A estética da aula

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Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO
11/7/2012 · 1 · 0
 

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A estética da aula

Rosimeire Soares

Havia expectativa para aquela aula. A coordenação do Mestrado em Letras da PUC-Goiás a anunciou e esperávamos pelo grande momento. Sentíamos como se tivéssemos sido convidados para a melhor festa. E fomos. A festa realmente era a melhor. A mais pomposa. Com mesa farta para olhos famintos.
Finalmente ele chegou.
Gilberto Mendonça Teles conduziria a festa. Eles surgiu tão sorrateiro, tão vivaz, tão glamuroso no máximo de humildade crescente e confirmou o que nós já desconfiávamos: o mundo e “Dru-mmundo” são maiores do que se pensa. Mundo, vasto mundo...
Entre Homero e a Semana da Arte Moderna há um universo de conhecimento literário, todavia ele, o GMT, o detém; pode até brincar com as ciências, ele tem autoridade. Ele faz arte enquanto fala de arte. Pois foi ele mesmo quem disse naquele momento tão ímpar “poesia é uma síntese daquilo que não é fugaz”.
Em meio a tantas histórias, ensinamentos, reflexões, filologias e poesias, tinha uma pedra no meio do caminho a qual saltava aos meus olhos. Obviamente aquele objeto saltitante não era mais importante que o artista, o poeta, mas fazia parte dele. Além da agilidade fina ao se locomover, didática inquestionável, ele se materializou em poesia enquanto trazia a poesia.
Sobre a mesa docente, Gilberto Mendonça Teles o depositou para em seguida se apossar curiosamente daquele objeto que lhe era útil: uma sacola de papel grosso na cor parda. As mãos aveludadas de ritmo, métrica acariciavam aquela que carrega a vida. A bolsa. Seria sua Maria? A sacola... Por que não uma maleta preta espelhada de tanto brilho com três andares e abotoadeira banhada a ouro?
Quanto privilégio fora dado àquela sacola! Seria por causa da origem da palavra? Pelas alças indubitavelmente úteis? Cheguei a figurá-lo como um homem simples do sertão que leva sua tralha, mas sua audível voz serena, tranquila e sábia me trouxe de volta para o esplendor da poética (substantivo). Ele conhece de rios, peixe e piracema, mas é homem das letras. É a poesia viva. Poesia com métrica, ritmo. Poesia que caminha e fala dela mesma. Gilberto é doce metalinguística.
Honrado poeta. Honorífico crítico. E a sacola? Detida por mãos sábias, ela se mantém na simplicidade e não só cumpre sua função. Ela leva sonhos para uns e realização para outros. Ela cristaliza a elegância simples do homem em plena magnitude.
“Na hora da emoção ninguém escreve nada, mas se mantiver a emoção, dará um poema” disse o Gilberto Mendonça Teles das palavras nuas, molhadas de amor, absortas pela volúpia do ser. Em meio ao banquete de conhecimento e deleite, mantive a emoção provocada pela presença daquele objeto dançante sobre a mesa do Gilberto. Era a sacola altiva, resistente, corajosa e eficaz.
Durante a dança, pude notar a destreza da bailarina que ora se esticava na horizontal em contato com o solo, numa rica coreografia, ora se punha de pé com leveza a fim de garantir seu espetáculo. E o GMT permitia àquele objeto tão trivial um momento de glória.
Jamais ousaria infâmia de sugerir que o Don Juan das palavras fosse ofuscado pelo receptáculo, mas a sintonia sublime daquele simples objeto na mão de um grande artista foi a mais bela poesia visitada por meus olhos gotejantes. A festa acabou, o povo sumiu, mas eu ainda desejava beber do melhor vinho.
Obrigada, professor Gilberto!

Sobre a obra

O texto descreve a impressão que Rosimeire Soares teve ao assistir uma do professor, crítico e poeta Gilberto Mendonça Teles. o que chama de "Estética da aula" revela como a aguardada presença verticalmente "sublime" do poeta ganhou uma dimensão diferente e cotidiana quando ela reparou em que ele carregava seus pertences em uma simples sacola de papelão. Neste objeto Rosimeire traduz o seu assombro em ver a distância que ela dava ao ideal da poesia apresentar-se numa simplicidade que transfigura seu olhar.

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Rosimeire Soares
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