebrando o silêncio de alguns instantes.
— Você somou corretamente o nosso consumo?
Ela disse sem muita segurança e pálida:
— Sim, senhor.
Eu tranqüilizei-a, afinal, passando-lhe a comanda para que verificasse.
— Veja que a conta que nos apresentou vai lhe dar um prejuízo de cinco reais.
Ela recuperou o sangue na face, mas demorou ainda a responder. Por fim, exclamou num desabafo.
— Pensei que ia me acusar de estar aumentando a conta.
— Não — respondi, dando-lhe uma nota de cinquenta reais para a cobrança.
Ela foi até o balcão, explicou-se um pouco por lá com o caixa e após alguns segundos retornou com o troco. O seu semblante estava aliviado, até ensaiava no rosto um sorriso de agradecimento por lhe livrar de um prejuízo naquela noite.
Deu-me o troco, sorriu agradecida e desejou-nos boa noite.
Quando virava para afastar-se, eu a chamei.
— Moça, o troco está errado.
Ela paralisou os movimentos, ficou por algum tempo como uma estátua e retornou devagarinho, por certo acreditando que da segunda vez não escaparia de uma descompostura. Dois erros numa mesma noite era demais. E com o mesmo cliente, nem se falava.
Quando ela parou diante de nós, eu lhe disse:
— Dei-lhe cinqüenta reais para a cobrança, não foi?
Ela concordou com um movimento de cabeça.
— Você deveria me devolver trinta e um reais, certo?
Novo aceno com a cabeça.
— Pois bem, vamos conferir novamente o troco.
Coloquei nota a nota sobre a mesa. Ao final, perguntei a ela:
— Quanto temos aqui em dinheiro?
— Oitenta e um reais.
— Pois bem, você me deu cinqüenta reais a mais — sorri, devolvendo-lhe a nota.
Os olhos dela brilharam de agradecimento e o que conseguiu murmurar soou para mim como a revelação de que estava diante de um ser de outro planeta:
— O senhor jura para mim que é mesmo daqui?
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____________Parabéns meu amigo "JJ" / votado!_____________________
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Fazer o bem, sem olhar aquem! Parabens, votado
victorvapf · Belo Horizonte, MG 21/11/2007 07:25
Você é um cabra ético,precisamos fabricá-lo em série.A propósito,
a palavra"cabra"não é ofensa,é expressão usada aqui no NE,um forte abraço,visite meu site: www.zegoncalvez.com
Leandro...sempre com este estilo que "captura" o leitor.
Parabéns por mais esta!
Abraço!
Leandro,
Por isso eu sou feliz..........Pq sei que existem pessoas assim, anjos q atravessam nosso caminho.
Beijos, pra vc,
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