A Espera
“Por fim olhou o rosto muito murcho e
franzido entre as dobras da mortalha, o bigode amarelado, as pálpebras
finas como papel. Aquilo não era sono. Aquilo
não era sono”.
Todos os belos cavalos, Cormac McCarth
O dia amanhece mas a pouca claridade de fora quase não denuncia a aurora. O céu está fechado de nuvens escuras e a água cai abundantemente. Eliezer Dourado espicha o olhar para a pequena janela com vidro quebrado, muito alta, quase uma clarabóia, que deixa a claridade exterior filtrar à míngua para dentro do pequeno quarto do pardieiro onde mora. Agora ele está exausto, não dormiu nada nas últimas vinte e quatro horas e mantém os olhos abertos a custo embora as pálpebras teimem em querer ser um véu sobre eles. Os últimos acontecimentos foram os mais fortes e imprevisíveis de sua jovem existência. Jamais enfrentou situação igual, e pela falta de exemplo não sabe como se comportar. Fogem-lhe as forças conforme o tempo avança, não tem vontade de mover um único dedo, apenas repete a cada minuto o sestro de mover os olhos na direção da pequena janela, quem sabe, à espera de uma inesperada solução. A chuva, indiferente ao seu drama, continua forte e não dá qualquer sinal de que vai cessar.
Eliezer recosta a cabeça no velho penego que sua mãe utilizava para descansar a cabeça na enxerga do quarto miserável após a lida diária e lamenta que os vizinhos não apareceram. Em tal circunstância crítica são sempre solidários para mitigar a dor, oferecem conforto e palavras pias, e todos vêm. A solidariedade entre aquela gente pobre, perdida nos confins de um vale umente e triste — recorda Eliezer — , é a única coisa que os mantêm ali. “Com certeza a chuva impediu-os de aparecerem, bastaria um simples pedido de ajuda e todos estariam aqui”, conjetura Eliezer. Ele tem certeza que de modo algum deixariam de prestar socorro a um necessitado. Por muito menos acudiram o Joca Bento quando o filho dele se desconjuntou de um tombo durante a doma de um potro. O Joca é viúvo, e, Eliezer recorda mais uma vez ao tempo em que as lágrimas são sugadas pelo algodão macio da camisa, sua mãe Isaura preparava todos os dias com desvelo a canja de galinha que era o alimento do convalescente. “O problema agora é essa maldita água que não pára”, esconjura injustamente o jovem Dourado, sem considerar as tantas vezes que sua mãe implorou chuva para amanhar a terra para o plantio quando ela se mostrava recalcitrante em interromper o estio. É verdade sim que tanta chuva nas últimas vinte e quatro horas torna ínvios os caminhos do vale, transformados em lamaçais que escondem armadilhas perigosas. Até o tranqüilo regato que corta o vale ao meio vira um rio largo, revolto e impiedoso, levando de roldão as fracas construções, plantações e as criações que não são retiradas a tempo das margens violentamente invadidas. Tudo isso é impedimento para a gente solidária do vale estar com Eliezer neste momento.
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jjLeandro, seu conto "A espera" é belo, lendo-o sinto como se estivesse vivendo-o literalmente! Talvez eu esteja nesse momento sendo Eliezer!
Um abraço, companheiro! Se assim puder ousar!
Marluce freire Nascasbez
Esse também está excelente!
Parabéns.
Abraços, cá de Minas.
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