A Grande Biblioteca (do Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa)

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Fábio Fernandes · São Paulo, SP
10/11/2006 · 102 · 11
 

e quem nos livrará dos sonhos com coisas impossíveis, eu me perguntava no instante em que atravessava os pórticos imensos da Grande Biblioteca, que era imensa, mais imensa do que a já quase infinita biblioteca de Babel, e eu sonhei que entrava neste espaço onírico, onírico sim mas concreto, respeitem o meu caminhar por essa região de sombras, e adentrei o prédio um tanto positivista, grande, leviatânico, escuro e opressor por fora como convém, mas surpreendentemente claro por dentro, todo composto por salas pequenas repletas de prateleiras menores ainda, armações toscas de madeira mal pintada de branco que mal batiam à altura da minha cintura mediana de um brasileiro que mede um metro e setenta e dois centímetros, e uma vez dentro estava dentro, não cabia a mim questionar qual o significado do sonho, um bom bibliófilo não questiona essas coisas, apenas cuida de escarafunchar estantes, é essa a sua função. Mas enfim, qual não foi minha surpresa, após poucos minutos vasculhando as prateleiras, ao descobrir um pequeno livro, um libro de bolsillo na verdade, porque era uma edição argentina, emecé editores talvez, uma tradução para o espanhol de um livro de Foucault analisando Corto Maltese, livro bastante raro inclusive se considerarmos o fato de que ele não existe, pelo menos no nosso mundo, que segundo alguns, é apenas um de muitos. Não foi minha única surpresa, pois logo a seguir encontrei um livro precioso, raro até mesmo no mundo dos sonhos (intuo isso porque o livro estava caindo aos pedaços, e sua encadernação dava a entender que fosse um exemplar impresso na década de trinta ou quarenta), e que era uma compilação de ensaios sobre crítica literária escritos por Graciliano Ramos. Se eu pudesse ao menos ter lido os livros em sonho, mas não, a besta aqui decidiu comprá-los depois, e, com eles na mão, acabei despertando durante uma das buscas pelas prateleiras brancas e empoeiradas, enquanto me desviava de outras pessoas, talvez outros sonhadores como eu, a gente nunca tem como saber dessas coisas, pois, embora às vezes tenhamos consciência de que estamos sonhando, é justamente no momento em que temos a oportunidade de fazer uma enquete e perguntar ao cavalheiro ao lado, o senhor está sonhando de onde?, é justamente nessas oportunidades que toda consciência de que estamos sonhando nos evade, e ficamos condenados à sombra, motivo pelo qual eu talvez tenha acordado na quebrada da madrugada, incrivelmente consciente do sonho, mas incapaz de ter trazido os livros comigo. Desde então os procuro, mas nunca mais consegui voltar à Grande Biblioteca.

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informaes

Autoria
Fábio Fernandes
Ficha tcnica
Este é um verbete pouco ortodoxo do Pequeno Dicionário: não é exatamente um arquétipo, e não havia sido pensado inicialmente como tal, mas achei que, pelo formato, cabia no projeto.

Detalhe: este miniconto foi TOTALMENTE SONHADO por mim.

Outro detalhe: este conto foi publicado, em formato ligeiramente reduzido, na revista Cult número 84, de setembro de 2004.
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Claudiocareca
 

Muito bom Fábio! Espero um dia adentrar esta biblioteca e ler os livros ainda no sonho já que vc nos adianta que não dá para trazê-los conosco.
Será a leitura facilitada pela consciência elevada do sonho?

Claudiocareca · Cuiabá, MT 8/11/2006 12:07
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Bia Marques
 

tem horas que acordar acaba com todo encanto da vida...

Bia Marques · Campo Grande, MS 9/11/2006 09:55
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Fábio Fernandes
 

Eu sei que esse sonho permanece até hoje muito nítido em minha lembrança. Tenho certeza de que acessei outra realidade - mas não consigo mais voltar para lá...

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 10/11/2006 07:49
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jjLeandro
 

Aqui vejo ecos borgianos que tanto gostava de bibliotecas e labirintos, lendas e história de honra e sangue dos pampas gaúchos. Abraços!

jjLeandro · Araguaína, TO 12/11/2006 13:48
1 pessoa achou til · sua opinio: subir
Fábio Fernandes
 

Borges e Cortázar, caríssimo JJ. Esses dois argentinos-europeus me ajudaram a moldar o meu gosto literário.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 12/11/2006 15:29
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Rangel Castilho
 

Me identifiquei, novamente, com teu texto!!!
Tenho quase certeza, que já estive nessa Grande Biblioteca...
Salve, Fábio!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 12/11/2006 16:37
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Fábio Fernandes
 

Valeu, Rangel!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 12/11/2006 23:17
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Zéduardo Calegari Paulino
 

E eu acabo de acordar de madrugada justamente vindo desta biblioteca.
Ai vim no overmundo pra matar a saudade do sonho e eis que encontro você e seus arquétipos!

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 26/2/2007 04:19
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Fábio Fernandes
 

Pois é, eu já disse que ela existe. Já publiquei esse conto numa revista de papel há anos, e até o editor reconheceu a existência dela.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 26/2/2007 09:44
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Zéduardo Calegari Paulino
 

Mas é claro que existe... De vez em quando encontro amigos por lá. Ontem fui com Bia. Tem livros teus lá?

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 26/2/2007 16:05
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carlos magno
 

Muito bom Fábio, eu adorei. Parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2007 22:57
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