A extraordinária vida de Clorofila - conto

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arlindo fernandez · Campo Grande, MS
18/11/2006 · 108 · 6
 

A extraordinária vida de Clorofila

Capela, Rigel, Castor, Polux, Acrux, Al Nair, Alcor, Arcturus, Mira Canopus e... Olha, é o Cruzeiro do Sul! Veja aquela parte negra, perto da Cruxis, é uma nebulosa escura chamada “Saco de Carvão”...
Assim eram todas as noites na vida de Clorofila. Contar estrelas deitada sobre a grama e tecer histórias para ela mesma. Também colecionava céu e paixão por sinfonias em adágio. Era uma menina de olhos amendoados, feito olhos de bugre, pernas longas, grossas e trocou os vestidos desgastados por calças curtas de menino. Tinha aparência misteriosa e erudita - apesar da pouca idade - fazia confidências sexuais com árvores e, devido o gosto por música, aprendeu a tocar tuba.
O lugar onde Clorofila morava com os avós era repleto de seres anônimos, exceto o rio, que ficava no fundo da lavoura de melões, onde ela se banhava nua. Seu avô, cujo nome de batismo era Butrus, quis ser chamado Pedro depois que chegou da Arábia. Era um homem altruísta, que adotou a paisagem do lugar e sempre dizia: “O plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória. Por isso, tenha cuidado com o que planta!”. Usava barrete e um poncho de sarja para se proteger do sol. Seu longo cabelo e a barba esvoaçante tinham uma tonalidade vermelha, intensa e terrível. Eram de uma incrível profusão.
Ele voltava da lavoura quando o horizonte amolecia e também tocava tuba. Ancha, avó de Clorofila, tinha as afeições de índio. Nascera do outro lado do rio - numa aldeia de Chiquitanos. Mesmo não sabendo ler nem escrever musica, fazia maravilhas com mandioca, milho e batata doce. Autodidata em flauta de bambu e com muita habilidade no tear da sarja, fazia calcinhas com sacos de açúcar alvejados - assim Clorofila ficou doce na infância.
Ancha era uma mulher inexplorada, cujo olhar sabia mais que ela própria. E assim, isolados do abandono, eles faziam da vida tudo em alegro e andante. A cozinha ampla, com utensílios domésticos, muitos quadros de natureza morta e alguns metais de orquestra como trombone e bombardino trazidos da terra natal do avô. Sobre a mesa, queijo e sopa de cebolas.
Era verão e Pedro disse para as mulheres que, naquela noite, os três teriam que virar os melões na roça. Clorofila pegou sua tuba e perguntou para o avô o que eles iriam tocar. “Opus 364”, disse o avô. “Vou com o bombardino e Ancha faz a flauta de bambu. Também leve a trompa porque você poderá ensinar algumas notas para o novo espantalho da plantação”. Noite adentro, se ouvia “Donde florecen los limones” com uma trompa desentoada – enquanto viravam melões.
Foi também nesta noite, e com esta valsa, que Clorofila descobriu o amor. Era um espantalho sem muitos atrativos, exceto pela cabeça, que poderia ser trocada de acordo com as plantações - ora abóbora, melancias ou melões. Só a menina e os vaga-lumes compreendiam sua fala, mas ele tinha o conhecimento nato das leis naturais. Clorofila e o espantalho se amaram em noites de lua cheia com melancias, noites escuras de melões ou abóboras, mas sempre iluminados pelo luar verde dos vaga-lumes.
Assim foi por algum tempo. Ela o ensinou a ler música e, numa noite sem vaga-lumes, a menina tirou a calcinha feita de saco de açúcar para o espantalho. Neste ato nasceu o compromisso de ficarem juntos até o fim.
Clorofila compôs uma sinfonia baseada em sua coleção de céu e iniciou uma plantação de lambaris de rabos azuis, que consistia em deixar a natureza fazer tudo. Bastou ela espalhar um boato que, lambaris com qualquer vestígio de azul em seu rabo, que fosse pescado ou capturado, teria que ser devolvido, pois era venenoso.

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A.Fernandez - contos
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A.fernandez - texto - conto
"Donde florecen los limones - valsa de Johann Strauss opus 364
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Rangel Castilho
 

m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o!!!!
Lindas imagens........

Rangel Castilho · Anastácio, MS 16/11/2006 20:48
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Rangel Castilho
 

Salve, Arlindo de Belas Imagens!!!!!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 16/11/2006 20:49
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
arlindo fernandez
 

Bom dia!
Salve poeta dos pantanais!!!!!
Estes contos foram escritos especialmente para o Overmundo.Tento fazer o mais curto possivel... As vezes excede, como este - precisava ser deste tamanho.
Um grande abraço

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 17/11/2006 09:30
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Nivaldo Lemos
 

Arlindo,
resta-me parodiar Bandeira, o poeta do Mangue: 'ora, direis, contar estrelas' (ainda mais deitada sobre a grama, tecendo histórias pa si mesma)! Clorofila é do naipe do Corvo, só que mais manoelino, pantaneiro, cheio de imagens úmidas, dessa atmosfera alagada propícia a nascimentos. Todavia, por detalhe que não sei explicar, fico ainda com o Corvo. Por um fiapo, uma nesga, um átimo, ele me emocionou mais, ganhou a preferência. Não que Clorofila não seja tão bom quanto. É coisa minha mesmo. Por fim, uma observação: talvez o final devesse ser "Todo mundo sabe disso." E ponto. Sem arremate, assim mesmo, aberto à imaginação, como sinfonia de frutos e imagens, para se ler e ouvir. Parabéns, novamente. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2007 17:19
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arlindo fernandez
 

Bravo!
Vou retirar aquelas "tres" linhas do final. (tb. acho que não deve terminar com conselhos filosoficos).Preciso desse alerta em outros.
Vc se habilita? (risos).
Abraços

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 12/2/2007 17:55
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arlindo fernandez
 

quando sobrar um tiquinho de tempo
gostaria que visse \http://www.overmundo.com.br/banco/o-homem-da-lua-conto

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 12/2/2007 17:57
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