A decisão

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Abel Sidney · Porto Velho, RO
2/8/2008 · 113 · 12
 

- Já está na hora de você começar a tomar as suas próprias decisões...

- Mas eu sou quase uma criança, pai! Nem fiz treze anos direito...

- Não me venha com estes argumentos falhos, pois você já sabe que maturidade e idade nem sempre andam juntas...Você está com medo, o que é de se esperar, afinal não é fácil lidar com a responsabilidade de se fazer escolhas.

- Pai, eu não entendo uma coisa: de onde o senhor tirou essa idéia? Tudo bem que o senhor é professor e anda lendo muitos livros de psicologia ultimamente...

- Eu estou te preparando para a vida, sem as tantas repressões que os filhos da minha época sofreram! Um dia você vai me agradecer por isso!

- Está bem, pai, está bem... E por onde começamos a tomar as decisões?

- Você é que decide, afinal as decisões serão suas...

- E a responsabilidade também! E o senhor acha que eu sou louco de aceitar uma proposta dessas? Nem pensar!

- Ei, não adianta recuar! Você já aceitou e agora não tem mais jeito. Crescer dói, mas é necessário.

- E quem disse que eu quero crescer? Para ficar assim como vocês, já, agora e sem nenhuma compensação?

- Como assim “ficar como vocês”?

- Vocês não batem muito bem das bolas; não sabem o que querem da vida; vivem sem saber como fazer as coisas mais simples (como educar os filhos, por exemplo) e agora ainda querem passar toda a responsabilidade de tomar decisões para mim?! Tem alguma coisa errada nisso!

- Epa, epa, epa! Agora você exagerou! Como “não sabe educar os filhos”!? E você, por acaso, não é bem educado?

- Depende! Como você mesmo diria: qual é a sua concepção de filho bem educado? Seria aquele que se comporta bem apenas para...

- Pára aí, você agora foi longe demais: roubando minhas falas, meus argumentos! Isto é plágio e plágio é crime!

- Não senhor, isso é aprendizado. Aprendi tudo com o senhor! E estou “citando a fonte”, ainda por cima; logo não é crime...

- Você está é tentando sair pela tangente! Não quer assumir a dor de ter que ser responsável, de construir o próprio destino! E não me olhe com esta cara, não! É isso mesmo...

- Está bem, pai! Vou assumir. E o senhor que me aguarde, pois daqui a alguns segundos tomarei algumas decisões que mudarão o rumo de nossas vidas.

- E o que você pretende fazer, meu filho?

- Minha primeira decisão já está tomada: vou embora de casa!

- O quê? Você ficou doido?

- Não! Eu sou responsável o bastante para saber fazer as minhas escolhas. E caso eu me arrependa, sei que terei conseqüências a enfrentar e estou preparado para elas.

- Mas eu não pensei que você fosse agir assim tão...

- Tão responsável comigo mesmo? Pois a partir de agora será assim: vou me dirigir ao senhor apenas para comunicar minhas decisões, que serão baseadas em “sólidos argumentos”, depois de ”muitas reflexões”. Até mais!

- Ei, aonde você pensa que vai?

- Ah, foi mal! Desculpe! Estou de mudança para a casa do meu avô!

- Mas ele não tem a mínima condição de cuidar de você! Você não pensou nisso antes?

- Pensei sim! E decidi cuidar, eu mesmo, dele e da vó, que estão abandonados por você e pelos meus tios.

- Alto lá! Que acusação é essa?! Eu nunca os abandonei...

- Não mesmo? Há quantos dias o senhor não aparece por lá?

- !!??

- Nem se lembra, não é? Eu sei, pois a vó e o vô me disseram ontem – exatos vinte e dois dias! E isso não é abandono?

- É que...

- Estou indo, pai. Quando quiser, pode ir me visitar...

- Não, não! Pode parar aí. Acabei de tomar outra decisão, agorinha! E minha palavra ainda tem efeito de lei nesta casa! Decidi que você não tem mais poder de tomar decisão por conta própria... Nem eu! Nem sua mãe ou seus irmãos.

- Agora não estou entendendo mais nada!!

- Pode sentar aí! Te aquieta, meu filho. Vamos conversar. Penso que a solução dos nossos impasses (você sabe como é difícil tomar decisões!); bem, a solução do nosso caso está nas decisões tomadas por um colegiado!

- Colegiado, de novo?

- Sim, é quando todos tomam decisões em conjunto, com igual poder entre todos os participantes...

- Já ouvi isso antes, pai!

- Como somos em cinco, não será difícil (se três decidem, os outros dois são obrigados a aceitar a decisão tomada!)

- Entendi, pai, mas não é exatamente isso o que temos feito desde o ano passado, depois que as suas experiências anarquistas não deram muito certo!? Nós já tomamos as decisões assim, juntos! Então o senhor deseja que tudo continue tudo como está, não é?...

- É filho, creio que o melhor é assim mesmo: co-mo es-tá, pois afinal conforme ensina o futebol, em time que está ganhando não se mexe!

- É pai, você é um cara de sorte! Vira e mexe, se mete em cada confusão, mas consegue sempre se safar, não é?

- Experiência, meu filho, experiência... E caso você queira, estou aqui para compartilhar umas boas experiências que tenho guardadas a sete chaves, especialmente com você!

- Não, pai, obrigado! Já bastam as experiências-surpresas de cada dia...

Sobre a obra

Do nosso livro no prelo, O Esboço: novos escritos, temos dois textos da série intitulada Diálogos Improváveis. Este é um deles.

Nas escolas, onde trabalhamos este texto com as crianças e adolescentes, ele rende um bom jogral.

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Abel Sidney
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

iniciei sua votação, muito bom o texto.(votei).

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 2/8/2008 08:16
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celina vasques
 

Lindo poeta! Meus votos com carinho

beijo ba alma!

celina vasques · Manaus, AM 2/8/2008 10:51
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celina vasques
 

Lindo poeta! Meus votos com carinho

beijo na alma!

celina vasques · Manaus, AM 2/8/2008 10:51
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Dete Reis
 

Ótimo texto, tem meu voto!!
Com admiração! Dete!

Dete Reis · São João de Meriti, RJ 2/8/2008 13:17
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MarcilioMedeiros
 

Abel,
você atingiu plenamente o propósito de realizar um texto didático e com um toque de humor.
abs.

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 2/8/2008 13:52
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Doroni Hilgenberg
 

Abel,
Seu maravilhoso conto é uma verdadeira aula didática.
Bem elaborado, bem construido e um exemplo de como dialogar com os filhos numa boa.
Mas viu como juventude de hoje sempre ganha, não há argumentos para vencê-la.
Adorei!

bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 2/8/2008 23:28
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Sônia Brandão
 

Parabéns pelo texto.
Um abraço.

Sônia Brandão · Bauru, SP 2/8/2008 23:53
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Nic NIlson
 

Pronto, votado e ja são 71 votos!

Nic NIlson · Campinas, SP 2/8/2008 23:56
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Abel Sidney
 

Amigos,

Gratíssimo pelos comentários. Hei de encontrar tempo para visitar a cada um...

Valeu!

Abraços

Abel Sidney · Porto Velho, RO 3/8/2008 00:06
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Compulsão Diária
 

Parabéns pelo texto, querido. Trabalho lindo.Cheguei atrasada. Poxa, avisa qdo postar. Nem sempre dá pra seguir as filas.
Se der passa aqui?
http://www.overmundo.com.br/banco/interlingua

Compulsão Diária · São Paulo, SP 3/8/2008 01:34
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Ailuj
 

\patrabens Abel,,muito bom seu texto
Procurei o último e nao achei,,saiu do ar??
Beijos

Ailuj · Niterói, RJ 7/8/2008 09:41
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Alice Poltronieri
 

Parabéns Abel, pelo texto. Uma boa mostra do autor talentoso que és.
Desejo muito sucesso em teu trabalho árduo de educar e escrever.
Um abraço.
votado

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 18/8/2008 14:49
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