Muito se fala sobre a miséria no país, a fome, a falta de acesso à cultura, a necessidade de inclusão digital da população. Para que falar sobre isso?
A cena é outra: na churrascaria dos Jardins em Sampa, geralmente freqüentada por executivos, a avó bem vestida, elegante e alinhada almoça com a neta. A menina aparenta ter uns 9 anos, é falante e come na velocidade inversamente proporcional à quantidade de palavras que extrai em seu monólogo.
A avó vigia cada pedaço de comida, se comeu ou não, se cortou faz tempo e abandonou, porque pegou tanta batata frita e olha, o molho vai sujar sua roupa.
Enquanto a menina mastiga por milímetros e fala por kilômetros.
Um elogio da avó sobre uma amiga sua a faz discorrer como esta é seu clone, sua gêmea, separadas no nascimento.
A avó descrente olha para o prato de comida, o único da mesa, ao lado dos copos de suco vazios.
A menina conta sobre a promessa da mãe de lhe dar um ipod se tirasse 10 nesse bimestre, pelo menos em algumas matérias.
Mesmo conformada diante da impossibilidade de ganhar agora o presente, pois o 10 não virá, ela tenta explicar à avó o que é um iPod - uma caixinha que serve para "armazenar" - fala assim, com entonação entre aspas - músicas, todas as que você quiser.
A avó não se interessa muito, nem se surpreende.
A menina também não se surpreende com o prêmio oferecido para um fim de bimestre escolar. Para outras crianças, o mimo seria para o fim do ano. Para milhares de outras, seria inalcançável, irreal. Para milhões de outras, impossível, desconhecido, inexistente.
Mas a menina não se dá conta.
A mãe não se dá conta.
A avó não se dá conta.
Interessante texto, provoca reflexão. Me peguei aqui relendo e pensando, relendo e pensando... Gostei.
DaniCast · São Paulo, SP 12/4/2007 08:11
DaniCast,
Que bom que gostou. Tenho acompanhado algumas colaborações suas e comentários e também gostei.
Achei que falar de batata frita e ipod ajudaria a refletir mais do que falar direta e planfletariamente (se bem que nem sempre a gente resiste...) sobre a enorme desigualdade e exclusões mil que há no Brasil e que infelizmente parece invisível para alguns há gerações e gerações. Mas não será para sempre assim.
Abraços
Achei bem interessante tua crônica. De forma sutil você falou sobre o problema.
Gostei muito.
Parabéns!
Gostei muito, nota 10!
Vai ganhar um Ipod! (brincadeira, e de mal gosto)
Alessandra, obrigada.
Spirito Santo, valeu a presença.
Ricardo, todo mundo quer ter um, não é mesmo?
Abraços
Ei Cíntia quanta desigualdade neste país... e que bom ler o seu otimismo no comentário que fez acima. Ontem estava vendo na TV o escritor Luso-brasileiro-Angolano José Eduardo Agualusa falar de como nós brasileiros , assim como os angolanos, somos otimistas apesar de tudo que está ao nosso redor. E ainda segundo ele quanto mais distantes estamos do grupo privilegiado deste país, mais otimistas somos. Parece uma contradição não é mesmo?
Faço parte desse grupo e também acho que não será para sempre assim. Parabéns pelo texto. beijos
Gobira, obrigadão pela visita.
Amigo de tantos anos, nos falando através do Overmundo... o mundo é pequeno mesmo. Beijos
Cíntia
Bastante reflexivo seu texto CCorrales. Gostei! Parabéns.
Utopia quem sabe, mas um dia nas futuras gerações poderá haver uma sociedade mais igualitária em relação ao que pode e o que não pode. "Ipode" ser que todos possam...
Abração!
Nuuuu, eu adorei. É como um singelo tapinha nas bochechas rosadas de minha pseudo-intelectualização de ex-classe média. Eu sempre gostei de me auto-suscitar em trechos ou escritas que marcam pela... drogas, as palavras me fogem agora.
No mais, purista que sou, acho apenas que "quilômetros" ficaria mais legal.
Beijos e adorei.
Oi, Felipe,
Agora não tenho mais como mudar o "kilômetros" para "quilômetros".
Obrigada pelo comentário.
Abraços
É, eu só fui chato mesmo. hehehe
Abraços,
Olá CCorrales, parabéns pelo teu trabalho.
Carlos Magno.
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