Emergiu plena de silêncio, a esfinge. O OLHO boiou na superfície do lago, trazendo novamente o corpo inadequado do mistério onde afoguei minhas palavras, a razão e todos os dias cegos. Os dias cegos que insistem na luz que vibra no enigma da esfinge. A luz cativa no olho da esfinge que vaza a minha alma, a loucura desbotada na janela. Dias frouxos e de esquecimento, desistência na beira do olho fundo, a fome que já me devorou inteira e eu vomito com desdém… A esfinge chegou novamente, de um jeito diferente, onde o que era alucinação virou lucidez e calma, como um cristal devolvendo ao sol o brilho que cega. Há muito arranquei meu olho sadio e atirei na fogueira das palavras em labaredas, onde queimavam meu corpo e a minha alma.
A chama da verdade ficou suspensa como a surpresa de um dia estranho em que perdi mais do que a inocência da fé. A FACA quente, limpa e afiada da verdade sumiu das minhas mãos, como uma aparição se apagando dentro de uma paisagem de gelo. Descobri que o gelo também queima. Pior que a queimadura de fogo, o gelo necrosa e a ferida não fica na casca.
Que pulsação estranha nesse (re) encontro com a esfinge. A que sempre esteve dentro da aparente ausência, o OLHO crispando na minha nuca, espreitando por todos os lados e me esperando no dobrar do próximo passo. E os meus passos ficaram cautelosos e escorregadios. Olho para o chão onde imponho meus passos e recolho as vibrações. Sei que a esfinge é poderosa, mas não consegue me devorar inteira. Então, tenta me dividir e confundir. Às vezes fico solta, exposta como uma isca. Mas ela é astuta. Fareja e me refuga. Ela sabe que sou bicho. Um bicho ferido que não conseguiu arrancar dos flancos a lança e que se recusa a lamber a ferida. Mas OLHO no OLHO, uma porção ínfima de humanidade devorada dentro da esfinge vacila e só EU sou capaz de captar. E isso a deixa frágil e todos os meus medos me fortalecem.
Na beira do lago e do fundo do OLHO onde emerge novamente a esfinge, espreito o movimento das águas, tateio de olhos fechados, mas sem cegueira, a ondulação das linhas da superfície que dará forma ao monstro. Levito e deixo a esfinge entrar nesse espaço aberto pelas palavras afogadas, cianóticas e inchadas. As palavras inertes que tento inflamar com o oxigênio dos meus pulmões, num inútil boca-a-boca. E a minha boca cerra poucas palavras perigosas, de combustão precisa ao mínimo descuido na floresta, o incêndio que aprisiono nesse deserto do lado de cá da janela.
Que venha então a ESFINGE com o seu enigma original. A resposta certa está aqui, na palma da minha mão. Mas não dou de graça a cinza do que se queimou dia após dia nas sombras desses dias estranhos. A esfinge não sabe. Mas já me devorou. E eu, como Fênix reinventada, renasci no embrulho do seu estômago. Incorporei suas enzimas, suas vísceras, seus espasmos. A crueldade compressora do seu estômago não foi capaz de fazer a síntese e permaneço antítese.
Assim caminho com OLHOS de águia sobre a espera e espicho de dentro da lagartixa o jacaré, que às vezes solto na beira do lago onde a esfinge repousa. O meu jacaré paira cinzento e se dilui na turva água do sono agitado da esfinge. Ele volta, na claridade do dia, com vestígios de lama, algas, peixe podre, retalhos de sonhos, palavras em decomposição e um olho pulsante. As palavras, reconheço, são as minhas. Penduro os outros vestígios no varal e deixo ao sol, junto ao jacaré.
Íntegra do texto em anexo para download.
"A chama da verdade ficou suspensa como a surpresa de um dia estranho em que perdi mais do que a inocência da fé." Nem sei o que dizer de tudo que acabei de ler. Fiquei extasiada.
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 30/6/2007 07:27
Cida: Prosa com tempero de realidade que aflora neste tempos de hoje. Parabéns. Perfeito, amiga. Tá votado.
Ah! Estou com TEMA DE ÂNGELUS em Edição no Banco de Cultura. Se puder, lei-ao. Depois aguardo o voto. O lik é:
http://www.overmundo.com.br/banco/tema-de-angelus-1
Abçs. Benny.
Cida, tenho lido esses seus escritos sobre a "esfinge" .
Ora me perco, ora me encontro neles, mas sempre me encanto com a riqueza das imagens e sentimentos.
beijos
Cida.
Fico feliz de ter votado no teu belo escrito, fazendo com que fique eternalizado no site do banco. Imagens perfeitas com o perfume de verdades.
Abraços
Noélio Mello
Belíssimo texto,Cida,e a frase que a Tacilda Aquino cita ao alto,
é um primor.
Parabéns!!!
Que texto lindo poético, maravilhoso amiga Cida. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
Fico cada vez mais intrigada com esses diálogos, esse duelo com o mistério da esfinge.
Bjo.
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