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A grande entrevista

Salvador Dali, The Businessman.
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William Lial · Fortaleza, CE
20/11/2009 · 3 · 2
 

Sim, sou Cláudio Castanheda. Tenho, tenho nível superior. É verdade, fiz alguns cursos na área de convivência de grupo, cursos ligados a relacionamento interpessoal, dinâmica de grupo e alguns outros, como o senhor pode ver aí no curriculum. O quê? Ah, claro, sim, sempre trabalhei nessa área, na verdade sempre voltado para o RH das empresas. Uso sim, sempre uso brinco aonde vou; algum problema nisso? Certo, ok. Não, não tenho piercings em outra parte do corpo. Não, nunca pensei em ter um piercing no meu pênis. Não, nem nos meus mamilos. Mas por que me pergunta isso? Ah, o senhor detesta piercing. Coisa de gay? Não, não considero coisa de gay, é um artigo de decoração pessoal como outro qualquer. Tudo bem, podemos mudar de assunto. Tatuagem? Não, eu não tenho tatuagem. Não, eu não tenho nada contra tatuagem. Sim, mas o fato de eu ter um brinco na orelha não quer dizer que eu deva ter alguma tatuagem no corpo, não é verdade? Sim, já pensei em colocar uma tatuagem em mim. O senhor sabia o quê? Sabia que eu deveria adorar tatuagens e não queria dizer. Não é nada disso, me desculpe, eu apenas já pensei sim em ter uma tatuagem, mas ainda não fiz, e se não comentei isso antes é porque o senhor havia me perguntado apenas se eu possuía tatuagens e não se eu gostaria de fazer uma. Mulheres dizendo palavrão? Bem, o que eu acho de mulheres dizendo palavrão é o mesmo que eu acho de um homem dizendo palavrão. De um homem? Eu acho que qualquer pessoa tem o direito de dizer palavrão independente do sexo. Sim, acho que homens e mulheres têm os mesmos direitos, mesmo para palavrões, a questão, a meu ver, é apenas que você deve saber onde se pode usar palavrões, e em que situações. Não, eu não estou fazendo apologia ao palavrão. Não eu não acho que todos deveriam sair por aí xingando todo mundo. Sim, mas eu falei que se pode usar palavrões e não que se deve sair por aí distribuindo aos borbotões para os passantes na rua. Não, eu não me considero um rebelde. Ok, podemos mudar de assunto, sim. Se eu já senti vontade de me matar? Não, nunca. Não, eu não me acho bom em tudo. Não, também não me acho melhor que todo mundo. O fato de eu não ter pensado em me matar não quer dizer que eu seja prepotente. Está bem, pode fazer outra pergunta. Matar alguém? Claro que não, por que eu iria querer matar alguém? Não, eu nunca senti vontade de matar alguém! Eu não estou irritado, só não sei qual a ligação dessas perguntas com a vaga de emprego que estou preiteando. A própria urina? Não, nunca bebi minha própria urina. Porque precisamos falar disso?(Isso é um pesadelo, eu devo ter cantado a Virgem Maria em outra encarnação). Hã? Nada, nada, eu estava pensando alto. Uma pergunta de cunho comportamental? Tudo bem, faça. Se eu seria capaz de retirar duas costelas para praticar sexo oral em mim mesmo? Mas que pergunta é essa? Sim, mas eu não sou o Marilyn Manson, além do mais isso deve ser mentira ou marketing para vender show. Eu não estou nervoso, apenas continuo sem entender o propósito de suas perguntas. Ainda quer saber? Não, eu não tiraria duas costelas para fazer sexo oral em mim mesmo. O senhor está satisfeito? Que bom! Ah, mas isso só pode ser uma pegadinha, onde está a câmera escondida? Está ali detrás da cortina? Ou quem sabe ali entre os livros da estante?! Não isso não pode ser sério, o senhor não fala sério, mas é claro que eu nunca dirigi com a cabeça para fora do carro? Como eu faria isso e por quê? Não me importa se o senhor viu um filme ontem onde um cara dirigia assim. Era apenas um filme, não era real. Irritado? É possível, a essa altura é possível. É claro que eu quero o emprego, mas essas perguntas... Tudo bem, eu continuo respondendo. Se o pára-brisa do meu carro estivesse quebrado, eu não sairia no carro. Não, eu não preferiria faltar ao trabalho, eu pegaria um ônibus ou um taxi. Não, eu não ganho bem para pegar um taxi, eu estou desempregado, por isso estou nessa entrevistas. Pegar um taxi seria um recurso extremo. Outra pergunta? Está bem, pode fazer. O quê??? Se eu mijo na água quando vou à praia? Mas qual a ligação disso com o setor pessoal de uma empresa? Tá bom, eu respondo. Algumas vezes mijo. Coisa imunda? Ora, mas o mar está em movimento e a água é salgada, e por que o senhor me perguntou isso então? Mas era só o que me faltava, sim, o mijo escorre pela minha perna. Uma pergunta sobre expressões populares? Certo, faça! Se eu vou quando alguém discute comigo e me manda cagar no mato? Vou onde? Cagar no mato? Pelo amor de Deus... Não, não e não, eu não vou!!! Se eu já lambi sabão? Por que eu lamberia sabão? Quando alguém briga comigo e me manda lamber sabão? Eu não sou idiota! Claro que não lambo. O gosto é horrível? E como o senhor sabe? Ah, não é da minha conta?! certo, certo. Pergunta na área de matemática? Ok, estou pronto. Quanto é 457, vezes 1330, menos 49, mais quanto... 776? O quê? Dividido por 18? O senhor pode repetir? Lento, eu? Mas eu... Qual a cor da gravata do vampiro no filme “Drácula”, de Brahm Stoker? Como eu poderia me lembrar disso? Eu não tenho boa memória? Mas como eu... Quem foi o primeiro presidente da Nova Guiné? Da Nova Guiné? Como eu poderia saber? Eu também não sou bom em história? Ora, mas eu poderia... Vai facilitar pra mim? Está bem, vamos ver. Descrever em três palavras o fenômeno do Big-bang? Tá bom, o big-bang foi... Como chega? Eu acabei de começar. Eu já disse mais de três palavras? Mas eu ainda ia começar. Eu já terminei? Mas eu não vou responder a nenhuma pergunta sobre a área de trabalho para a qual estou me candidatando? Vai me fazer mais uma pergunta? Para me ajudar? Ok, estou esperando, obrigado! Espera um pouco, deixa ver se eu entendi: se um funcionário chegar a minha para reclamar do excesso de trabalho, com qual das três opções eu reagiria? Tudo bem, quais são as opções? O quê? Mas como? Essas são as três opções? Isso são opções: socar a cara do indivíduo, chutar os bagos dele ou jogá-lo pela janela? Eu não faria nenhuma dessas, eu não poderia tratar alguém assim. Covarde? Eu não sou um covarde! Eu sou estranho? Como é? O senhor está me ajudando com perguntas bem elaboradas? O quê? E eu não dou uma resposta digna do cargo? Eu sou um incompetente? Mas isso é um absurdo! O senhor é um louco, um desequilibrado, um deficiente mental, um imbecil. Pode pegar o seu emprego e comer com sabão! Vai-te à merda!

Sobre a obra

Crônica que retrata o absurdo de uma entrevista de emprego, engraçada e surreal. Quando o entrevistador vai além da imaginação.

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informações

Autoria
William Lial, escritor (poeta, cronista, ensaísta, contista e romancista), autor dos livros "Sombras", "Noturno" e "O mundo de vidro". Também colaborador de veículos literários e culturais como a revista online Cronópios e a Sane Society, da Europa.
Ficha técnica
Gênero: Crônica
Autor: William Lial
Data de produção: julho de 2009
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Doroni Hilgenberg
 

heheheh!!!
já no começinho eu teria desistido pois isso não é uma
entrevista e sim uma discriminação perversa que tira do sério qualquer pessoa.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/11/2009 19:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
William Lial
 

Obrigado pela leitura, Doroni. Numa entrevista como essa, você faria bem em desistir, rs!
Um beijo!

William Lial · Fortaleza, CE 20/11/2009 19:29
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