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A Hospedaria do Diabo - Parte VI
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 10/9/2007 23:19 · 121 votos · 8 comentários ·  
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overponto
Adroaldo Bauer

Já não cabe mais falar do que se trata para os que a vêm acompanhando. É, de fato, uma novela. E aprumo no arquivo para os novos leitores os capítulos de 1 a 6, para não ter mais linques que texto.
Boa leitura!



Apolo Zuni retornou à casa de Carlota à noite, sob aguaceiro descomunal. Ao chamá-la do portão tosco da pequena morada, estranhou que ouvisse a própria voz à porta da mulher. Não pensara em retornar ali tão cedo, ainda que a suspeita de que fosse mesmo pai do Piá não o abandonasse há bom tempo mais que por uma semana, aquelas em que a entrega de gás não subia o morro.
Uma réstia de luz mortiça projetou-se no acanhado alpendre desde o interior da casa, iluminando fracamente o perfil de Carlota convocando o moço encharcado a entrar. Zuni fechou a pequena sombrinha que tomara emprestado da própria Carlota em uma outra noite e a pendurou pingando num gancho na parede externa da casa. Sacudiu forte a capa de plástico azul da empresa e a transformou rápido numa pequena bola empapada, que enfiou num saco da mesma cor retirado do bolso de trás das calças de brim.
- Tiro as botas?
- Não carece, o assoalho está uma lagoa mesmo. Entra. Rápido que a ventania pode resfriar as crianças. Recém dormiram, as espoletas.
Carlota respondia e já o puxava carinhosa, com a mãozinha de unhas pintadas em vermelho vivo espalmada à nuca do homem. Para completar o gesto, mignon que era de porte, Carlota ficava à ponta dos pezinhos, uma bailarina em demi, quase voando. Era por essa razão que sempre retornava ali, explicava-se o homem já embevecido com o gentil e fino trato que lhe dispensava Carlota.

Aos 13 anos Carlota engravidara de um namoro que logo se desfez, razão porque abandonou a escola de balé em que dançava desde os sete. A família quis o aborto. Ela rechaçou, afrontou. Foi mandada para a casa de parentes no interior, onde ganhou Zelito e ficou lavando para fora apenas até juntar dinheiro que lhe pagasse a passagem e um mês de estadia numa pensão que localizou por jornal. Chegou na cidade com a roupa do corpo, mais duas de muda e uma sacola fedendo a fralda cagada, do que se desculpou de pronto com a dona da pensão.
- Isso é só por causa da viagem que foi longa, eu cuido bem das roupas, sei lavar muito bem, se a senhora precisar, inclusive lavo as daqui e cobro metade, bem baratinho.
- Não carece, mocinha. Entendo bem tua necessidade. Eu mesma já passei por isso. Vá entrando e depois nos entendemos. Teu quarto é aquele.
A mulher parecia de há muito conhecida. Afável, falava baixinho, gesticulando largo, mostrando cozinha, sanitário, pátio, tanque e uma ampla sala onde ficava a maior mesa que Carlota já vira até aquele dia. Dava bem umas 30 pessoas sentadas ao mesmo tempo. O “pensionato familiar só para moças” , como se lia na tabuleta à porta, acabava de receber a décima terceira pensionista. O neném não contava como hóspede, assim como os pequenos filhos de outras sete hospedadas ali também não, fossem meninos ou meninas, que podiam ficar com as mães até com 12 anos de idade, explicava um pequeno folheto que a dona da pensão passara a Carlota para “leitura com atenção”.

Apolo Zuni espreguiçava-se no apertado reservado improvisado por Carlota para separá-los das crianças na cama única da pequena família.
- Cama de trinca, que aqui não tem casal, brincava a mulher, zombando de si mesma pelas condições precárias em que sobrevivia.
O amor feito em silêncio deixara marcas nítidas em lençóis amarfanhados e denso cheiro de sexo mesclado à lavanda mentolada dele e ao toque de amor de florais dela.
Aproveitando o que lhe pareceu ser o melhor momento para tanto, Pólo disparou a pergunta que lhe martelava a cabeça semana sim, semana não:
- O Piá é meu filho, Carlota?



tags: Porto Alegre RS textos-ficcao textos-literatura
 
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Autoria   Adroaldo Bauer
Ficha Técnica  

Uma novela em produção

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Contato  

adroaldo.rs@terra.com.br

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Adroaldo querido, vc não tem pena do Zuni? Tô sentindo que a merda em que ele vai cair é pior do que a outra. Não dá pra vc fazer alguma coisa por ele? Desculpe mesmo, mas me conformo menos ainda com a trágica morte da Carlota agora depois do VI.
O VII já está a caminho não é mesmo?
Beijo ansioso
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 8/9/2007 01:00 
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Prof. passei pra reler e votar, logo já que vou estar estes tres dias fora. e lhe deixar uma braço, andre
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 9/9/2007 19:35 
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Atenção queridas pessoas que lêem essa noveleta:
Quem dispara a pergunta, aí ao no postado é Apolo Zuni, não Pólo, como ficou grafado.
Os que vinham acompanhando as demais partes anteriores devem ter se apercebido que Zuni, o moço do gás, começou a ser chamado de Apolo Zuni aqui nesta parte somente, embora antes viesse sendo cohecido por Zuni.
Como já falei antes, o enredo e mesmo a identidade completa das personagens ainda estão em construção.
Então: perdão!
Já está embalada a sétima parte, com novas revelações da incrível aventura de Carlota. Aguardem.
Ize,
estou pensando muito em tuas ponderações em defesa do Zuni, assim como já me fizeste pensar horas a fio sobre as crianças da Carlota.
Interação de pessoas que lêem com o autor durante a criação, em processo, é isso também, descobri por aqui.
Agradecido.
Grato pelo abraço, mestre André.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 10/9/2007 09:29 
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Adroaldo.
Estava eu caminhando por estas ruas daqui do over procurando uma amiga que disse que tinha postado e queria meu voto. Não a encontrei e de repente encontrei você. Que encontro legal, li seus poemas de manhãzinha, quase de madrugada e agora estou lendo sua novela. É uma pena que cheguei no capítulo adiantado, perdi o fio da meada. Será que encontro esse fio lá no seu perfil?
Um abraço,
Elizete
Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal (RN) · 10/9/2007 21:04 
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Se a novela de que falas é esta do postado em que conversamos, A Hospedaria do Diabo, o fio está aqui mesmo, bastando fazeres o daunlôudi do arquivo clicando no botãozinho azul ali em cima com uma palavrinha em inglês parecida com essa linda que acabei de escrever aqui e te possa parecer estranha porque novinha, novinha.
Se falas da outra novela, esta já concluída, impressa e de edição desse que vos escreve, O dia do descanso de Deus, há apenas três capítulos dela na rede, para ser justo com quem a tem comprado (700 exemplares já distribuídos) e pago os R$ 20,00 que custa, sendo que envio com frete grátis para qualquer lugar do Brasil.
Em querendo, envia teu endereço para adroaldo.rs@terra,com.br que ponho um exemplar no correio para ti.

Grato pelo interesse.
Abraço.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 10/9/2007 22:14 
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Adroaldo,
pois é, a Ize tem razão e as crianças, com quem ficariam?
A não ser que criasses uma parenta de Carlota que gostasse muito de crianças e ainda namorasse o Zuni.
Bjjsss
Lígia Saavedra · Ananindeua (PA) · 12/9/2007 18:38 
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Bah! Lígia, perdoa. Só agor reparei em tua indagação.
Passei aqui pra dizer que o Capítulo 7 já está no banco, passou edição e votação e nem tinha ainda respondido a ti.
E nem sei como responder ainda, menina.
Mas devo responder, com certeza devo, porque está num ganchinho pendurada essa tua preocupação que é a mesma da Ize com as crianças da Carlota.
Quanto ao Zuni... bem...
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/9/2007 21:57 
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Adroaldo,

desculpe a ausência, muito boa a sua prosa, meu amigo.

Parabéns!!!
marcio rufino · Belford Roxo (RJ) · 29/9/2007 17:44 
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