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A EXPERIÊNCIA DO RIO

1
Circus do Suannes · São Paulo, SP
28/6/2008 · 102 · 19
 

“A verdade é que apenas Deus pode conhecer Deus.”
(Joseph Campbell)

As religiões orientais geralmente não se atrevem a definir Deus, ao contrário do que ocorre com os ocidentais, menos cerimoniosos, menos humildes, mais atrevidos e mais racionais. Falar d’Ele diretamente nem pensar, tudo são imagens, parábolas e coisas assim, como o caso de alguém que perguntasse ao sábio que é a Lua? e tudo o que o sábio fizesse fosse estender seu dedo indicador dele sábio ali diante dos nossos olhos curiosos, que lhe vêem os pelos do sobredito dedo, seu tarso mais o metatarso, a unha e sua eventual sujidade, coberta ou não por providencial esmalte sangüíneo ou de cor outra mais atrevida, mas a Lua mesmo, nada! Que é da Lua, mestre? E o dedo continua a apontar e o sábio diz: vai e vê. E quando nós olhamos adiante do dedo que nos indica o caminho, lá está uma foice sem cabo que se vai esvaindo até ficar o nada lunar no céu de nossa indagação ignorante. Que é da Lua, mestre? Vai e vê. Mas se não vejo nada? Aguarde pacientemente, que ela lhe ressuscitará.
Primeira idéia: crer é ver a Lua que não está lá.
E olha eu agora mirando o rio ali defronte, riacho heraclitano que se atravessa a vau e onde o sol despeja aqueles ouros lá dele e nós sem saber qual a cor do rio nem o sabor do rio a não ser atravessando, com as águas batendo-nos nas magras canelas, meio e modo de conhecer Deus. Quer conhecer Deus? diz-nos o sábio, banhe-se nele. E agora que vadeaste de cá para lá, certamente pensas que conheces o rio. Conheces nada!, que as águas então vadeadas não mais estão ali, senão lá mais embaixo, cem ou duzentos metros, talvez quilômetro, sendo atravessada agora por outras pernas, talvez de nossos netos, que também pensarão que já experimentaram suficientemente Deus, tanto quanto nossos tios e avós que cruzaram o sempre rio lá perto do seu nascedouro tempo faz.
E se vadeares de lá para cá descobrirás que tuas canelas, já enriquecidas e satisfeitas da experiência anterior do rio, talvez não se abram à nova experiência que é experimentar esse novo rio, pois as águas agora são outras, não vê que aquelas antigas já lá estão longe? Sem falar que o rio não são só águas, senão que peixes muitos, dúzias e dúzias, e mais aquelas pedrinhas, mais de centena, talvez milhar, que o passar do rio, no rio e através do rio e a decorrente experiência que elas assim façam vai delas aparando as arestas do egoísmo e da irritação, da indiferença e da impaciência, e lá vão elas se casando umas com as outras, roliças de virtudes e paciência, respeitando o modo de ser uma das outras, na convivência que se supõe decorrer da harmonia grávida de virtudes.
E se pensares que a experiência humana do rio se faz apenas com as canelas, pobre de ti! Repara na apalpação das pedrinhas que teus pés fazem quando vais e quando vens. Sentes cada pedra? Sabes o tamanho de cada uma? Sua cor? Sua forma? Sabes nada! Saberás acaso quais as pedras que pisaste quando foste e quais as que estás a pisar agora que retornas na nova experiência do rio? Certamente não. E não é só com a sola dos pés e as canelas anuecidas que se experimenta o rio, senão que também com a bunda, atente para isso. Quem te garante que teus pés não escorregarão nessas idas e vindas e quando vês estás lá estatelado no meio daquele corguinho que é o rio mas não é todo o rio? E tuas nádegas lanhadas te ensinarão coisas do rio que nem o frescor da água na canela, nem o confundir-se ele com a cor da poeira dourada que o sol lhe derrama, nem o cheiro bom da água não lhe haviam ainda proporcionado a você.
E aquilo ali é rio mas não é todo o rio. É rio porque ali há água, mas não há toda a água; há peixes, mas não há todos os peixes; há pedregulhos, mas não são todos os possíveis pedregulhos que ali estão naquele trecho que tuas canelas e teu corpo todo experimentaram na vadeagem e na revadeagem, nas idas e vindas a vau que é tua pálida experiência do rio.
E como juntar todos os peixes, e toda a água, e todos os pedregulhos para que saibas como é efetivamente o rio? Como ver ao mesmo tempo o nascimento do rio, seu caminhar por leitos planos e pedregosos, ora calmos ora cascateiros, límpidas aqui sujas ali suas águas, sua espuma e sua planície, e o seu findar, quando se finda? Quanto mais subas ao espaço para buscar essa visão de pássaro, mais longe estarás do rio e tudo o que verás será sempre um pálida imagem do rio em sua inteireza. Uma fotografia, sem vida nem cheiro, quase uma caricatura. E haverá quem diga que aquilo é um rio! Que inocência!
Pensa em tuas pernas jovens e fortes a pisar firme o chão daquele solo líquido que tua experiência agora perfura, tal como já fizeste um dia outrora. Será o pisar de hoje tão forte como o foi o de ontem? Será a correnteza de hoje menos calma do que era a de ontem? E como ficarás quando o titubeio da incerteza te atrasar os passos, por não teres reparado que as pernas já não são as mesmas, e, de fato, não no são, nem as águas já não são as mesmas, como de fato também não são? És o mesmo mas não és mais o mesmo; mesmas são as águas mas as mesmas águas já não são as mesmas; repete-se a mesma experiência que já não é a mesma experiência. Tudo tão velho e conhecido, mas, também, tão novo e desconhecido ainda.
Segunda idéia: a experiência de Deus é a travessia diária, sem saber se o atrevimento do afoito ou a fragilidade das pernas não fará daquela a derradeira travessia, a travessia que não se completará. E tropeçarás, como todos um dia tropeçamos; e cairás e serás envolvido pelas águas; e talvez te levantes e retomes a caminhada, para concluir mais esta travessia.
Ou talvez não seja mais o caso de te levantares. E como os peixes e os pedregulhos, te confundirás com as águas, que te levarão e farão do destino delas o teu destino.
E o rio que agora caminha é apenas rio, embora nele estejam os peixes, os pedregulhos e estejas também ali tu, tudo indistinto. E o rio chegará ao seu fim que não será propriamente um fim, mas um despejar-se num rio muito maior, oceânico e eterno.
E agora que chegamos, onde estão os peixes? Quais as pedras que se acamaram? Que é feito do rio? Onde estás tu?

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Renato de Mattos Motta
 

Definir o indefinível, conhecer o incognoscível, parece coisa mais pra poetas do que para filósofos... (portanto tá pra nós, Adauto!)
Eu não definiria Deus como a experiência de um rio, mas talvez como a experiência de nossos próprios corpos... (os antigos alquimistas definiam a relação entre o microprósopo e o macroprósopo)
Imagine que as células do seu corpo fossem capazes de pensamentos individuais. Para sobreviver elas naturalmente cumpririam suas funções no corpo, mas seriam seres individuais, com suas próprias vidas e consciências individuais. Saberiam o que têm de fazer para viver, mas jamais teriam noção do organismo inteiro. mesmo uma célula sangüínea que passa a vida a circular por todo o corpo, jamais conseguiria ter a mais leve noção do organismo e sua posição no mundo externo a esse organismo (se tivesse noção de que este mundo existe). Assim como cada uma dessas células é parte de você, sem ser você, cada um de nós partilha da Natureza de Deus, sem ser Deus. Assim também não temos como ter noção ou conhecer Deus, a não ser por analogias ou por algum tipo de experiência mística.
Muito legal o teu texto. Aliás, qual era mesmo aquele pré-socrático que dizia "Não te banhas duas vezes no mesmo rio"?

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 25/6/2008 13:23
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Circus do Suannes
 

Já leste Jean Charron ("L'Esprit, cet inconnu") ? O tal filósofo era exatamente Heráclito, a que me refiro no texto. Abr.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 25/6/2008 18:09
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clara arruda
 

Mnha vida se projetou nesse rio.Ainda me lembro da minha experiência com algo superior que chamo carinhosamente de Deus.
Não sou boa comentarista meu querido novo amigo.
Sou apenas Clara arruda que conserva apenas sonhos e ilusões.
Voltarei.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2008 21:02
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José Carlos Brandão
 

Olá, Suannes. Você sabe a diferença entre o filósofo e o teólogo? O primeiro é o homem cego num quarto escuro procurando um gato preto. O segundo é o homem cego no quarto escuro procurando um gato preto que não está lá.
Essa historinha foi um teólogo quem me contou. Como sou poeta vou meter o bedelho e continuar. O terceiro é o poeta: o homem cego no quarto escuro procurando um gato preto que não está lá, com uma pedra em cada mão. O filósofo não encontra o que procura, mas sabe que está lá. O teólogo também não encontra o que procura, mas sabe que existe. O poeta, cego como os outros, porque todo homem é cego, não vê o gato preto nem a iluminação das pedras batendo uma contra a outra - mas sabe que produz a iluminação e isto lhe basta.
Não acrescentei nada a seu texto? Então ele vale por si, não precisa de que nenhum abelhudo meta o bedelho. Parabéns.
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 26/6/2008 02:04
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Renato de Mattos Motta
 

O Brandão realmente matou a pau, pelo menos quanto a uma coisa... teu texto não precisa de pitacos. Tanto que o pitacódromo aí de cima está vazio... a gente comenta, mas não dá pra se meter a editar!
mas não resisto a dar um pitaco no comentário do Brandão!
Aquele das pedras pra iluminar é o cientista.! Ela não acredita que exista um gato preto... e se o vir é capaz de jogar as duas pedras nele.
Já o poeta, é aquele que senta no meio da sala e começa a fazer:
rrrrrr rrrrrrr rrrrrrr rrrrrrr rrrrrrr rrrrrrr
daqui a pouco o gatinho vem e se aconchega no colo do poeta.

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 26/6/2008 09:17
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Renato de Mattos Motta
 

faltou explicar que, para o cientista, o importante é conhecer a sala, suas paredes de que estáo constituídas, quais as suas dimensões, se a parede é pintada ou n,ao...

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 26/6/2008 09:21
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Reginaldo Nat Rock
 

Como parar o presente?
O presente é agora, ops... já passou, agora é outro, e outro, e outro.
Afirmo ser uns dos melhores textos que li, tentando decifrar (?) o presente.
Que não se decifra; é, simplesmente.
A cada momento.
Portanto, o presente não existe como algo que se pode pegar ou mesmo destacar de alguma maneira..
Já é passado.
Ou será futuro.

Desta forma, não me ocupo com o gato na sala escura. Eu sei que ele está ali em algum lugar, assim como miríades de outras coisas. Se ele quizer manifestar-se, irei encontrá-lo. Ou não. A opção é sempre minha.

Reginaldo Nat Rock · Santos, SP 26/6/2008 09:47
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Circus do Suannes
 

Quando o Teilhard de Chardin, que era jesuíta, teólogo e antropólogo, tentou conciliar fé e ciência, falando em evolucionismo, foi "convidado" a ir pregar na China. Em francês!

Circus do Suannes · São Paulo, SP 26/6/2008 11:21
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Renato de Mattos Motta
 

Bom, Adauto.
Agora é fazer valer teu texto no voto! O meu ele já tem!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 27/6/2008 00:28
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clara arruda
 

E vão criar nesse espaço comentaristas que possam realmente contribuir com os textos,que para dizer o óbvio vcs procuram tantas palavras.Eita sou eu que não entendo nada rsrs
Um beijo enorme em seu coração.
Uma madrugada sofrida aqui,agora.
meu carinho sempre.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2008 02:55
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Doroni Hilgenberg
 

Interessante seu texto Suanes... Não podemos definir Deus porque não o vemos, mas temos fé e acreditamos que ele existe. Já o rio, sabemos que ele existe, mas não queremos ver e nem valorizamos a sua grandeza. E já que o rio é um ciclo de vida.. Onde estão os peixes? Que é feito do rio? Onde estas tu?

" O Rio é a vida da gente
correndo mansa nas água
alimentando inclemente
lenda mitos e magoas" .
Trecho do poema " A Lenda das Amazonas"

Bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 27/6/2008 11:16
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Doroni Hilgenberg
 

Meus votos com um especial carinho por este texto, em que você louva a vida, que é uma criação de Divina.
Refazendo
" Correndo mansa nas águas"
Qualquer dia posto o poema completo.

Bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 27/6/2008 11:22
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Circus do Suannes
 

Vindo de uma manauara, é elogio pra mais de metro. Paz e bem.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 27/6/2008 16:32
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Sônia Brandão
 

Gostei doseu texto. Você já disse tudo, não preciso dizer nada.
Parabéns e um abraço.

Sônia Brandão · Bauru, SP 27/6/2008 23:06
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Langinha
 

Meu carinhoso voto p/ você, que sabe o que fala e o que escreve...Parabéns....Beijos. Muito orgulho de você.... Langinha (Solange).......

Langinha · São Paulo, SP 28/6/2008 13:34
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Lena Girard
 

Filosófico, mas extremamente didático. Teu jeito de falar da existência de Deus e da nossa é fantástica!! Faz-nos entender exatamente o que somos: NADA, diante da grandiosidade DIVINA. Gostei, menino!! Beijos

Lena Girard · Belém, PA 28/6/2008 18:09
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maria ivette del pozzo
 

adauto,
entre em contato com oscar del pozzo, com urgencia.
odpozzo@uol.com.br ou 11-37222337
Maria ivette del pozzo

maria ivette del pozzo · São Paulo, SP 1/7/2008 07:19
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silviaraujomotta
 

Gostei muito.
UM VOTO CERTO e um beijinho doce, Sílvia.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 3/7/2008 09:33
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maria ivette del pozzo
 

Dr.Adauto,
Muito obrigada por tudo.Gostei mto do seu texto.
Maria Ivette Del Pozzo

maria ivette del pozzo · São Paulo, SP 24/7/2008 17:21
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