"Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado, e disse à minha alma:
quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos? E minha alma disse: não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho."
Walt Whitman
Para: Alcanu, Julio Rodrigues Correia e Pepê Mattos
1.
Um torpe passadiço
seduz o approach-rastro do olhar
asfaltado de pedras.
Subordinada a bafos tórridos,
a língua da libélula enervou-se em círculo
— o ato dela assassinar o macho brincalhão
não a salva do avesso em pranto —
e não raro sofre metástases gramaticais
derivadas das falas
voluptuosas de seios humanos estuprados...
2.
Alumiados pelo enxágüe do outono
os poetas-crus laqueiam a boca
e consternam os corpos adornados
por plumas metamorfoseadas
em breve moagem...
Ai!... No alpendre
a sanguessuga coincide
com a ejaculação de um insalubre embriague,
desmaterializa-se!
Desconectado de mim
logro o belo das carrancas e germino
o sensabor do seixo;
mas, antes cato feias begônias
e bebo café
com dissabor.
3.
Cá. A bagana ainda presa ao dedo anelar
espanta a ladra fuligem
daí esfola o sorriso até não suportar
— regurgita o não-orgasmo.
De mim: um imundo sêmen
escorre á força;
sobressaltado,
lampeja no influxo da aurora.
4.
Oh, Verbo!
O que na tua face pulula
(leve como uma pena)
enodoa a imensa cuba da fala.
O teu passado regula os limites da brisa,
não tenha medo, sumiu-se já o relâmpago…
E ainda que entreaberto como uma prostituta
não caçoe da lonjura de vagalhões...
Lembra-te de que és arpão...
Oh, sim,
recorda-te sempre dos excrementos amarelados
que fervilham como as unhas tesas:
— eles não escorregarão sobre ti
redivivos!
5.
Às sextas,
reviro o sexo alucinado da chuva.
Os féretros onde elas sangram fá-lo-ão suicidar
o som do mormaço
e alimentar-me-ão do que grela da ilusão
porquanto sabem elas que eu não morrerei
como sândalo.
Oh, semente!
Por que reinventar o tear
se elas nunca haverão de costurar inumanidades?
Por que engolir o cerne da vida
se o réquiem do veneno de após-sexta
é mais do que necessário?
6.
Colho um livro.
A destreza das dúvidas
bole o esterco e confunde o instante.
A abobada celeste,
sem o alfabeto das faces gretadas
não ensina
alguns enigmas que o UFO esconde.
Como o poema soletra liberdade
e carpe insinuantes crueldades
louvo a redobra de desertos.
— Oh, aurora!
Peço-lhe que esqueça
o descaminho da faca.
© Benny Franklin
Estava com saudade do meu poeta beatnick preferido.Surge com um poema possante, trazendo nas entrelinhas megatons, verdadeira explosão poética que esse poeta marajoara nos brinda. Poema mestre, não se explica, sente-se. Voltarei mais tarde para voto. Poema vigoroso, essencial.
Julio Rodrigues Correia · Manaus, AM 28/3/2009 00:56
Colher livros ...
Não existe melhor safra !
abraço, Benny !
Benny!
Liberdade para a criação e:
"Livro! Bendito livros
fazendo o povo pensar
o livro caindo n'alma
é germe que faz a palma
é água que faz o mar"
Grande Benny,
Você é um poeta imenso! Que prazer lê-lo nessa
de sábado. É como um incentivo ao dia que começa.
Lindo, Benny! Essas palavras, sem dúvida, falam bem melhor do que as minhas:
(Tudo é uma procissão,
todo o universo é uma procissão
em movimento medido e perfeito.)
Walt Whitman
Beny
Oh, Aurora!
peço-lhe que esqueça
o descaminho da faca.
É essa incerteza frente a tantas mazelas da vida onde até os livros confundem, que nos levam a duvidar das auroras que se projetam belas mas se perdem no caminho manchadas de sangue.
bjs
Oh, Verbo!
O que na tua face pulula
(leve como uma pena)
enodoa a imensa cuba da fala.
Um poema voraz. Abraços.
Nada como a sustentabilidadade de Whitmam! De prima meu caro!
raphaelreys · Montes Claros, MG 28/3/2009 16:33
Benny,
Obra digna de seus incontestável talento.
Vida que segue...
Abraços
Benny,
Vim prestigiar você meu caro amigo...
Abraços Guairuru!!!
Benny:
Retornando, com muito prazer
Teu trabalho é sublime,
diferenciado !
abraço
Um trabalho exemplar, digno de maestria! Uma originalidade singular, entre a prosa e a poesia! Parabéns!
Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 30/3/2009 09:41
(Só o que prova
a cada homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)
Walt Withman
Benny com louvor. Poesia Bennyana. Mais que satisfeito com o que leio. Estirpe digna de Benny Franklin!
Higor Assis · São Paulo, SP 31/3/2009 09:55
Só vi agora, Benny.
Louvemos, o poema e os poetas.
beijos
Como o poema soletra liberdade
e carpe insinuantes crueldades
louvo a redobra de desertos.
— Oh, aurora!
Peço-lhe que esqueça
o descaminho da faca.
No sexo das sextas ainda se volta aos caminhos....
Parabens e louvo as palavras que
me dá...
OS HF
Cintia
Save, Benny!
As palavras nunca são as mesmas depois de você usá-las!
Abraço Pantaneiro.
simplesmente belo seu texto.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/4/2009 20:17Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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