A evangélica

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Lizz · São Paulo, SP
15/9/2007 · 44 · 4
 

Ana Lucia era evangélica. Vinha de uma família simples, sem grandes ambições, todos evangélicos. Ia à igreja todos os dias e cresceu ouvindo o pastor falar sobre Jesus e Sua bondade. Acreditava que pregando “A Palavra de Deus†tornaria Sua presença mais viva entre os seres humanos. Ana Lucia acreditava na salvação, no pecado, no céu e no inferno. Foi assim que aprendeu. Aprendeu também a ver o Diabo por toda parte, influenciando as pessoas, instigando-as a fazerem coisas erradas.

Para Ana Lucia, o mal estava dominando o ser humano e logo não restaria mais bondade na face da Terra. Havia maldade por todos os lados: na TV, na música, nos jornais, nas ruas, nas casas. “É o final dos temposâ€, dizia, imitando o tom de voz catastrófico do pastor. Mas ela seria salva. E não adiantava discutir com Ana Lucia: o inferno era o destino daqueles que não acreditavam em Deus, daqueles que não confiavam sua vida a Ele.

Na verdade, Ana Lucia acreditava mais no Diabo do que em Deus, apesar de não ter a mínima consciência disso. Se pudesse, venderia a própria alma ao Diabo só para provar que o dito cujo existia. Depois, é claro, seria salva, como Fausto, que aprontou todas e no final foi levado pelos anjinhos até os céus. Mas, diferente de Fausto, Ana Lucia se arrependeria de tudo.

Um dia, ao sair do trabalho, foi atropelada numas das mais movimentadas avenidas da cidade. Foi um acidente espetacular, digno de filme norte-americano. Ana Lucia quase morreu. O resgate chegou rápido, apesar do trânsito que começava a se formar na região. Foi levada para o pronto-socorro mais próximo.

O saldo: traumatismo craniano, um braço e duas costelas quebradas além de uma porção de hematomas pelo corpo. O grande problema, para desespero da família, é que Ana Lucia entrou em estado de coma.

Durante o tempo que ficou inconsciente, teve visões. Ou sonhos, não soube dizer. O que viu, foi o céu. Era muito mais bonito do que poderia imaginar, colorido, florido, muito iluminado, com anjinhos tocando harpa por todos os lados.

Ana Lucia falou com Deus. Foi Deus quem puxou a conversa, disse simplesmente: “Oiâ€. Assustada, sem saber como reagir numa situação dessas, tentou se lembrar de todas as passagens da Bíblia que havia decorado de tanto ouvir seu pastor recitá-las e de tanto lê-las, ela mesma. Mas não encontrou o que responder.

Então, depois do que pareceu ser um longo silêncio, apesar do som das harpas dos anjos que a cercavam, Deus insistiu: “Eu disse: oiâ€. Sem saída e na falta de algo melhor para dizer, se viu obrigada a retribuir o cumprimento. Com a voz trêmula, gaguejando, finalmente disse: “O-oiâ€.

O que aconteceu depois, não foi capaz de se lembrar, mas tem a sensação de ter conversado durante horas com aquele ser. Voltou à consciência de repente e, logo, a família estava ao redor da cama do hospital, numa grande expectativa. Haviam se passado três semanas desde o acidente. Tinha sido um milagre escapar com vida.

Algumas semanas mais tarde, quando se recuperou e pôde sair do hospital, decidiu deixar a igreja. Tentaram convencê-la de não fazer uma coisa dessas. Justo agora que tinha tido uma prova do poder de Deus, um verdadeiro milagre!

Não teve jeito, estava decidida. Não freqüentaria essa e nenhuma outra igreja. Ninguém entendeu nada. Nem a família de Ana Lucia, muito menos os “irmãos†da igreja. Alguns, mais maldosos, diziam “Coitada, ficou louca quando bateu a cabeça no acidente†ou, pior ainda, “Está possuídaâ€. Mas a explicação era simples: agora que conhecia Deus, Ana Lucia não precisava de nenhuma religião.

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Autoria
Lizz
Ficha técnica
Um conto que escrevi há um tempo...
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Agenor
 

Gostei..., Faz me lembar das palavras de Jesus "O reino de Deus (céu?) está dentro de ti mesmo..
Abraços

Agenor · Aquidauana, MS 14/9/2007 21:39
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Lizz
 

pensei em algo assim quando escrevi...

Lizz · São Paulo, SP 17/9/2007 09:33
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Patricia Moreira
 

Curti também..E olha que não sou muito de ler contos, me prendeu, achei interessante!

Muito mesmo..

Só penso que além do final criativo como fez poderia ter ampliado com uma coisa meio que tipo: - Agora que conhecia Deus, Ana Lucia acreditava que não precisaria de mais nenhuma religião. E a moça saia pelas ruas, toda senhora de si - as vezes conversando sozinha imaginando-se amiga íntima de Deus.

Rssss.... Foi apenas uma viagem! Mas imaginei isso. Forte abraço!!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 17/9/2007 12:33
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victorvapf
 

Li e gostei da estoria, e mesmo! agora ela ta com o prestigio todo, os outros e que tem que pedir sua ajuda agora! A proposito, se voce puder, de uma olhada no meu "Cachimbo Vermelho,ta na votacao...Victorvapf. abrs.

victorvapf · Belo Horizonte, MG 17/9/2007 19:34
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