A DONZELA BRANCA

paulo gomes junior
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raphaelreys · Montes Claros, MG
2/4/2015 · 2 · 4
 

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A DONZELA BRANCA.


Raphael Reys


Maio de 1965 nessa inusitada terra de Figueira, o galã Paulo Gomes Junior, o Paulinho Relojoeiro (hoje com loja no Quarteirão do Povo) arrasava corações montado em sua bicicleta sueca aro 28 modelo Ahermes, 1954.
Pneu fino, freio de mão, câmara de ar de borracha vermelha, campainha metálica, selim especial. Um luxo só.
Caído de amores pela Verônica, também conhecida como Branca, uma pernambucana baixinha. A garota da cabeça chata era conhecida como a Donzela Branca de Arapiraca.
O pai, um atávico, que por qualquer motivo enfiava uma peixeira no bucho do contendor.
Domingo cedinho e o nosso conquistador de suburbanas rumou para o Bairro Cintra visando levar a Branca para a missa das nove horas na Catedral, o que era considerado o it da época.
Chegando a casa encontrou a moça de vestido de renda branca e forra de cetim rosa claro. Diadema no cabelo, correntinha de Santa Luzia no pescoço e Alpargatas Roda nos pés.
O galã Paulinho (que se parecia com o ator Paul Newman), trajava calça de riscado de algodão, camisa Volta Ao Mundo comprada na Loja Boa Vontade.
Brilhantina no cabelo, relógio Seiko no pulso e sapato Vulcabrás. E como chovera bastante, calçava galochas brancas nos sapatos, a última moda das metrópoles.
A donzela morava perto da casa de Bilô, conhecido fiscal da Prefeitura e após apanhá-la o nosso herói de alcovas tropicais descia a Rua Juramento rumo ao centro. Quando na ladeira o freio de mão falhou...
Como a bicicleta trafegava em boa velocidade buscando chegar na hora da abertura da missa, evitando escândalo de padre Agostinho, a calanga então virou um bólido.
Ladeira abaixo e impossibilitado de praticar a frenagem naquelas circunstâncias inusitadas, o casal começou a gritar desesperadamente.
A bicicleta se embrenhou para dentro de um bananal próximo e com o impacto em um obstáculo, o nosso herói ficou enganchado nas bananeiras preso ao guidom.
A namorada, tão branquinha, dependurada de cabeça para baixo agarrada a um cacho de bananas.
A donzela, ao se desprender caiu de ponta cabeça dentro de um grande monte de estrumes e atolou até a cintura. Rápido, o conquistador a puxou pelos pés lavou o seu rosto e braços com as águas (então) límpidas do Córrego do Cintra.
Temendo a possível retaliação que poderia ser praticada pelo pai da garota, gramou o beco e deixou a sua prenda chorando sozinha...
Desonradas as calças riscadas que vestia, o nosso vil herói passou seis meses escondido em uma fazenda de amigos no campesino povoado de Mato Verde.
Findo o refúgio, a foto ilustrativa tirada em 1965, à porta da casa do Tenente Esmeraldo na Rua Bocaiúva, durante os tradicionais ensaios das festas juninas promovidas pelo oficial. Mostra o nosso Paulinho já de bicicleta nova e cheio de lero para cima de uma garota...
Testemunhas do fato estão na foto:
O líder sindical Carneirinho (com o olhar desconfiado e treiteiro, embora de aparência mansa) e o já saudoso industrial Edson Bororó, na época um galalau tupiniquim com o sapato brilhando. Muito bem lustrado pelo competente engraxate Zuza.
Os demais personagens são componentes do Terno de Quadrilha do Tenente.

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Autoria
raphaelreys
Ficha técnica
preconceito
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Estrela Guia
 

Delícia de relato! Bom dia, poeta!

Estrela Guia · Belo Vale, MG 6/4/2015 08:53
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alcanu
 

Quanta gente !
Onde estará cada um deles hoje em dia ?
Conto muito bem narrado...
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 6/4/2015 15:25
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raphaelreys
 

Estrela Guia...Obrigado!

raphaelreys · Montes Claros, MG 6/4/2015 17:13
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raphaelreys
 

alcanu...Vivos, somente oherói Paulinho Relogoeiro, ainda paquerando suburbanas e o Carneironho, matreiro integrante do Sindicato dos Bancários, onde está mamando a quarenta anos...E vivas a malandragem urbana!

raphaelreys · Montes Claros, MG 6/4/2015 17:15
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