Desejamos ardentemente a felicidade, mas no nosso desatinado egoísmo não queremos seus pedaços. Suas fatias. A queremos plena. Cheia como a lua. Ansiamos triunfar sobre todas as dores. podar as incertezas do amanhã. Lutamos por ela a cada vento que passa. A cada sol que nasce e se põe. Mas como a teremos na sua plenitude? Se não somos santos. Se pecamos nas ruas quando negamos uma moeda para crianças doentes, para corações indigentes, enganados pela vida, andando no tempo do Deus dará. Como querer a felicidade pura, se não temos a visão da santidade nos vãos da nossa alma?
Como sonhar com a plenitude de uma vida completa, feliz, sem ventos contrários, sem marés vazantes se negamos o amor, se não sabemos ser a piedade, a compaixão pública para tantas almas suplicantes. Para bocas famintas. Para corpos doloridos, descoloridos de vida, de sonhos, cujos abrigos são as pedras nuas das ruas? Como poderemos ser a felicidade se apenas somos frágeis escudos contra as entranhas das noites frias desprezando esperanças?
Como posso querer ser a felicidade, se não sou o sonho de tantos pedintes. Como quero exigir de Deus que me inunde de coisas felizes, se nego ao próximo o estender da minha mão, se não sou a intensidade e a extensão da bondade?
Como posso ter a alma alva, leve, pura, suave, se não olho para o lado. Se não me fazem chorar as chagas abertas desses pobres heróis das ruas, de nuas costas, de peito descobertos, pés descalços mendigando o que me sobra nos bolsos e que escondo na covardia dos meus medos.
Como ansiar pela eternidade, se são finitas minhas indiferenças com a miséria que retalha o corpo e alma desses viventes, pobres sobreviventes, de uma vida que os sabotou? Quero ser santo para ser a felicidade plena, mas nego ser o amor que não limita fronteira. Quero ter a felicidade dos santos, mas sou pés plantados rés ao chão onde habita a miséria dos esquecidos, dos que foram enganados pelos seus destinos impiedosos, frios, insensíveis, duros, covardes.
Oro aos céus buscando a eternidade, mas sou a mentira para tantos corações angustiados, desamparados, sofridos, retalhados pelo desprezo do mundo. Quero a vida plena de alegrias, mas digo não às tristezas dos abandonados. Nego a esperança para quem só tem a esperança como alimento. Anseio uma felicidade em profusão, mas sou a farsa que finge que não enxerga a pobreza estampada em faces vincadas pelas indiferenças do tempo
Quero ser lábios sorridentes, mas pouco sofro com o pranto que jorra de olhos servos de miragens, de pesadelos, pintados com a cor rubra do desespero. Quero ter ouvidos que escutam sinais vindos dos céus, mas meus ouvidos são cimentos fechados ao alarido de vozes que sobrevivem desgraçadamente sob as noites sem estrelas.
Quero - que sonho desatinado- sonhar com a santidade, mas ando na contra-mão do amor, da bondade, do espalhar da felicidade pelo chão de brasas onde pés desnudos queimam ao arder do meio do dia. Quero ser o amor eterno, mas sou o egoísmo infinito que foge dos braços frágeis que se estendem pedindo abrigo.
Quero - que gigantesca audácia - ser a voz do milagre, mas não dirijo uma palavra pequena que seja para tantos ouvidos que precisam ouvir, muitas vezes, somente uma palavra de coragem, um sinal que diga que pela manhã a vida poderá renascer junto com o parto da alvorada trazendo o perfume de uma esperança, a essência dos ventos divinos, um sinal celeste dos céus.
Desejo a felicidade, mas como a terei se meus olhos são apenas prantos regando terras caídas, se sou o avesso dos santos, se não sou um feitiçeiro da vida.
Oi, Noélio,
realmente somos uns egoístas, quando é bem mais fácil ser feliz fazendo o outro feliz!
Como sempre, tocando a minha alma com ótimas reflexões e textos.
Abçs de Betha.
Crônica Poética do tamanho de sua Alma, Noelio.
Belíssima!
Abraços, parceiro.
Benny.
"Desejo a felicidade, mas como a terei se meus olhos são apenas prantos regando terras caídas, se sou o avesso dos santos, se não sou um feitiçeiro da vida.' - Lição a ser aprendida, por todos nós, Noélio... especialmente por mim.
Lindíssimo.
bjs.
Mais um texto maravilhoso. Voltarei para reler. Com calma, buscar a plena felicidade desta leitura...
abrs,
Noelio
de alma aberta digo que é fantástico sua visão da felicidade.
Volto amigo para votar.
Um abraço carinhoso.
Que texto maravilhoso e honesto! Virtuoso e íntegro! Fiquei encantada e pensativa com isso tudo! Parabéns mais uma vez!
Tati MOTTA · Belo Horizonte, MG 8/11/2007 15:19
Adorei esta crônica maravilhosa meu querido amigo Noel. É uma prosa poética sensacional. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.
Noélio, não é a primeira vez que sinto, lendo suas palavras, permita-me usar a expressão, "um tapa com luva de pelica" .
Certamente merecido, pelo menos para mim.
Hoje, li sobre crianças forçadas a se tornar soldados em Uganda. Chorei muito pelo sofrimento descrito porque serviu de medida para a minha suposta impotência.
Lendo agora o que escreveu, pergunto-me se não deveria olhar ali na esquina, ao invés de estender o olhar para Uganda.
Aqui, ao meu lado, na minha rua, na minha esquina, há alguém para quem posso sim, fazer diferença, ao menos com um sorriso e nada faço.
Não, não posso mesmo pedir a MINHA felicidade.
Agradeço-lhe pela admoestação. Eu mereço.
beijos
Nóelio, não sou a perfeição em pessoa, também tenho mil defeitos e um deles é que quero ser feliz, é só o que eu quero. Só que, acho que eu sou feliz e sou grata pelo pouco de felicidade que eu tenho, ou o muito, sei lá. Só sei que eu sou feliz.
Acredito que só podemos reconhecer a felicidade quando conhecemos a infelizcidade. Já fui muito infeliz, agora reconheço o quanto sou feliz por ter conhecido a infeliz cidade. Deu prá compreender?
Loucura, loucura, loucura. Eu sou feliz.
Elizete
Grande Noelio, parabéns amigo
fui o primeiro a votar.
um grande abraço.
Noelio, talvez tenhamos dificuldade de aceitação da felicidade como algo fragmnentado. Por isso é que queremos que tudo seja contínuo e ininterrupto.
abço
Ao voltar para o voto, relendo sua crônica, pensei nestes pedaços de felicidade que deveríamos agradecer todos os dias e tentar dividir com outros.
Por isso, sou partidária do bem tratar, da prática da gentileza cotidiana entre os mais próximos, do sorriso para alguém. Assim, eu creio, podemos repartir um pouco de felicidade, nem que seja com um simples bom dia.
beijos reverentes
Só arrumando um erro de ortografia no meu recado. A palavra é infelicidade. Só percebi agora o meu gravíssimo erro. Mas, a mensagem é a mesma.
Grata por poder carimbar o meu voto na sua felicidade.
Eli
Noélio,
Que felicidade seja plena para ti.
Vim votar.Com felicidade.
Abração carinhoso.
Olha ovoto aí, meu irmão.
Abraços.
Carlos magno.
Oi... lendo e relendo a sua fatigada busca pela felicidade, um tema e necessidade tão recorrente nos dias de hoje quando a midia lhe sugere que a felicidade estar em um carro novo, num duplex, numa grife qualquer . E pensando sôbre isto sem cair na mesmice e depois de conviver com situações de extrema miserabilidade humana, percebi que ainda assim, há espaço para alegria, boas risadas, agradecimento ao universo pela beleza , atenção permanente para o amor gerador de atitudes gentis. Posso até cair no lugar comum ao dizer que a felicidade está em vc, ao seu lado, no detalhe do café da manhã, em dias de chuva e vc amparado e quentinho junto com quem ama... Bem. Gostei do texto e suas palavras ultrapassaram a simples leitura. Posso não ser completa em tudo que desejo, mas certamente estou feliz pela possibilidade de viver cada dia sem culpa e olhando o meu semelhante com gentileza... (admiro o Profeta Gentileza do Rio) . Bom domingo...
analuizadapenha · Natal, RN 11/11/2007 15:12Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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