Naquela época, lá nos confins da minha terra existiam poucos meios de comunicação, no entanto minha mãe ouvia a rádio Guaíba e assinava a revista O Cruzeiro, que embora chegasse sempre em atraso, trazia-nos as informações mais quentes do que acontecia pelo mundo afora.
Um dia como de costume, recebi dois ou três exemplares da revista e antes de avisar que tinham chegado, me apossei delas e fui ler as escondidas.
Entre tantas notícias interessantes, uma em especial chamou minha atenção. Li que se encontrava em teste no meio médico, a pílula anticoncepcional. Apesar da pouca idade que tinha aquilo me admirou, achei sensacional.
Por um momento senti intuitivamente, a revolução que aquela descoberta traria ao mundo e as mulheres da minha geração.
Encantada com a notícia e com a minha capacidade em entender o que li, corri atrás de alguém para contar a novidade, ao chegar na sala da lareira onde minha família costumava estar reunida, encontrei somente meu avô. Como sempre sentado em sua poltrona preferida e com sua mão apoiada na bengala e de saída para o Clube, onde passava suas tardes no carteado com os amigos e fui logo implorando.
- Espere, tenho uma coisa para lhe mostrar.
O velho estranhando minha excitação e euforia sentou-se novamente e perguntou.
- O que queres me mostrar?
- Olha . . . Tem uma notícia aqui nesta revista;
Naquele momento vacilei, senti uma ponta de dúvida, contar logo para meu avô aquela notícia, era muito atrevida para a minha idade e não era comum tanta liberdade entre os avós e suas netas naquele tempo, mas não recuei, fui em frente motivada pela grande novidade que havia descoberto.
- Está escrito aqui, que inventaram um remédio, para as mulheres não ficarem grávidas;
Vovô a princípio arregalou os olhos, tossiu, acomodou-se melhor na poltrona e disse.
- É . . . Leia ai, do o que se trata.
Com meu coração batendo em disparada e até gaguejando, li pausadamente para ele e quando terminei ele naturalmente comemorou.
- Que maravilha! Este mundo está de ponta cabeça . . . quê mais não inventam !!??
E então para meu alívio e surpresa, aquele velho homem que anunciava ser feliz por ter feito todas as coisas que quis em sua vida, me sai com esta.
- Que coisa, heim minha filha.! Quem dera já tivesse este remédio quando eu e minha velha éramos moços.
Eu então animada com a importância que ele havia dado a minha descoberta e a minha petulância fui logo disparando.
- Posso perguntar uma coisa?
- Sim, pergunte.
- Se antes não existia esta pílula, como foi que meu tio nasceu nove anos depois da titia?
Novamente arregalou os olhos e num ato de total cumplicidade perguntou.
- Onde estão tua avó e tua mãe?
- Lá na cozinha, respondi.
- Olhe bem, veja se não estão atrás da porta ouvindo nossa conversa.
Meu coração batia em disparada, minha mão suava, alegria e orgulho me dominavam naquele instante, corri até a outra sala e me certifiquei de que estavam entretidas na lida da cozinha.
- Sim, estão lá na cozinha.
- Então, vou te contar como aconteceu o que me perguntou.
Era assim, e olhando fixamente dentro dos meus olhos de espanto, me deu a resposta mais intrigante de que foi capaz.
- Assim . . . A festa era aqui dentro e os foguetes lá na praça.
Levantou-se devagar, pegou sua bengala e seu chapéu de feltro cinza chumbo e foi jogar seu carteado no Clube Comercial.
Esta crônica, retrata um diálogo entre a autora ainda menina e seu avô, na época com mais de 80 anos. A conversa, rara para aquele tempo, é no mínimo surpreendente. É um registro e uma homenagem.
ótima Maria LÚCIA,porque estava com medo??
Daltro Júnior · Corumbá, MS 6/1/2009 16:41
Oi Daltro,
È a insegurança natural dos seres humanos...rsrsrs.
Grata pelo incentivo.
Abraço
Grata Alcanu, vc entendeu o espirito da coisa.
Abraço
ótima, todo vovô tem um neta perguntadeira, mais parece uma Emília. Adorei a naturalidade com que transcorre a conversa.
Vanessa Spagnol · Americana, SP 9/1/2009 13:31
Malu,
Você é uma cronista de mão cheia (de histórias deliciosas como esta).
Bem vinda e seja muito feliz!
Oi Vanessa
Muito grata pelo seu comentário. Taí . . . eu era e ainda sou muito perguntadeira .
Abraço
Oi minha querida Cris,
Pois é . . . agora estou animada!!
Teremos muitas outras com certeza.
Você foi uma incentivadora de peso, grata.
Beijo
MariaLucia: belíssimo texto que nos você nos brinda neste sagrado diálogo com o seu avô. Bjos.
graça grauna · Recife, PE 10/1/2009 11:15que texto maravilhoso, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 10/1/2009 11:44
Olá Graça Grauna
Meu avô era um homem de vanguarda em sua época, tenho muito orgulho dele!!
Me senti feliz por ter sido "lida" ai tão longe daqui. . . Grata!
Bem vinda ao OVER !
A Rádio Guaíba e a Revista Cruzeiro ...
Legal seu estilo e o dom de resgatar memórias
Gosto disso !
Salve, Maria Lucia!
Parabéns!
Teus escritos são muito belos!!!
Abraço Pantaneiro
Muito grata Ivan Cézar!
Não era bom escutar a Rádio Guaába no quentinho da "boca da lareira" ?
E a revista O Cruzeiro com seus concursos de Miss Brasil e o Amigo da Onça na última página... sem saudosismo . . . mas era bom demais!!
Que bom, ter um conterrâneo, para ler e mostrar minhas crônicas ai no meu pago...rsrs
Um grande abraço.
Rangel;
E teus poemas embelezam meus dias!!
Grande abraço
E na época, você conseguiu entender o que seu avô falou por metáforas ou só ter a atenção dele lhe bastou?
Achei incrível a resposta que ele deu...
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