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A Justa Medida

1
Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT
8/6/2009 · 9 · 16
 

Amostra do texto

A Jade Barbosa

(Conto de um leigo diletante da ginástica artística e leigo em medicina esportiva. O que se pretende é uma espécie parcial de reparação em forma de literatura. Que perdoem os especialistas pela fantasia).

Ela olhou para as arquibancadas. A plateia do Ginásio... em Marseille era em sua maioria de franceses. Ágata Rodrigues observava bem os rostos anônimos, animados e tensos pelo desempenho da equipe francesa. Ágata imaginou se o seu maiô de lã sintético todo azul estava bem fixo no corpo. A técnica da seleção brasileira, a suíça Ludmila Fassler, se aproximou e espirrou em ágata um spray aderente ao corpo e chamou a atenção da garota que parecia desconcentrada. Fassler que havia catapultado o seu país ao primeiro time da ginástica artística tinha agora o compromisso de fazer o Brasil continuar trilhando o seu caminho de conquistas. Ágata era apontada por quase todos os especialistas como sucessora natural de Ana Paula Valentim, campeã mundial sobre à mesa em três mundiais consecutivos e medalhista de ouro no mesmo aparelho quatro anos atrás nos Jogos Olímpicos realizado em Tóquio. Ana Paula com vinte e três anos participava de sua última olimpíada de verão. Ágata com seus dezesseis anos, uma medalha de prata no geral individual e uma medalha de ouro nas barras assimétricas no recente mundial organizado em Amsterdã, dividia com Ana Paula toda a responsabilidade com de conduzir o Brsil ao triunfo, a melhor participação jamais imaginada.
Contudo, Ágata pensava se as pessoas no ginásio a consideravam sexy. Uma menina bonita com muitos fãs pelo mundo. Coisa fútil para se interrogar, censurava-se a garota, em tão importante momento. Mas acreditava ser uma espécie de alívio para a dor quase insuportável no ombro direito. Olhou os juízes, e fez para si mesma uma nova interrogação: será que eles nos invejam ou odeiam? Ficam lá, sentados, descontado pontos pela nossa aparência, por uma aterrisagem com os joelhos flexionados, pelo grau de dificuldade dos movimentos, como se fosse tranquilo e sem riscos tentar um salto acrobático. Ágata voltou a se preocupar com os olhares curiosos, espantados e cobiçosos dos espectadores, e sentenciou, “Nunca vou posar nua, mas gostaria de ser rainha de bateria de uma escola de samba”. Alisou o ombro dolorido. Já havia tomado seis comprimidos de diclofenaco sódico. Temia o exame antidoping. Porém, o médico garantiu que não havia perigo, pois todas as substâncias contidas no analgésico não estavam vetadas pelo controle antidoping do evento. Ágata esfregou o ombro novamente, não acreditava que a luxação estivesse praticamente curada. Se assim era qual o motivo da dor? Ludmila conversava com o mito Ana Paula Valentim, e com as tensas Maria Luísa Caron e Larissa Lima da Silva, as duas co dezesseis anos, também. A quinta ginasta, Vitória Bastos, teve uma entorse no pé esquerdo durante o treino da noite anterior, e estava fora da competição e não havia condições de substituí-la a tempo. Porém, ela ficou com a delegação depois de ir a um hospital em Marseille e constatar que teria de ser submetida a uma cirurgia assim que possível. A equipe brasileira era jovem, entretanto potencialmente competitiva e de postura elegante.
As disputas pelas medalhas começaram. Ágata prestava atenção nos movimentos das chinesas nos exercícios de solo e dava uma rápida espiada nas polonesas que encaravam o salto sobre à mesa. Vinte equipes tentando doze vagas, e várias ginastas que viveram quatro anos de dedicação, apreensão e sacrifícios para estarem em Marseille lutando para obter uma das vinte e quatro vagas para final da competição geral individual por aparelhos, para uma das oito vagas para a final de cada aparelho. Ágata observou os juízes, enquanto ouvia as instruções da técnica. Ludmila falava e espiava discretamente a seleção suíça se apresentar. O Brasil estava no próximo rodízio juntamente coma Romênia (favorita ao título), a República Tcheca e a Coreia do Sul. Primeiro a trave, aparelho que Ágata tinha extrema dificuldade, mas seria a última a se apresentar. A técnica escalou a equipe para a performance em uma ordem que acreditava ser a melhor para conter o nervosismo das duas menos experientes. Primeiro Ana Paula (para “abalar”), depois a pequena Maria Luísa Caron, posteriormente Larissa e Ágata Rodrigues fechando a série para a seleção brasileira. Vitória Bastos por causa da entorse, somente assistiria e vibraria como lhe fosse possível.
Ana Paula carregava uma nota de partida alta na trave, e fez todos os movimentos obrigatórios e improvisou um tímido passo de samba no aparelho para delírio dos franceses. Maria Luísa, tensa mais eficiente fez o essencial. Larissa teve uma queda quando tentou um mortal de costas. Depois encerrou com uma saída cravada. Coisa que Ágata, a despeito de suas dificuldades já conhecidas com o aparelho e o incômodo no ombro direito, realizou com perfeição logo após uma apresentação surpreendente. Prosseguia-se o rodízio e o Brasil partiria para as barras assimétricas. Mas Ágata olhava a menina de dezoito anos que assombrou o público e o mundo da artística quando conseguiu o título no individual geral e conquistou medalha nos quatro aparelhos, e estava lá em Marseille com apenas uma companheira, pois o país ainda não possuía uma equipe para participar da competição: a irlandesa de origem equatoriana Monalisa Kirkpatrick Carrizales. A técnica Fassler despertou Ágata de seu exame apurado e deslumbrado da adversária. O Brasil ocupava o sexto lugar antes da apresentação nas barras assimétricas especialidade de Ágata. Ana Paula, formidável; Maria Luísa, discreta; Larissa, ousada; Ágata com o ginásio em silêncio olhares fixos na campeã mundial fez vários giros e trocas de barra com tamanha precisão, e no final, a saída com dois mortais capturou os assistentes em transe para uma exultação total. Passado alguns minutos, o brado “Vive La France” ecoava no local, deixando momentaneamente Ágata com sua dor violenta no ombro. Ela encostou-se no banco reservado as brasileiras e chorou, a técnica chamou o médico que fez uma análise minuciosa do ombro da menina. Ágata foi levada para o vestiário e lá tomou mais dois comprimidos de diclofenaco sódico. O médico, Dr. Vieira, um homem baixo perto da esguia e elegante Ágata com seu 1m e 73 cm, disse categoricamente, “Você vai ter que ir para o sacrifício ou desistir. Julgo que esteja com uma embolia no local da luxação”. Ágata permaneceu parada estarrecida, queria perguntar por que o osso deslocado não se fixou sem seqüelas. Ela havia se machucado oito meses antes do mundial, e o mundial foi realizado seis meses precedentes às Olimpíadas. A adolescente mexia o braço para sentir a intensidade e a gravidade da dor. A sinceridade do médico a assustou e irritou. Ágata desejava perguntar, “Por que não disseram que a lesão ainda não havia se curado por completo?”. Segurou um grito de transtorno ou indignação, assim como o choro de sensação de engano, de frustração. Não queria ser indulgente com o médico ou a comissão técnica. Porém, eram quatro anos de companhia e empenho rigoroso. As lágrimas não brotaram nem a autopiedade. Sem a família ali (os pais e as duas irmãs caçulas gêmeas), aquela temporariamente era a sua família.
Ágata retornou ao ginásio. Maria Luísa a abraçou, ela retribuiu o gesto com afagos nos cabelos curtos da menina ruiva. Maria Luísa a informou que Monalisa Carrizales ocupava o primeiro lugar no geral e Ágata era a quarta melhor colocada somando os dois aparelhos, e o Brasil estava posicionado em quinto lugar. Depois dos informes, elas se juntaram as outras duas jovens brasileiras, e no rodízio era a hora do salto sobre a mesa. O maior grau de dificuldade observando a perfeita execução seria de Ana Paula e da chinesa Liang Ni. No rodízio, nenhuma das quinze atletas assustavam Ágata. O que a apavorava, ao encarar os juízes com suas severas críticas em relação à nota de partida, era a dor no ombro. Ela não poderia executar nada contrário ao texto, mas duas piruetas e um mortal e meio com o ombro direito latejando parecia dolorido demais para o primeiro salto e dois mortais completos para o segundo salto no intuito de buscar a final olímpica no geral individual e no aparelho surgiam como autoflagelação desnecessária e exibicionista. Entretanto, essa era a jornada de um atleta: a Olimpíada. Ana Paula, tricampeã mundial do aparelho simplesmente, fascinou a arquibancada; Maria Luísa Caron foi competente; e a nova “pérola negra” da ginástica tupiniquim, Larissa, alçou voo sobre a expectativa de todos e com sua nota praticamente colocara o Brasil na final olímpica por equipes. Ágata preparou-se para o primeiro salto, correu, leve flexionar dos joelhos e aterrisagem sem equilíbrio que a fizeram dar dois passos no tapete, mas se mantendo de pé. O ombro pediu socorro, as câmeras do mundo todo filmaram a expressão de dor no rosto da candidata a alguma medalha olímpica. O segundo salto foi executado com atitude elegância. Ágata sorriu porque vencera o próprio corpo ao cravar a aterrisagem. Não obstante, o ombro como não pudera deixar de ser, permanecia ali desafiando a menina a ir mais longe na inconsequência.
Aliviadas e serelepes, elas brincaram no solo. Ana Paula Valentim fechou o dia com o segundo lugar no geral individual; Maria Luísa fez as sua parte, contudo teve uma queda de nádegas no tablado e se desequilibrou algumas vezes, mas por contagiar os franceses com sua figura mignonne arrancou aplausos; Larissa Lima da Silva conduziu o ginásio ao êxtase se classificando para final do solo dali a cinco dias; Ágata com a quase dormência do ombro digladiou contra a embolia e ao som da “Carmina Burana” (censurada inicialmente pela suíça Fassler), ela fez todos os movimentos com habilidade e charme, uma sequência admirável que deu a ela a segunda melhor nota do exercício. Ágata ficou atrás apenas da irlandesa Monalisa Kirkpatrick Carrizales. Ágata fechou o primeiro dia de competição com a quinta colocação no geral individual, a mesma posição da equipe brasileira.
Na vila olímpica, na qual fazia seis dias estavam hospedadas, as conversas mudaram da expectativa sobre o desempenho e as reações que teriam ao entrar no ginásio para os acertos e falhas daquele dia, o uniforme e apresentação das oponentes. Falavam pouco sobre garotos nesses dias em que já pisavam o solo francês. Enquanto as meninas conversavam após o jantar e preparavam-se para dormir, Ágata e Vitória eram submetidas à massagem e tratamento com gelo e ingestão de mais analgésico e, agora, acompanhados de um comprimido de tranquilizante. No dia seguinte, desejavam assistir à apresentação das equipes masculinas, mas a comissão técnica vetou o pedido, indeferindo-o para que as garotas fossem à cidade de Nice em busca de paz e fuga do barulho infernal do local de disputas. Readquirir o foco e a concentração eram os pontos profícuos para Ludmila Fassler. Ágata imaginava como solicitar à dispensa da disputa por equipes, porém se lembrou que não havia substituta, e Vitória estava em situação pior; condenou-se por não ter sido mais enfática com os médicos, que nada diziam com claridade. Ana Paula, ídolo de Ágata e sempre sincera, disse-lhe que deveria buscar, após a competição, um médico particular, pois tanto esforço pode atingir o nervo braquial e dificultar o movimento do braço direito. Ágata agradeceu, contudo imaginava como poderia se sua família não possuía poder aquisitivo suficiente para bancar uma intervenção cirúrgica e o salário dela, ou ajuda de custo, era irrisório, delas todas, cinco meninas talentosas e desvalorizadas pela Confederação Brasileira de Ginástica. Situação calamitosa, embaraçosa e um tanto humilhante para quem deu tudo de si.
Na noite anterior a disputa por equipes, Ágata sonhou com rosas caindo sobre seu corpo nu. Não era um sonho erótico, nem memória persistente do filme “Beleza Americana”. Não quis interpretar o sonho, rosas vermelhas cobrindo o corpo. Ela acordou entorpecida por causa do tranquilizante. Julgava uma decisão temerária dos médicos receitarem tal remédio para ela. Mas, enfim, ela sempre fora uma menina obediente. Recompôs-se com um banho frio e um café da manhã reforçado. Conversou via Internet com os pais e as irmãs, vendo-os pela webcan, pela segunda vez desde que chegara a Marseille; disfarçou a dor no ombro e demonstrou um sorriso de felicidade. Era hora da partida. O ginásio fervilhava para empurrar a seleção francesa do modesto oitavo lugar para o cobiçado pódio olímpico. Ágata, apesar do entusiasmo, permanecia no recôndito dos seus pensamentos com temor à respeito do ombro. Procurou distrair-se conversando com Maria Luísa que tinha a mesma idade dela, mas todos tratavam-na como se fosse mais que a pequena Maria. O assunto era dois ginastas com que Ágata esbarrou na vila e que ela havia considerado lindos, um atleta argentino e outro húngaro. As risadas foram interrompidas por Fassler que comunicou que no rodízio o Brasil estava com os Estados Unidos, a Suíça (coincidência irônica) e a Ucrânia. Primeiro aparelho: salto sobre a mesa. Mas antes de verificar os cabelos, a maquiagem, o maiô das meninas, Ludmila Fassler saiu um pouco do seu habitual de ser compenetrado e rígido para dizer que carregava uma enorme satisfação e um orgulho desmedido pelos resultados alcançados até o momento: final por equipe, Ana Paula e Ágata na final geral individual, Ana Paula e Ágata em todas as finais individuais das provas por aparelhos (além delas, a irlandesa Monalisa, a chinesa Liang Ni e a romena Karinna Dumitrescu estavam nas finais de todos os aparelhos), ainda Larissa Lima da Silva na final do solo. As meninas se abraçaram e congratularam-se, firmando em seguida um pacto, dá tudo de si e mais além, e ir até o limite do corpo. Ágata aceitou o trato, esquecendo temporariamente do ombro. Logo depois, lembrou dele que não firmara o contrato. Olhou as arquibancadas e sentiu solidão apesar do apoio das garotas e do discurso inesperado de estima da técnica. A Suíça iniciou sua apresentação no salto sobre a mesa. Em seguida, as estadunidenses que decepcionavam até o momento ocupando na fase de classificação o quarto lugar. As meninas ucranianas com arrojo e elegância colocaram em arrebatamento catártico o público francês. O Brasil, então, tinha que superar a Ucrânia e as outras concorrentes que já encantavam os juízes. Ana Paula Valentim fez jus ao seu favoritismo no aparelho rumando ao bicampeonato olímpico; Maria Luísa conseguiu um salto seguro, porém sem ousadia; elemento que não faltou ao salto acrobático de Larissa; Ágata transcendeu a dor partindo para o seu salto duplo mortal e para aterrisagem com os joelhos um pouco flexionados, mas ainda graciosa e cheia de atitude.
Depois desse momento, a competição acirrou, e Ágata Rodrigues imaginava que no fim do dia o seu ombro seria um inimigo imbatível. Tocava “Dance Queen” do grupo sueco Abba, enquanto o segundo rodízio não começava. O Brasil se dirigia para o solo. Ágata teve flashes de dias atrás quando a luxação no ombro parecia se impor como um invasor que buscava um hospedeiro. “Ágata você consegue. Quatro anos de sacrifício para jogar tudo fora assim. Esporte é superar o limite do corpo”, repetia a menina como se fosse um mantra a ser decorado e incorporado. As exibições no solo começaram. Ana Paula teve sua primeira falha. Ao tentar um duplo twist carpado colocou o pé esquerdo fora do tablado; Maria Luísa recuperou-se do dia da classificação e irrompeu-se para o outro lado, a das ginastas promissoras; Larissa teve alguns desequilíbrios, mas foi eficiente; Ágata com sua “Carmina Burana” deixou aos seus pés os franceses. Com tudo o seu semblante contorcido e lábios tortos preocuparam a técnica suíça. Imediatamente, o Dr. Vieira depositou uma bolsa de gelo no ombro da adolescente. Os jornalistas brasileiros insistiam, com visível irritação, que Ágata e as outras meninas dessem alguma declaração. Porém as meninas seguiam a orientação da comissão técnica para não conversar com os jornalistas. Elas estavam blindadas e a técnica Fassler possuía essa inclinação a superproteção, assim era com suas jovens compatriotas no tempo de treinadora da equipe suíça que as impedia de dar entrevistas durante as competições.
Chegara à hora do terceiro aparelho. A Romênia liderava, com a China em segundo, a Espanha era momentaneamente detentora da medalha de bronze e o Brasil mantinha a quinta posição, atrás da surpreendente Bulgária. Os Estados Unidos para frustração e choque de muitos ocupavam o sexto lugar. A trave com seu comprimento de quase 5,00m e largura e espessura racionalmente exíguos exigia de Ágata um deslocamento mental pungente. Ela precisa se ver e sentir-se sozinha sem os olhares da técnica, das companheiras, das outras ginastas e principalmente do público. A dimensão dessa fuga era complicada, complexa, pois a mente deveria conter apenas os movimentos do exercício com velocidade, elegância e destreza. A corrida, as posições sentada, deitada; os saltos mortais; a estrela tudo na mente límpida e ao mesmo tempo lembrar-se de que ela estava sozinha com a escuridão como proteção e a iluminação que se centrava na trave como guia. Iniciava-se o rodízio, o Brasil se apresentava. Ana Paula estraçalhou se recuperando totalmente do erro no solo com uma nota de partida altíssima e quase não houve descontos; Maria Luísa Caron passou sem erros, segura, mas sem arrojo; Larissa arrancou aplausos entusiasmados dos espectadores em Marseille; Ágata Rodrigues superou sua própria expectativa com brilhantismo, leveza e força em completa sintonia, simbiose inesperada.
Ouvindo a música “Ulysses” da banda Franz Ferdinand, Ágata conversou com sua principal rival; Monalisa Carrizales elogiou em francês (pois Ágata não falava inglês, mas, sim, francês e a irlandesa não pronunciava uma palavra em português) o desempenho da jovem brasileira, “Vous êtes formidable”. Ágata cumprimentou a garota, “Merci. Mais je suis sûr que vous ne sortiez sans les médailles”. A jovem sorriu e Ágata soube que a adversária, antes de tudo, era uma adolescente tentando realizar o sonho de criança igual a ela. Depois, a brasileira recolocou a atenção na competição. A medalha de ouro seria disputada apenas entre as romenas e as chinesas, enquanto o bronze estava em aberto, quatro equipes tinham chance: Espanha, Brasil, Estados Unidos e Bulgária. As barras assimétricas indicariam o rumo das medalhas por equipe nas Olimpíadas de Marseille. E lá foram as meninas brasileiras de maiôs azuis para a batalha. Ana Paula Valentim girava, se atirava para a barra menor, fazia troca de mãos aceleradas e terminou consagrada e exausta; Maria Luísa realizou os exercícios de suspensão e as posições passageiras com trocas hábeis de mãos aceleradas de forma adequada; Larissa foi perfeita nos exercícios com giros dinâmicos e impulso inspirador; Ágata, campeã mundial do aparelho em Amsterdã, sentiu o apoio da torcida, já que a França estava fora da disputa por medalhas, e ela começou seus exercícios com elegância, concentração, originalidade, equilíbrio seguro nas barras e uma expressão de sofrimento que corrompia seus traços de adolescente mestiça de pele trigueira e cabelos pretos com rabo-de-cavalo. Sua saída foi magistral, cravada com porte e desafio ao ombro insolente e a omissão médica. Sempre se queixava de dores, mas tudo era adiado, etapas da Copa do Mundo, treinamento, mundial de ginástica, mais treino e olimpíadas. Mas não era hora de crise, somente de expectativa. Ansiosas as meninas ficaram de mãos dadas aguardando, enquanto a China comemorava o ouro improvável e a Romênia, ex-melhor equipe do mundo e favorita absoluta, chorava a decepção de cor de prata reluzente. Enfim, o resultado: inédita medalha de bronze. Ágata abraçou as garotas segurando um urro de dor por causa do ombro, substituindo-o por um grito estridente de vitória, batalhada as duras penas, via crucis percorrida contra e consigo mesma.
No pódio duas equipes transbordantes de felicidade e uma angustiada por não encontrar explicações para que os outros chamariam de fracasso. As adolescentes romenas viviam seu inferno astral. Ágata ao receber a medalha de bronze desejava desistir, porém teria de resolver com seus pensamentos mais tarde, sabia ela, o motivo de sentir a incompreensão da desistência. As quatro meninas tupiniquins posaram para os fotógrafos, porém não deram entrevistas.
Na Vila Olímpica, Ágata e as garotas sentiam-se glorificadas. Larissa chegou a afirmar “Deus existe”. Mas, a jovem Ágata daqui a dois dias iria lutar pelo titulo olímpico de ginasta mais completa do planeta. Passou estes dias cuidando da dor do ombro, temendo alguma fissura na parte superior do braço ou que a embolia afetasse o nervo braquial. Queria acusar alguém pelo suplício que vivia co

Sobre a obra

Dedicado a Jade Barbosa. jovem ginasta durante uma fictícia Olímpiada em Marseille, tem que enfrentar a dor e a alegria, a relização de um sonho confrontando o descaso e o sofrimento de uma dor no ombro devido a uma luxação mal curada. Contribua para a cirurgia da lesão do pulso direito da Jade e da sua crise renal adquirindo camisetas no site oficial da ginasta, www..jadebarbosa.com.br/index2.html

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informações

Autoria
Wuldson Marcelo, cuiabano nascido em 1979. Publicou artigos e contos em sites e jornais do Brasil. Entre eles, contos no site www.releituras.com.br e no jornal "Rede Bom Dia" do interior de São Paulo.
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Juliene Leite
 

Uma delicada e merecida homenagem a esta jovem que, infelizmente, sofre as consequências de graves lesões e de sérios problemas financeiros. Ainda jovem tentaram transformá-la em mito. Mas, os mitos dos dias atuais são efêmeros e as pessoas descartáveis. Parabéns pelo conto e pela solidariedade!

Juliene Leite · Cuiabá, MT 22/6/2009 12:37
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Greyce Kelly Cruz
 

poxa
é uma pena né?
mas a homenagem foi bastante justa!!!
vou entrar no site pra contribuir,ok?

Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 27/10/2010 00:38
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alcanu
 

Excelente narrativa que evoca toda a dura realidade que acomete essas pobres criaturs, que 'perdem' a melhor fase de suas vidas em rigorosos treinos e exigências terríveis para glorificar aos seus países !
Até quando vai essa tirania ?
Tudo em exagero faz mal !
sejamos mais comedidos !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 27/10/2010 00:44
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Greta Marcon
 

Pucha! Fiquei emocionada com seu relato; o governo brasileiro devia dar mais apoio aos seus atletas que se sacrificam para glorificar nosso país. Coisa de terceiro mundo...
Beijosss

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 27/10/2010 02:00
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marilia carboni
 

Greta tá certa!!!! Vc tá certo...parabéns pela iniciativa.
Beijocas !

marilia carboni · Londrina, PR 27/10/2010 11:14
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Wuldson Marcelo
 

Obrigado, Kelly. Como o conto de é 2009, ele foi publicado no auge do problema da Jade. Ela precisava fazer uma cirugia no punho direito. Ela fez e já está recuperada, tanto que conquistou a medalha de bronze no salto no mundial de Roterdã neste mês. Agora, ela pode ser a ginasta que sonhou ser.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 15:19
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Wuldson Marcelo
 

Eu concordo com você, Alcanu. O treino é tão intenso e a cobrança em relação ao físico tão severa que se configura uma tirania, que se esconde atrás do "só assim é possível vencer".

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 15:21
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Wuldson Marcelo
 

É Greta, tem a bolsa atleta, que é um valor inexpressivo diante das exigências que se cobra de um atleta para que ele chegue a ser de alto nível. Aqui no Brasil pouco se investe e muito se espera. Não há política pública para auxiliar um atleta de sua formação até à profissionalização. O presidente do COB já está no cargo há quase três décadas, o Brasil circula em relação a resultados em Olímpiadas de vigésimo quinto a trigésimo sexto e todos comemoram. Mas a avaliação do resultado brasileiro, o Carlos Nuzman recusa a fazer, sendo que o Governo liberou uma excelente soma para a disputa em Pequim 2008.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 15:29
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Wuldson Marcelo
 

Obrigado Marília, pela leitura e comentário.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 15:29
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kfarias
 

Bravo, Bravíssimo!!!

kfarias · Águas de Lindóia, SP 27/10/2010 16:10
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Wuldson Marcelo
 

Valeu KFaria. Bravo para a Jade pela volta por cima.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 16:15
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Wuldson Marcelo
 

Quer dizer KFarias.

Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT 27/10/2010 16:22
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Vasqs
 

Sou um fã da ginástica ,principalmente
da sensualidade da "dança" que as
meninas fazem no solo. Mas não é dança
e tem competição e com ela essas desditas.
Bela homenagem.
abraço

Vasqs · São Paulo, SP 27/10/2010 18:57
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Doroni Hilgenberg
 

É só o Brasil que não valoriza as Ginastas que num exemplo de superação dão tudo de si, mesmo se expondo a riscos e perigos, sem as devidas avaliações, que lhe cabem por direito, senão dever.
Este é o país do futebol e samba, ( fogos de artificios) sem noção do que seja altruismo, perseverança e abnegação.
Bela homenagem a Jade.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 27/10/2010 21:28
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DAI*
 

ADOREI ESSE TEXTO" VC ESCREVE MUITO BEM A PONTO DE DEIXAR QUEM LÊ BASTANTE ENVOLVIDO COM A HISTÓRIA! PARABENS! CONTINUE ASSIM! BJSSSSSSSSS

DAI* · Recife, PE 29/10/2010 14:19
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Léia Alves Moreira Pierucci
 

bacana viu!!!
bjs

Léia Alves Moreira Pierucci · Diamantina, MG 1/11/2010 22:38
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