Nasci pobre. E como todo pobre, já nasci com fome. fome da muita. dessas que a gente sente como se estivesse comendo a gente por dentro. se fossemos capazes de falar ao nascer, primeiro pedirÃamos comida e só chorarÃamos depois. cresci com fome. com os olhos maior que a boca, e o estômago maior que o corpo. sem conhecer o que é estar saciado. por mais que se coma, ela está lá, a espreita, sempre pedindo mais e mais. por que não se trata de uma fome qualquer- vem de antes da gente, é hereditária e cumulativa. herdamos de nossos antepassados e passamos a nossos filhos, eles já nascem igualmente famintos. chorando o mesmo choro inconfundÃvel de fome: um choro roufenho, espremido, dolorido, penoso. um choro facilmente reconhecÃvel para quem já conheceu essa sensação de vazio constante, infindo. reconhece no ato. é algo que não dá para esquecer, nunca! ela está lá, e fica, como um segundo eu, dentro da gente. inseparável. indestrutÃvel. fome de-não -acabar-mais. sobrevivendo a antes e depois de nós. perseguindo-nos, com seus olhos vazios, esfomeados. devorando-nos de dentro para fora. nossas carnes, ossos e sonhos. nossa alma. levando-nos a viver em função dela e para ela. comer é tudo.
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