A Essência da Felicidade

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Claudio Miklos · Rio de Janeiro, RJ
9/8/2008 · 62 · 2
 

A Essência da Felicidade
:: Reflexões sobre a Imaterialidade do Mundo ::

Tam Huyen Van - Julho, 2008


Este é um ensaio sobre sucessos insondáveis e fracassos relativos. Pois para falar e refletir sobre a felicidade no mundo, para realmente lograr atingir o limiar mais básico desta experiência vital para todos os seres, devo levantar o delicado véu das ambições egóicas, o apego intenso do Eu aos sucessos e vitórias artificiais e relativos, seu pasmo e incredulidade diante dos inevitáveis momentos de perdas e derrotas recorrentes. Mas meu esforço não visa apresentar-lhes rebuscadas respostas prontas, fundamentadas em fórmulas de auto-ajuda (esta mais recente ilusão criada para justificar a louca tentativa do Homem moderno em descobrir um meio de usufruir suas realidades impossíveis), todas focadas no mais ingênuo dos anseios egoístas: a realização pessoal.

Não, a minha reflexão sobre a felicidade (a felicidade como fruto de uma clara experiência de vida) não têm nada a ver com grandes (ou pequenos) segredos, não subjaz fórmulas herméticas forjadas em lugares-comuns, em conceitos mais do que conhecidos travestidos de novas revelações. Este ensaio, ao contrário, reflete sobre a insustentabilidade das metas egoístas - e conseqüentemente, será também um ensaio sobre a imaterialidade do mundo; será, enfim, um ensaio sobre a maturidade da mente antes de ser um manual didático sobre uma felicidade artificialmente fabricada pelas ambições individuais.

Pois o mundo nos apresenta em todo momento duas faces: aquela mais fácil de ser vista, concreta e material, e ao mesmo tempo fantasiosa e idealista, que não passa de uma interpretação individual de nossos anseios e desejos; e uma outra, insubstancial e sutilíssima, que todos os dias escapa de nossa percepção mais profunda, mas que será sempre a mais valiosa das realizações possíveis do Ser. Esta última faceta será sempre mais presente e plena do que nossos mais acalentados sonhos pessoais poderiam sustentar. E, no entanto, a concretude do mundo é tão mais intensa, tão mais presente aos nossos sentidos, que imaginamos não haver uma meta maior do que ansiar pela felicidade adquirida, aquela idéia de felicidade somente atingida a partir da conquista e superação de todo e qualquer tipo de fracasso: o Eu não admite ser excluído das vitórias cotidianas e imediatas.

E assim, todos nós nos esforçamos para atingir o sucesso pessoal. O paradigma humano da felicidade está forçosamente associado ao sentimento de prazer que a vitória, o ganho, a conquista daquilo que poucos podem obter pode nos dar. Mesmo quando tentamos focar nossa mente em conceitos espirituais, ou vivências psico-emocionais, lá encontramos novamente a renitente concepção de conquista (vitória da alma sobre o corpo, da aparência física idealizada sobre a passagem inevitável do tempo, ou a vitória da mente sobre a matéria). Para a mente comum, a vida se traduz na conquista daquilo que queremos ser, e não daquilo que precisamos ser - pois, surpreendentemente, não sabemos reconhecer nossas necessidades fundamentais (as nossas metanecessidades), mas apenas as pequenas necessidades de nossos desejos e ambições. Sobrevivência, disputa, usufruto das vitórias; eis o trinômio da existência, segundo a visão das mentes cotidianas. Este encadeamento de conflitos e embates é também aquilo que as nossas mentes ansiosas mais conseguem perceber na natureza. Todas as coisas estão empenhadas em uma luta diária em direção ao topo, onde apenas subsistem os mais fortes e capazes.

Diante do fato concreto da luta dos seres pela sobrevivência, em quê outro parâmetro poderíamos nos basear para a realização da felicidade, senão esse de torna-la uma meta de vitória sobre todo o sofrimento? Toda a história humana, em todos os tempos, tem se sustentado nesta lógica. Quando eu contemplo as nuances comuns e concretas da vida, posso reconhecer claramente como é fácil sustentar a idéia de que o caminho para a nossa realização é pavimentado por cada pequeno pedaço de auto-indulgência obtido pelos nossos egos, em meio às eternas batalhas humanas. E ainda assim, até mesmo esta felicidade auto-indulgente escapa-nos todos os dias. Às vezes imaginamos tê-la finalmente atingido, quando vivemos momentos alegres e excitantes, obtemos promoções ou títulos profissionais, nos sentimos eternamente jovens ou bonitos, compramos novos bens, olhamo-nos no espelho e quase podemos enxergar em nossos olhos o brilho de uma vida de realizações justificada por todos os nossos anseios. Mas logo depois sobrevêm uma onda de insatisfação fomentada por aspectos não conformes às nossas expectativas e desejos, que retira de nós aqueles doces sentimentos fugazes de contentamento e prazer, deixando-nos mais uma vez famintos pelo gozo das paixões e alegrias - sentimos um vazio na alma, como uma antecipação do fim. E então, como em uma reação desesperada, projetamos mais uma vez a felicidade em nosso futuro, e recomeçamos nossa luta cotidiana pelas metas mais acalentadas em nossos sonhos. A felicidade está sempre à nossa frente no tempo, em um futuro cuidadosamente planejado e montado, mas que parece não chegar nunca...

Há algum tempo atrás, assisti a uma seqüência de declarações feitas em uma entrevista na televisão, onde pessoas em um evento social eram perguntadas sobre qual era a sua idéia de felicidade ou de liberdade. Todas respondiam a mesma coisa, ainda que usando palavras diversas: para elas, a felicidade significava fazer o que elas queriam, ou ser o que elas desejavam, e não dar satisfação a mais ninguém. Quão fantasticamente sintomático era aquele registro: os egos sempre estão imaginando se defender de tudo o que imaginam contrapor-se aos seus mais acalentados anseios, e às suas mais delusórias auto-imagens. Eis como se resume a definição da felicidade: para muitos, ser feliz significa impor ao mundo de forma quase petulante e infantil quem imaginamos ser, e obter deste mesmo mundo tudo o que consideramos justo e adequado para este "eu" idealizado. Este é um quadro bastante incômodo, quase constrangedor. Nem todos gostam muito de ver exposta com clara fragilidade a lógica artificial de seus desejos.

Estranhamente, falar da essência da felicidade é tão difícil e delicado quanto falar da morte, da finitude. Ambos os temas são, de certa maneira, fortemente mobilizadores de nossas opiniões, e causam-nos uma ansiosa cautela: tememos perceber de uma vez por todas a ilusão do mundo, e a inutilidade de nossas concepções de eternalismo ou sucesso. Do mesmo modo que a morte, preferimos manter a felicidade como um conceito íntimo, acalentado e alimentado em nosso âmago individual, evitando compartilha-lo com os outros (é como um desejo feito à estrela cadente, que não pode ser verbalizado sob o risco de desvanecer como uma bolha de sabão ao simples toque da realidade). Preferimos compartilhar apenas aquela idéia de felicidade geral, o lugar-comum de sonho feliz, sem contudo revelar a profundidade de nossas ambições.

Mas, de fato, a proposição contemplativa buddhista (esta prática de reflexão, compreensão, transformação e cura de nós mesmos em nós mesmos) não pretende destruir anseios e demolir ambições. A visão contemplativa sequer irá se preocupar em condenar prazeres e desmerecer o gozo dos sentidos. O que se faz na reflexão de Plena Consciência é tão-somente exercitar nossa percepção para que ela aprenda a interpretar o mundo sem qualquer artifício de auto-ilusão; ver as coisas como elas são, valoriza-las em seus limites e dentro de suas possibilidades. E assim, não há sentido em julgar moralmente os sonhos de conquista, as ilusões de poder, os anseios de beleza e sedução. Mais importante é revelar a possibilidade de enxergar o mundo através de sua aparente materialidade, e perceber, além disso, um universo claro e amadurecido, onde não há mais margem para a auto-indulgência. Neste momento, toda a artificialidade de nossas construções ambiciosas ruirá, não por uma suposta imoralidade inerente a estas, mas por sua própria condição inútil ao exercício verdadeiro de consciência profunda, e de felicidade plena.

Assim, existe uma outra forma de perceber a vida, é possível enxergar nossas próprias ações a partir de uma compreensão distinta do arraigado instinto de disputa, gozo e territorialismo característicos do processo egoísta - podemos abandonar completamente a concepção de vitórias e derrotas sobre a qual construímos toda a estrutura de felicidade imaginada pelos nossos Eus, estrutura essa tão frágil quanto a própria substancialidade do mundo. Não há uma felicidade específica passível de ser conquistada por cada ego, pois se isso fosse possível não haveria mundo suficiente para todos nós. O Eu quer sempre tudo, mesmo que não consiga perceber sua própria sede de realização desenfreada. E o Eu anseia por tudo porque, para ele, não há mundo possível além daquele que ele mesmo idealiza existir.

O Eu quer tudo no mundo porque, para o Eu, o mundo é ele mesmo. Eis uma verdade difícil de ser aceita, mas impossível de ser refutada. Somos aquilo que imaginamos ser, e vivemos uma realidade que nós mesmos interpretamos e idealizamos. Sair desta rede de enganos é o início do caminho para a felicidade. Mas sair desta sintomática cadeia de interpretações relativas exige um esforço em buscar uma outra forma de ser feliz, não aquela onde impomos nossos egos à existência material, mas aquela onde deixamos livres nossos corações e mentes para a existência direta e presente, sem conflitos, sem vitórias, sem derrotas, sem ganhos ou perdas.

Você pode conceber este tipo de balanceamento, este equilíbrio essencial entre o Eu e a Vida? Veja, a felicidade é um estado simples de repouso mental, revivido todo tempo. Aprendi com meus próprios esforços que a busca pela felicidade é uma falácia, um artifício perigoso criado pela fome de sensações que o Eu ignorante, impreciso, sente a cada segundo de sua existência. Porque a felicidade verdadeiramente não se encontra no concreto consumo de metas pessoais, amorosas, profissionais e nem mesmo nos belos e abstratos sentimentos de alegria, amor, fraternidade e harmonia; a felicidade subjaz a isso tudo, e manifesta-se simplesmente em uma mente livre de quaisquer conflitos íntimos. Notem bem, eu não afirmo que os conflitos cotidianos, nossos desafios de sobrevivência, nossas limitações e aprendizagens sociais, intelectuais, afetivas não aconteçam ou sejam inexistentes; o que eu reafirmo é que tais conflitos apenas existem sob o prisma relativo e superficial da existência e não fundamentam a essência de nosso ser: eles podem ser vividos sem absolutamente nenhum tipo de enfrentamento interno, sem angústias, sem desespero, sem egoísmo. E mais do que isso, afirmo que a felicidade essencial não significa derrotar estes conflitos, mas compreende-los em sua real condição e desta forma destituí-los de qualquer tipo de substancialidade e importância vital.

É estranho perceber que as nossas mais medíocres vaidades e fantasias, ou mesmo nossos mais virtuosos sentimentos de força e coragem, não podem ser imputados como responsáveis pela nossa maior ou menor felicidade: entendam, a felicidade é uma experiência de reintegração, um resgate de uma paz essencial. Como experiência fundamental de uma consciência pacífica, a felicidade não é uma idéia moral, e nem um prêmio virtuoso. Ela é simplesmente uma porta aberta para o largo espaço da consciência plena e integrada entre o sujeito e o objeto, um estado de repouso onde a nossa alma deixa de imaginar-se individual e separada do mundo, e finalmente descansa de seu esforço impossível de se provar eterna...

É dito na tradição Zen que, se à questão "você é feliz?", um indivíduo responde "sim" ou "não", ele estará longe de qualquer relação com a Felicidade Plena, e preso às fortes correntes da ignorância. Pois, para aquele que atingiu a paz essencial, não há como responder a esta questão. Irônica proposição esta, onde a felicidade permanece imaterial até mesmo para a sua própria idéia. Mas quão sábia é aquela conclusão: apesar do mundo, a despeito de meus fracassos, além de meus sucessos, a condição de felicidade permanece inalterável, universal, integrada a tudo sem distinção. E apenas quando a mente é capaz de parar, de superar o vício de ver o mundo sob os ditames da luta intestina pela sobrevivência e prevalência de suas ambições e cobiça, quando ela aprende a enxergar o maravilhoso espetáculo da existência com uma liberdade perceptiva profunda, ela finalmente alcançará o limiar da felicidade.

E, neste limiar, encontramos apenas o movimento da existência fluindo calmo e inexorável, sem nenhuma espécie de supremacia de egos, sem nenhum tipo de segurança material, sem nenhuma forma de paixão e glória dos sentidos. Dar o passo final para realizar a essência da felicidade é dar o passo para a vivência do ser feliz, sem nenhuma racionalização sobre isso. Eis porque o sábio, segundo o Zen, desconhece a questão sobre a felicidade, e é incapaz de responde-la.

Quando nossa mente for capaz de atingir o ponto essencial entre o contentamento de simplesmente estar aqui e agora e o profundo alívio de saber lidar com os problemas do mundo sem nenhuma resistência ou ansiedade, saberemos que chegamos em casa. E, atingindo este bem maior de sentir-se confortavelmente aninhado na unicidade das coisas, no fluxo suave da plenitude da vida, estaremos prontos para vivenciar o mundo - e definir a nós mesmos - sem um único desejo de conquista, sem um único resquício de terror aos fracassos. Neste momento, estaremos em paz.

E a felicidade será apenas como a brisa gostosa tocando meu rosto, ao fim da tarde.

O quê mais poderia ser?

Sobre a obra

Ensaios de filosofia humanista, orientalismo e budismo.

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Tam Huyen Van (Claudio Miklos)
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celina vasques
 

Meus votos e meu carinho!

belissimo texto! Li com prazer!

beijos no coração

celina vasques · Manaus, AM 9/8/2008 09:48
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito bom seu texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 9/8/2008 16:29
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