A GERAÇÃO MIMEÓGRAFO NO PIAUÍ

Créditos desconhecidos
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Cláudio Carvalho Fernandes · Teresina, PI
28/1/2011 · 11 · 0
 

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
DISCIPLINA: LITERATURA NACIONAL: AUTORES PIAUIENSES
GRUPO: ARNALDO, CLÁUDIO, FRANCINEUMA, GILVÂNIA, ROSIMEIRE e SUELY
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES

A GERAÇÃO MIMEÓGRAFO NO PIAUÍ

Teresina
jun – 2002

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
DISCIPLINA: LITERATURA NACIONAL: AUTORES PIAUIENSES
GRUPO: ARNALDO, CLÁUDIO, FRANCINEUMA, GILVÂNIA, ROSIMEIRE e SUELY
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES

A GERAÇÃO MIMEÓGRAFO NO PIAUÍ

Teresina
jun – 2002


A GERAÇÃO MIMEÓGRAFO NO PIAUÍ

SINONÍMIA

Geração Marginal, Geração 70, Geração Pós-69, literatura marginal, literatura alternativa.


CONTEXTO NACIONAL E ANTECEDENTES

Ditadura militar (1964-1985)
“Milagre” brasileiro, ufanismo e crise econômica
Repressão política e cultural
Tropicalismo e Torquato Neto

Os poetas e prosadores da Geração Pós-69 viveram um tempo de intensa censura política e cultural, com cerceamento das liberdades e policiamento ostensivo às atividades intelectuais, um tempo de proibições que fez com que os artistas de então procurassem, na maioria de suas concepções, respostas às indagações de tal período. Vivia-se sob o domínio de uma ditadura militar que fomentava o clima de euforia do “milagre brasileiro” e do “ame-o ou deixe-o”, comovendo grande parte da população, principalmente com atrações mobilizadoras de massas como os veículos de mídia, a propaganda e o futebol. Ao mesmo tempo em que ecoavam os acordes ufanistas, já se esboçava mais ameaçadoramente o problema da inflação, “impedindo a melhoria das condições de vida das classes historicamente dominadas. O resultado era o progressivo crescimento dos focos de miséria, a favelização urbana e o êxodo rural de camponeses que se mudavam para a cidade expulsos da terra por falta de apoio”. Este instrumental social serviu como base para os poetas e prosadores da geração de então, alimentando o seu fazer literário.

Também é necessário destacar que nesta fase a repressão cultural andava a par com a repressão política, havendo muita censura às atividades artísticas, em todas as suas modalidades. Já no final dos anos 60 eclodira o Tropicalismo, movimento ou tendência artística que retomou alguns princípios da Antropofagia oswaldiana dos anos 20, buscando a síntese entre o primitivo e o moderno, na tentativa de configurar uma identidade nacional através da linguagem vanguardista. Torquato Neto, poeta, jornalista, cineasta, roteirista, ator e produtor cultural, foi uma referência significativa na história da cultura brasileira no período compreendido entre 1968 e 1972, firmando-se, com o valor de sua obra literária, como uma matriz inovadora para a literatura brasileira, através da sua poética da resistência cultural.


DEFINIÇÕES

Alcenor Candeira Filho
Elmar Carvalho
José Pereira Bezerra
Herculano Moraes
Paulo Machado

Falando sobre a Geração Mimeógrafo, o crítico e ensaísta Alcenor Candeira diz que esta foi um “Movimento cultural dos anos 70 que se desenvolveu principalmente no Rio de Janeiro e se espalhou por todo o País, provocando o surgimento de inúmeras antologias poéticas, revistas, livretos individuais, jornalecos, quase todos mimeografados. No Piauí, especialmente em Teresina e Parnaíba, já a partir do início dos anos 70, foram publicadas diversas revistas, antologias e jornais, divulgando poetas e prosadores das mais diversas tendências, vários dos quais se tornariam, posteriormente, importantes nomes da história literária e cultural do Estado”.

Já Elmar Carvalho, comentando o livro “Anos 70: Por que essa lâmina nas palavras?”, de José Pereira Bezerra, sobre a Geração Mimeógrafo, diz que esta foi um “fenômeno literário ocorrido nos anos 70” e “que se firma como uma das mais robustas gerações literárias piauienses, tanto em termos quantitativo, como qualitativo”. O próprio José Pereira Bezerra fala de “uma antiestética, não enquanto proposta, pois esta não existia, mas como um conjunto de práticas que apontava, anárquica e fragmentariamente, para várias vertentes da cultura, do romantismo a aspectos estéticos mais contemporâneos, dentro do contexto dos anos 70, nos aspectos materiais, literários e ideológicos”.

Segundo Herculano Moraes, apesar de “demarcar uma nova história da poesia, depois que o sonho clipeano foi se dissolvendo nas conquistas pessoais dos seus líderes mais respeitados ... o movimento de demolição das velhas estruturas, através da impressão mimeografada, não veio a representar uma manifestação de rebeldia às formas institucionalizadas, nem se consolidou como instrumento de elaboração de uma nova estética, como pretendiam. A chamada geração do mimeógrafo pouco inovou, pouco acrescentou ao que estava criado ... Era a linguagem do jeans, da camiseta, dos óculos escuros e dos cabelos despenteados e normalmente sujos. A literatura trazia, evidentemente, a roupagem da contracultura manifestada nos gritos de revolta de uma sociedade em crise, reproduzindo o desprezo aos valores tradicionais”.

Não é exatamente semelhante a estas a consideração de Paulo Machado, que sustenta que a Geração Pós-69, além de ser a “mais audaciosa e criativa geração estética já surgida no panorama cultural piauiense”, não foi só um fenômeno literário, mas congregou “as manifestações culturais de literatura, artes plásticas e gráficas, artes cênicas, música e arquitetura”.


CARACTERIZAÇÃO

Produção dos anos 70
Aspectos literários

A produção dos anos 70, vivenciando uma antiestética marginal, anárquica e confusa, se caracteriza justamente por uma grande diversidade de tendências entre os seus poetas e prosadores, que questionavam o contexto político e social da época, mantendo uma produção autofinanciada, com comercialização e distribuição de livros, jornais e revistas fora do circuito editorial formal. Inicialmente o fenômeno concentrou-se nos eixos Rio, Bahia e São Paulo, consolidando-se por volta de 75/76.

No Piauí, seu marco inicial é a coletânea Tudo é Melhor que Nada, organizada por Cineas Santos, em Teresina, ainda em 1972, reunindo textos em prosa e poesia e feita artesanalmente. O livro apresenta, em sua página de abertura, o poema “Distorção”, de Torquato Neto, revelando, sobretudo tematicamente, uma certa aproximação com as inquietações do poeta tropicalista piauiense. Também no mesmo ano são publicados os dois primeiros números do jornal alternativo (mimeografado) “O Linguinha”. São fatos marcantes da época a implantação da televisão e a criação da Universidade, verificando-se uma maior velocidade no fluxo da informação. Como publicações alternativas, merecem destaque o “Chapada do Corisco”, em Teresina, o primeiro jornal alternativo de grande repercussão cultural, e o “Alternativo”, em Parnaíba. Basicamente o mesmo grupo que produziu o “Chapada do Corisco” participou das coletâneas de poemas “Ciranda” (1976) e “Ô de casa” (1977). Durante a segunda metade dos anos 70 e início de 80 foram publicadas páginas culturais contendo contos, poesias, artigos e entrevistas do pessoal da geração mimeógrafo nos jornais O Dia, O Estado e Jornal da Manhã, geralmente aos domingos.

Como características propriamente literárias, é possível dizer-se da Geração Mimeógrafo que esta apresenta(va) em suas produções uma linguagem coloquial em contraponto à linguagem acadêmica, buscando sua temática a partir de fatos do cotidiano e tendo o seu fazer mais voltado para o parafrástico do que para o parodístico (neste ponto, diferenciando-se do Tropicalismo e da Antropofagia oswaldiana). Além disto, apresenta-se múltipla e heterogênea, embora suas produções tendessem mais para o coletivo que para o individual. Aliás esta é uma marca fundamental do movimento, a publicação coletiva, ao contrário de outras gerações.


PRINCIPAIS REPRESENTANTES

Alcenor Candeira
Paulo Machado

Alcenor Rodrigues Candeira Filho é considerado por Herculano Moraes como sendo um crítico de bom nível surgido com a Geração Mimeógrafo. Além de poeta de forte carga emocional, é visto também como um ensaísta de peso, talvez o nome mais expressivo da análise literária da sua geração. Nasceu em Parnaíba a 10 de fevereiro de 1947, e é advogado, professor de língua e literatura da Universidade Federal do Piauí, além de membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Parnaibana de Letras e da Academia Piauiense de Letras

Suas obras são: Sombras entre ruínas (1975); Rosas e Pedras (1976); Das formas de influência na criação poética (1980); A insônia da cidade (1991) e Aspectos da Literatura Piauiense (1994). Assis Brasil diz que Alcenor Candeira é um poeta participante, entre o lírico da sensibilidade e a contundência da crítica social, mostrando também conhecimento teórico sobre os assuntos da literatura piauiense. Considera também que A insônia da cidade é a sua obra mais madura, em que demonstra um nível de poesia segura e equilibrada em seu aspecto de inventividade e linguagem, com formas variadas de conceber os seus poemas, dicção forte e domínio absoluto do dizer poeticamente

Paulo Henrique Couto Machado nasceu em Teresina, a 23 de julho de 1956. É tido por Herculano Moraes como “o poeta-referencial de seu tempo. A marca-símbolo de uma poesia que sintetizou todas as aspirações juvenis de uma época dolorosa. Poesia compromissada com a terra, a história e o mundo. A linha da tradição com os componentes do meio e a forma renovadora com os artifícios da metáfora”. Segundo ainda o mesmo Herculano Moraes, “o poeta participou de trabalhos coletivos em Cirandinha, Ô de casa, Aviso Prévio, Galopando, Descartável e Piauí: terra, história e literatura, mas foi com Tá Pronto, Seu Lobo? (1978) que definiu a marca do seu estilo infinitamente pessoal, rica de valores existenciais. A trilha aberta por Paulo Machado tem fontes subjetivas, mas não é difícil perceber as fortes influências de leituras clássicas que constituem o seu perfil poético”. Já Assis Brasil considera que Paulo Machado “é o poeta da sua cidade, pois em seus dois livros editados, os poemas giram e se refazem com a corrente sangüínea da vivência de Teresina... a temática do cotidiano serve de moldura para uma linguagem simples e sensível”.

Quanto a “A Paz do Pântano”, Herculano Moraes diz que a obra “inicia a trajetória do poeta rumo aos valores da história humana, a tradição da poesia em suas fontes mais ricas; e aí o seu encontro com a linhagem de H. Dobal se torna definitivo”. Assis Brasil considera que tal obra constitui um único e belo poema, com título emblemático, remetendo para implicações sociais.

Cineas Santos, em “Nada de novo”, nas “orelhas” do livro “Tá pronto, seu lobo”, Teresina, 2ª edição: Corisco, 2002, diz que “...Apesar ... de ... constrangimentos inerentes ao ofício, Paulo Machado, em momento algum, deixou de acreditar na palavra como instrumento de denúncia: “Sei que ao verso forte o medo fará inexpressivo / quando estiver morta a crença inicial na palavra”. É nessa crença/teimosia que se alicerça sua arte. Grande parte dos poemas que constituem este livro tem gosto de reportagem de rua: são flashes de uma cidade que se transforma, que se desumaniza (perdoem o lugar comum) pela ação (in)consciente dos donos da vida. Teresina é uma cidade transitória, embora os senhores de engenho permaneçam irremovíveis. Trocam apenas de casaca, cara, cor, conforme o ritmo da dança. (...)”.

Prefaciando a mesma segunda edição do livro Tá pronto, seu lobo?, o crítico literário Airton Sampaio aponta, como aspectos desta obra e da poética machadina, as seguintes características: Estéticas ou estilísticas: Linguagem enxuta, depurada, substantiva; Metáforas incomuns; Metonímias inusitadas; Versos livres (sem metrificação) e brancos (sem rimas); Modo de dizer preponderantemente narrativo-descritivo, com a predominância de prosoemas (poemas em prosa); Temáticas ou Conteudísticas: Eixo central: opressão/liberdade; Temas decorrentes: Teresina, Violência (urbana, rural, política), Migração, História, Fome Miséria etc; Visão de Mundo ou Cosmovisão: Hiper-realismo (realidade expressa com contundência, sem ornamentos); Utopia contida (sem arrufos, ufanismos ou ingenuidades tais); Senso de coletivismo (convicção de que o indivíduo importa muito, mas o povo é que é, mesmo, o trans-forma-dor).


“FAZER POEMAS É FÁCIL
COMO AMORDAÇAR UM LOBO”

( Paulo Machado )



BIBLIOGRAFIA


BEZERRA, José Pereira. Anos 70: Por que essa lâmina nas palavras? (Antiestética marginal & geração mimeógrafo no Piauí). Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1993.

BRASIL, Assis. A poesia piauiense no século XX: (Antologia)/organização, introdução e notas de Assis Brasil. – Rio de Janeiro: Imago Ed.; Teresina, PI: Fundação Cultural do Piauí, 1995

MACHADO, Paulo. Tá pronto, seu lobo? 2ª ed. Teresina, Corisco, 2002.

NETO, Adrião José. Literatura Piauiense para Estudantes. 2ª edição. Teresina. Edições Geração 70, 1997.

SILVA FILHO, Herculano Moraes da. Visão histórica da literatura piauiense. 3ª ed. Teresina, Academia Piauiense de Letras/Hércules, 1990.

Sobre a obra

Falando sobre a Geração Mimeógrafo, o crítico e ensaísta Alcenor Candeira diz que esta foi um “Movimento cultural dos anos 70 que se desenvolveu principalmente no Rio de Janeiro e se espalhou por todo o País, provocando o surgimento de inúmeras antologias poéticas, revistas, livretos individuais, jornalecos, quase todos mimeografados. No Piauí, especialmente em Teresina e Parnaíba, já a partir do início dos anos 70, foram publicadas diversas revistas, antologias e jornais, divulgando poetas e prosadores das mais diversas tendências, vários dos quais se tornariam, posteriormente, importantes nomes da história literária e cultural do Estado”.

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informações

Autoria
Cláudio Carvalho Fernandes e Outros ( Arnaldo, Francineuma, Gilvânia, Rosimeire e Suely )
Ficha técnica
Trabalho universitário, para a disciplina Literatura Nacional: Autores Piauienses, do curso de Letras ( Português e suas literaturas ), em junho de 2002
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