A leveza da falta*

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Publicações Iara · São Paulo, SP
3/10/2010 · 4 · 0
 

Por Luciana Miranda Penna

Retratos da Garoupa, de Fernanda Grigolin, é um livro de leveza inacreditável para o tamanho da dor que trabalha. A autora quando tinha menos de sete meses perdeu seu pai. A única imagem que restou de ambos juntos é a da mão dele sobre ela neném. Tal fragmento é uma espécie de emblema que atravessa o livro todo, apesar de só revelar-se ao final. A origem do livro, podemos pensar, é em boa medida também seu fim. A perda que a foto revela é também a possibilidade do reencontro de ambos — e mais: de Grigolin sair dele com a sua própria voz, e ela o faz.

De dentro da voz do pai perdido, que poderia ficar para sempre melancolizada falando dentro dela sem destino, Grigolin encontrou uma saída para fazer sua ficção — e enlutar. Retratos da Garoupa pode ser visto, entre tantas outras chaves possíveis, como um trabalho de luto. Acompanhamos o luto de Grigolin, mas a autora empreende essa jornada arriscada com tamanha lucidez de seu gesto, da despedida que ele encerra e, sobretudo, do projeto estético que ele implica, que o livro não poderia ser menos do que podemos ver e ler. Trata-se de um livro de autor, de fotógrafa e de escritora, de Fernanda Grigolin. O livro poderia ser um brinquedo mórbido, uma jornada vacilante diante da tarefa hercúlea a que se propõe, mas não é, tem a justa medida de imagem, de palavra e de silêncio. De leveza e beleza que o luto pode assumir quando levado a cabo.

Fernanda Grigolin não nega a ausência, as lacunas, a morte. Nelas encontra uma possibilidade vital, criativa. Assim, a foto da mão do pai sobre ela, emblema da perda, deve ser lida também como estampa do nascimento da autora. E não só esta foto como tantas outras que o livro traz. Fotos que não se tratam de legenda do diário, mas narrativa paralela que dialoga com o texto escrito. Retratos da Garoupa, ao lidar sem pejo com a falta, presenteia-nos com presença, com ficção, com uma resposta original e ética para a dor. Estética.

Há um poema do Brecht em que ele presentifica a morte da mãe e exclama no último verso: ‘Quanta dor foi preciso para que ela se tornasse tão leve!’. Tal exclamação não difere muito da que me tomou ao ler Retratos da Garoupa. Creio que muitos sentirão o mesmo e quiçá como eu: em júbilo.



Luciana Miranda Penna é uma profissional das letras, escreve, leciona, edita. Seu blog, Sorriso de Medusa, esteve na mostra Blooks, literatura digital, 2009, no SESC Pinheiros, a curadoria foi de Heloisa Buarque de Hollanda. Integrou a antologia SESC LITERATURA CELULAR, com curadoria Marcelino Freire. Participou do romance coletivo Circuvago - realizado no Laboratório Literário do escritor mexicano Mario Bellatin. Selo Demônio Negro. Tem experiência como crítica de arte e já teve roteiros de cinema premiados. Mantém o blog Sorriso de Medusa http://lucianapenna.com.

* Originalmente publicado em www.publicacoesiara.com.br

Sobre a obra

Texto sobre o livro de estréia de Fernanda Grigolin, Retratos da Garoupa. O lançamento será em 23 de outubro. Mais informações na agenda.

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Luciana Miranda Penna
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