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A falta de seriedade da pós-modernidade

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João de Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
9/3/2011 · 5 · 1
 

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A modernidade foi marcada pela crença de que podíamos entender as coisas, e, entendendo-as, agir com sabedoria para resolver os problemas do mundo. Esta foi a visão predominante desses últimos séculos. Com a chegada do século XX, no entanto, esta visão foi rejeitada, e em seu lugar surgiram correntes de pensamento que acreditavam não ser possível conhecer as coisas; tudo o que tínhamos eram modelos e ideologias criados por culturas ou classes sociais de determinadas épocas, e nada diziam respeito às coisas como elas realmente são.

Tal argumento, no entanto, leva ao paradoxo da auto-referência. Se o pensamento pós-moderno afirma que aquilo que consideramos verdades são apenas modelos criados por determinadas época da história, ele tem que aplicar sua afirmação ao que está dizendo, isto é, sua premissa é apenas um modelo criado por sua época, e nada diz respeito à verdade. O problema é que ele pretende aplicá-la universalmente, e considerá-la válida em todas as épocas; ou seja, ele acredita que ela é de fato uma verdade. Mas, se assim for, então verdades realmente existem, portanto, sua afirmação está comprometida. Para o pós-modernista, verdades não existem, com uma única exceção: aquela que ele está afirmando.

Além deste argumento levar a um paradoxo semelhante àquele no qual um cretense diz que todos os cretenses só dizem mentiras, a crença de que não se pode obter conhecimento verdadeiro é extremamente danosa. Quando o pensamento despertou, na Grécia clássica, este empreendimento consistia em conhecer as coisas, pois as explicações míticas, perceberam os pensadores, eram muito ingênuas. Para se conhecer a realidade seria necessária uma abordagem mais elementar; mais racional.

É isso que consiste o pensamento: a busca pela verdade. Afinal, que outro objetivo poderia ele ter? Se, ao fazer reflexões, o pensador não está buscando a verdade, ele está buscando o que? Se ele acha que suas construções teóricas são modelos criados por sua época e sua ideologia, e nada mais que isto, ele não acredita realmente naquilo que está fazendo. O que ele está fazendo, então? Ele está brincando?

Uma vez estava conversando com um diretor de teatro, e o assunto acabou chegando em extraterrestres e OVNIs, algo que ele dizia acreditar. Eu disse que se fosse acreditar que existem civilizações de outros planetas voando pelos céus da Terra e interagindo com humanos, isso implicaria em uma completa reestruturação de minha visão de mundo, da posição do homem diante da existência, de toda a minha concepção política. Em suma, seria de longe a maior experiência da minha vida (assim como de toda a humanidade), e antes de passar por ela eu teria de obter provas muito seguras de que esses extraterrestres realmente estão aqui; algo que até agora nunca foi demonstrado. Os filmes e as fotos são sempre mal feitos, e os episódios mais significativos que muitos afirmam ter vivenciado são sempre em locais remotos, não em grandes cidades, e nunca registrados por câmeras. A resposta do diretor de teatro foi: “Mas você também não precisa acreditar!” (grifos dele). Afinal, ele acreditava ou não? Ele dizia acreditar, mas não estava disposto a levar sua crença seriamente, às últimas conseqüências.

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Sobre a obra

O presente ensaio argumenta que a falta de compromisso com a verdade fez com que os pensadores pós-modernos se tornarem pouco rigorosos e levianos em suas elaborações filosóficas.

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informações

Autoria
João de Carvalho
Ficha técnica
Ensaio inicialmente publicado em www.ponto-omega.com.
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João de Carvalho
 

Para mais críticas ao pensamento pós-moderno, ver o ensaio A crise do pensamento contemporâneo.

É interessante também dar uma olhada no The Postmodernism Generator. Este é um gerador de textos pós-modernistas que não querem dizer absolutamente nada, mas se parecem com um verdadeiro texto desta vertente de pensamento.

João de Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 9/3/2011 19:37
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