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À FLOR DA PELE

RENATO PALMAS AZEVEDO (Rio, 1970?)
1
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA
3/6/2008 · 94 · 13
 

À FLOR DA PELE
Como a maioria dos brasileiros, tive uma infância dificil. Nascido numa favela carioca -- em cima do Túnel Velho, "nos fundos" de Copacabana -- nunca tive dinheiro para comprar roupas, bastante caras nos anos 70, com a indústria fabril insipiente no Brasil.
Daí, eu só usava camisetas baratas e calças desclassificadas adquiridas no SAARA e como calçado a popular Conga, que durava de 3 a 4 anos e apertava o dedo mindinho.
Entre as recordações que NÃO TÊM PREÇO está a camisa azul celeste de seda grossa e detalhes prateados em relevo, do tipo social, mangas compridas para se usar com abotoaduras. Raro presente de minha mãe, num dia qualquer de 1968 ou 69, acompanhado de uma caixinha de papelão recoberta de seda azul escura e com um par de abotoaduras douradas, com pedra de lazulita.

A camisa se foi há séculos, mas as abotoaduras irão comigo para o cemitério, nossa derradeira morada. De minha mãe -- falecida aos 92 anos, em julho de 2005 -- guardo mais amarguras do que satisfações. Só lamento jamais lhe ter confessado o quanto aquela camisa me fazia feliz, quando a exibia aos domingos nos programas de música clássica que a recém-fundada TV GLOBO exibia ao vivo (os "Concertos para a Juventude"!) ou nas visitas que fazia à casa de amigos.

Outro momento intensamente feliz foi quando encontrei, aos 5 anos de idade, na portinhola de nosso barraco um coelhinho de plástico cheio de balas de goma multicor. Aquele instante de prazer cravou-se-me no coração para ser eternamente lembrado. O fato virou poesia, sentido soneto a registrar dificuldades e sofrimentos, que finda assim:

Dos dramas, sonhos, só o que resiste
de mil IMAGENS (côres, cheiros, sons)
é a de um menino num barraco triste,

abraçado ao coelhinho com bombons,
provando que a felicidade existe
em locais e momentos nada bons.

Ainda sobre camisas -- pobre adora falar de roupas e comidas -- lembro-me de Marco Aurélio Vicari Sarraceni, funcionário (como eu) da MRN, na Praia do Flamengo, isto por volta de 1978/79. 'Marquinho" me doava suas camisas de griffe... recordo de uma em especial, com estampa de tigres em verde, que era mágica, tinha o dom de me transformar em príncipe, em empresário bem sucedido, em playboy italiano com uma Ferrari à porta. De corte perfeito, a camisa grudava em meu corpo como uma segunda pele, realçando os músculos do peito juvenil e fazendo rugir os tigres enfurecidos.

Por onde andará o "Marquinho"? Morava em algum lugar do Leme na época, se não me falha a memória. Nunca lhe agradeci o milagre de transformar o favelado pobre em um cidadão feliz... E ISSO NÃO TEM PREÇO !
"NATO" AZEVEDO



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"NATO" AZEVEDO
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Ize
 

Oi Nato, sempre que leio seus textos tão lindos sinto saudade do jovem que não conheci aqui no Rio nos idos de 60 e 70.
Bjs
da Ize

Ize · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2008 21:41
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alcanu
 

É isso aí, Nato, uma beleza o teu relato, o teu amor pela mãe e a certeza que fica que ela conseguiu forjar um grande homem, da camisa à abotoadura !
Muitos reis, com castelos e palácios não conseguem ostentar tais valores !
Um forte abraço desse teu overmano e amigo Alcanu !

alcanu · São Paulo, SP 1/6/2008 23:51
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Cintia Thome
 

Dos dramas, sonhos, só o que resiste
de mil IMAGENS (côres, cheiros, sons)
é a de um menino num barraco triste,

abraçado ao coelhinho com bombons,
provando que a felicidade existe
em locais e momentos nada bons.


Nato...os presentes que recebemos
de corações abertos e que pulsam a bondade
são inesquecíveis, como também aqueles
que se calam e não olham de frente
pra vc nos momentos mais difíceis, é duro!
Muito triste a ignorância e os que nos ignoram,
dói pra caramba...mas fiquemos com os
"anjos"...ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 2/6/2008 12:04
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Aos amigos IZE, ALCANU e CÍNTIA... sei que estou em falta com todos, afastado quase por 50 dias deste belo OverM. Mas agora prometo remediar )ao menos um pouco) minha longa ausência e visitar/ler os postados de todos vocês.

A Vida passa qual trem... e nós, passageiros dela, temos por vezes que correr atrás dela, sem saber se estaremos vivos na próxima Estação. Mas, se algo levamos, certamente será a RECORDAÇÃO dos amigos que fizemos nesta longa estrada de pedras e dores.

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 2/6/2008 12:56
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Alice Poltronieri
 

Nato, a vida vale mesmo, é por esses momentos, que nos escancara como seres humanos rodeados de dificuldades mas com a bandeira da vitória sempre à vista. Vencemos por que acreditamos sempre. Somos vencedores porque chegamos até aqui com memória e saude fortes o suficientes para narrar nossas sagas e dar boas risadas e ainda por cima encontrar amigos, como você, que vale todo o ouro e riquezas do mundo.
Um beijo amigo...
Votos

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 2/6/2008 13:20
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Saramar
 

Nato, que bom que tenha voltado. Senti sua falta.

A felicidade é algo inexplicável mesmo.
E, para uma criança reside em mistérios que só a alma infantil compreende e enxerga.

Achei linda essa sua camisa mágica e a felicidade que ela proporcionou ao Nato já adulto, tornando-o poderoso e belo como um tigre.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 3/6/2008 08:03
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Tita Coelho
 

Essas lembranças por mais duras que sejam faz um bem. Quando li no teu texto o tênis conga me lembrei de meu pai que tb teve uma infância difícil! Mas o bacana disso, é que a maioria ou uma boa parte dela, melhoraram de vida, tinha como entende? Hoje é mais difícil!
Gostei do teu texto abraços

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 3/6/2008 08:05
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EdimoGinot
 

Pois é Nato.
Acho que a felicidade é Nata.
De dentro pra fora e não o inverso.
Uma camisa a expõe.
Grande texto
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 3/6/2008 08:52
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touché
 

Quando leio teus textos, me lembro do Proust, que como vc, tem uma visão poética da infância/adolescencia..Só que o Proust era uma mauricinho e vc um cara como nós, pobre..Pena que não lembro de nada da minha infância..que bom te ler, cara...tamo junto

touché · Guarulhos, SP 3/6/2008 20:26
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Pepê Mattos
 

Grande Nato, tuas reminiscências, nosso deleite literário... Abraços... Votado...

Pepê Mattos · Macapá, AP 7/6/2008 00:58
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DIO MIO... os amigos OverNautas todos "voltando -- eu é que andei sumido -- e me presenteando com seu carinho. Grato a todos pelos agradáveis comentários. MAS O QUE É FELICIDADE ?
"Na Vida, no dia-a-dia,
penso com sinceridade
que os momentos de alegria
são a tal... felicidade!"
"NATO" AZEVEDO
(trova)

Aos queridos ALICE e SARAMAR o meu muito Obrigado! Aos novos amigos TITA COELHO e EDIMO GINOT, que sejam benvindos e voltem sempre!
Aos velhos batalhadores da cultura e da Literatura TOUCHÉ e PEPÊ MATTOS... a luta continua, dolorosa e divertida! VAMOS EM FRENTE!

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 7/6/2008 19:16
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Lígia Saavedra
 

Nato amigo, olá!

Vc quando escreve falando de si nos comove com a franqueza de quem escreve no seu diário. Talvez eu não saiba definir ao certo mas é como se te ouvisse contar histórias.
Bom demais, viu?

Um bjão

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 14/6/2008 21:02
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Doroni Hilgenberg
 

Nato,
Que bom que eu encontrei-o aqui. Fico feliz!
Adorei o seu conto. Tanta franqueza nos comove. Mas ter sido pobre não devia ser tristeza e sim privilegio, pois sempre damos mais valor as coisas que conseguimos com sacrifico.

bjssssssss e meu carinho

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 2/8/2008 23:40
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