A galinha da Clarice passeava calmamente no telhado do sobrado. Era uma galinha gorda, penas pintalgadas, dessas que alimentamos durante meses e que são sacrificadas às vésperas de um dia especial, desde que as crianças a ela não se tenham afeiçoado, vindo então a implorar que à ave se lhe dê destino outro que não a panela que a ela estava desde sempre destinada.
Não era como a galinha do Vergílio, digo-o desde logo, para que dúvidas não haja. Imagine uma galinha daquelas ali, posta por alguém que nada mais tivesse para fazer e houvesse dado a si o trabalho de galgar o telhado, a caminhar cuidadosamente de telha a telha, sempre no prenúncio de que uma delas se partisse, como é das estatísticas, a criar a necessidade de ser substituída, não me vá a chuva por ali cair sobre o teto e surgirem goteiras na sala de visitas ou, muito pior, num dos quartos da casa. O que, à sua vez, criaria a necessidade de alguém, talvez ele mesmo, o desastrado autor do dano, ali voltar ao telhado, trazendo consigo nova telha para substituir a que se partira na vez anterior. A criar-se novo risco de novas telhas partirem-se, a criar-se a necessidade de alguém ali retornar, talvez ele mesmo, para substituí-las e assim repetir-se essa lenga-lenga ad infinitum.
Era, em súmula, uma galinha de carne, osso e penas.
As pessoas que se dignavam de olhar para cima, com o risco de meterem o pé em algum buraco da calçada, abrindo uma das mãos, que levavam perpendicularmente à testa, à maneira de um aparador que lhes toldasse os possíveis efeitos dos raios solares incidentes sobre os olhos atrevidos, indagavam-se o que fazia aquela galinha naquele local. Alheia a tais comentários, talvez por falta de orelhas ou em razão da distância, a galinha da Clarice caminhava lentamente, como é próprio dos galináceos, dobrando, sucessivamente, cada perna, até porque, se dobrasse ambas ao mesmo tempo, não andaria, sentaria.
E caminhava para diante, mesmo porque galinhas não dão marcha-a-ré. Aceleram, quando se faz necessário, como se um galo no diuturno cio com ela cisme e manda a pudicícia galinácea que ela se faça de rogada e não aceite desde logo a corte, pondo-se a correr em círculo, sempre a ser seguida e perseguida pelo galo que a todos deseja mostrar quem é que manda no terreiro E lá longe, alheia aos olhos curiosos e pudicos dos presentes, ela se dignará de abaixar-se, para que ele a monte e depois, sexualmente satisfeito, dela desça e faça um rodopio, como se dissesse de que te valeu correr tanto? E ela então se levantará e se sacudirá toda, espadanando as penas, como a querer eliminar delas todos os vestígios do natural ato que acaba de praticar, sabe-se lá se voluntariamente ou não.
Mas ali, no alto do telhado da casa, não havia porque nem como correr em círculo, até porque galo algum ali subiria apenas para dar vazão à libido, presumindo-se ajam os galos com prudência mínima.
Pois à medida que a galinha da Clarice, não a do Virgílio, ressalvo segunda vez, dobrava a perna, o que fazia lentamente, como é próprio das galinhas desde o início dos tempos, se permitido for fazer uma tal suposição, ela também lentamente recolhia os magros dedos, dada a evidente inutilidade de mantê-los empalmados, como a dar adeus a fantasmas. Mas, à medida que a perna voltava, também com lentidão, a esticar-se, os magérrimos dedos iam-se afastando uns dos outros, como a formar, mecanicamente, uma esquelética flor, que ela exibia a ninguém.
Enquanto caminhava pelo telhado, valendo-se daquele caminho natural formado pelo encontro das telhas que vinham de um lado e de outro, da direita e da esquerda, unindo-se ali, naquele cocuruto, e casadas uma a outra por um outro tipo diferenciado de telha, dita telha de arremate, a galinha da Clarice olhava, também sucessivamente, à direita e à esquerda, como se aguardasse aplausos ante o seu atrevimento de, menos votada ao vôo como tantos de seus parentes distantes, passear atrevidamente a tantos metros do solo. Galinha pensa?
Lá embaixo, alguns desocupados ou, talvez, preocupados com a possível extinção da espécie, acompanhavam aquela marcha da galinha, algo digno de soldados vietnamitas em parada militar. E ela alheia a tudo e a todos, sabe-se lá se ainda tem mãe, a qual certamente aflita estaria, se existente, ante aquele despropósito galináceo.
Eis que dois pombos, não mais do que dois, assentam-se no alto do telhado, naquela espécie de coluna vertebral que a maioria dos telhados apresenta, ali posta, não para suster costelas, mas para dividir o telhado em duas águas, como diz o vulgo, até porque a galinha da Clarisse passeava caminhando exatamente ao longo daquela longa e falsa coluna vertebral.
Que faz ela, ante a inesperada visita? Certamente se indaga o que fazem essas duas aves cá no alto, uma delas a girar em círculo sem sair do lugar? Pasma, a galinha da Clarice simplesmente sustém o passo, mantendo a perna dobrada e os dedos recolhidos, como é próprio dessas aves em tais momentos de indecisão. Que quer esse casal postado em meu caminho? há de ter pensado a galinha, se aceitarmos que as galinhas de fato pensam, minúsculo que seja seu cérebro, como sabemos todos nós. Ou haverá quem se tenha refestelado a comer cérebro de galinha, tal como se come os de boi ou de vaca, ditos eufemicamente miolos?
O fato é que essa vacilação galinácea custou-lhe a ela a vida, pois o rapaz da casa surgiu num átimo de segundo e a agarrou por uma das asas, levando-a, por mais que ela resistisse, para a casa, onde, não havendo crianças nem tendo ela botado ovo nenhum, mataram-na, preparam-na à cabidela, comeram-na com quiabo e arroz branco.
E passaram-se anos. Muitos e muitos anos.
Eis uma releitura de um conto antológico de nossa mestra Clarice Lispector. Ao ensejo, apresento a muitos brasileiros um excelente escritor português, pouco conhecido no Brasil.
Tens o dom de nos prender a leitura.
Galinha acaba na panela e com acompanhamento
excelente.
A qualidade de sua escrita é notável, original.
Voltarei para votar!
Beijos!
Muito boa releitura, para a galinha, nada agradável.
Parabéns
Cda galinha com o seu cada qual! Prazer em cionhecer o Vergilio!
raphaelreys · Montes Claros, MG 29/1/2009 05:47Lindo trabalho.Depois meu volto.Abração!!!
Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 29/1/2009 08:04
Confesso que não sei de qual das três galinhas gostei mais.
Que trio!
Mário Henrique
Releitura que prende pela fluidez, por mais paradoxal que isso possa parecer. São 00:45, venho de uma noite não dormida e, ainda assim, foi impossível não desejar chegar ao final.
Grato pelo momento ! :)
Meus votos para as galinhas! Um abraço!
raphaelreys · Montes Claros, MG 31/1/2009 05:59
fico com inveja do "trato" que dá nas fotos, sem contar da inveja da capacidade que tem de por "por escrito" esse cotidiano que fez parte da vida de todos nós ...de uma forma incrível...Parabénsnum abraço
Selma
PS - Minha mãe me mandava levar a galinha do domingo na dona Maricota (que fazia as vezes do abatedouro)e ela perguntava estridentemente com sotaque bem caipira e falando rápido:_"É prá matá, depená, tostá, limpá, cortá?"
prefiro-as ao molho pardo...hummmmm..delícia !...ou seja , à Cabidela...rsrs
abraços e cocoró-cocós !
Gostei de ler a sua Galinha.
Foi bom relembrar as minhas leituras de Vergílio Ferreira, na década de 70 (ou antes, ainda no curso de Letras). Eu pensava mesmo num paralelo Vergílio/Clarice, não tanto nos contos, mas na perplexidade metafísica do romance de ambos. Mas não é à toa que ambos se encontram comendo a mesma galinha - ou outra? Era uma Galinha, é o que importa.
A sua releitura da Galinha de Clarice é uma bela homenagem.
Abraços.
Belíssima releitura da "Galinha' da Clarice!E olha que não é fácil
fazer isso,e vc conseguiu não ferir nem diminuir o lindo conto dela, deu continuidade à subjetividade e ao inusitado que há em toda obra da minha apaixonante Clarice!!!
Gostei ,muito,Suannes !!!
bluebeijinhos
Blue
Meu voto é na galinha. A propósito, sei dum acontecimento verídico ocorrido aqui no interior, cuja personagem central foi uma galinha, dessas criada guaxa em quintal e que era o mimo das crianças de um casal de compadres. O acontecido foi que a minha comadre ao espirrar pela janela, lançou fora com o espirro um dente, desses de prótese fixa (não bem fixa), no instante mesmo a galinha, cujo nome era Fi-inha (um derivado de filhinha), que estava catando minhocas pelo páteio, engoliu o dente. Vai daí que comadre andou por uns par de dias catando dente em cocô de galinha pelo terreiro, ver se encontrava o dito dente que poderia ser reaproveitado. O certo é que não sacrificaram a galinha como no conto do Mestre porque era de estimação e acabou falecendo de velha.
Eldo Meira · Carazinho, RS 2/2/2009 12:05Você sempre foi apaixonado pela galinha descrita por Clarice. Já li, reli, treli,e....como diria Maria do Céu, "não me soube". Enfim.....Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 2/2/2009 13:06
Meu caro Meira.
Com um tema desses, desperdiças em um simples comentário?
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
A galinha
Parabéns pelo Trabalho, tem junto do domínio total da expressáo, o domínio dos temas Humanos e de qualquer limáo faz uma limonada de beleza e debom sabor.
Tem de lhe tirar o chaoéu.
parabéns também pela lindíssima foto da Clarice.
Abracáo Amigo
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