Acordou decidida. Dormiu muito pouco; uns conchilos nervosos. As olheiras revelavam a falta de sono.
A decisão de largar o emprego foi tomada. Sabia que era decisão de má hora. Resolver uma coisa dessas com raiva , enquanto remoía, na cama remexida, oito anos de serviços prestados à empresa poderia não ser prudente.
"Dane-se", pensou . Estava certa do que queria e pronto. Não se arrependeria e ponto.
No banho passou mais uma vez a cena que faria com o chefe. " Lamento senhor Almeida mas obtive uma posição melhor em outra firma. O senhor sabe há quanto tempo estou aqui na mesma função e sequer me concedem um aumento, não é justo. Não, desculpe mas não posso reconsiderar. Não senhor, nem pelo dobro do salário. O que podem fazer por mim? Bom, agradeceria se dessem meu contrato por encerrado e liberassem meu fundo. Sim, é a minha última palavra. Adeus"
Engolindo o café, forte e sem açúcar, procurava acreditar mais uma vez que aquilo estava certo. Apesar de não existir outro emprego , sonhava ir se mantendo com a indenização até que aparecesse coisa melhor. O que não podia era passar mais um dia naquela firma de merda. ( leitor, perdoe a linguagem , mas foi exatamente isto que ela pensou e não posso reprimir minha personagem).
Ainda lembrava a humilhação que passara na última tentativa de conseguir uma mísera promoção para o cargo de subalterna da subalterna júnior e que, na última hora, foi preenchida por uma estagiária que de tanto mascar chicletes ainda perderá a mandíbula. Não, definitivamente - pensou ao despedir-se do porteiro do seu prédio - tinha que dar um fim nisso tudo.
Parou no seu Osvaldo, o jornaleiro, deu uma lida rápida nas notícias tristes do dia e rumou confiante , ou quase, ao seu destino. Antes de tomar o metrô , foi engolida por uma massa tão densa de gente que, por instantes, se perdeu. Viu passar um boné amarelo e seguindo-o conseguiu sair da multidão. Ao olhar com calma viu que era tanta gente que dobrava o quarteirão. Perguntou do que se tratava. " Fila do balcão de emprego dona".
Ao receber o bilhete da funcionária sentada atrás do vidro blindado, já não sabia de onde viera a certeza que trouxera consigo. Equilibrando-se no vagão buscava a lógica do raciocínio antes tão claro. A mente, tão vazia quanto o estômago , não encontrava solução.
Vagarosamente entrou na empresa sem tirar os olhos do chão. Ao entrar na seção foi direto ocupar seu cubículo e, de cabeça baixa , sequer viu o chefe entrar quinze minutos depois. Deveria ter dormido melhor a noite.
Vanessa,
Bem escrito seu texto.
É isso ai,
nesses tempos de crises,
quem tem um emprego deve
relevar e se dar por feliz.
Um dia as coisas mudam...
bjs
bem feito seu texto, gostei muito.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 27/10/2008 21:47
Vanessa:
Voce foi muito feliz , pois retratou os mórbidos movimentos que a rotina faz no íntimo das pessoas que são sufocadas pelo sistema. E são milhões de pessoas ... voce fala em nome delas.
Não fez pouca coisa ....
Parabéns
Minha querida,um belo texto,tempos de mudanças?
Publicado carinhosamente.
Bela crônica que quase perdi em meio a decisões;))
Compulsão Diária · São Paulo, SP 28/10/2008 03:18
Bela cena do cotidiano, onde as ações (que gostariamos de tomar) muitas vezes não resistem à eroção causada pelo tempo e pela corrosiva realidade.
Muito bom
Um abraço
Amigos, muito obrigada pelos comentários tão carinhosos!!
Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro, RJ 11/11/2008 13:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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