A libertação da mulher e do sexo

1
João de Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
15/3/2011 · 3 · 1
 

Amostra do texto

...

POR ESTAR COMPROMETIDA COM A REPRODUÇÃO, a mulher é naturalmente limitada em diversos aspectos físicos, o que prejudica sua performance no mundo. É de se esperar, portanto, que com o progresso econômico e tecnológico essas limitações tenham sido superadas ou minimizadas. Observando as sociedades tribais, os antropólogos constataram que em locais nos quais existe abundância de recursos, as mulheres tendem a ser mais livres que em ambientes inóspitos. De modo geral, portanto, quanto mais avançada materialmente for uma sociedade, mais livre será a mulher. Os anticoncepcionais são talvez o exemplo mais evidente de como as tecnologias podem libertar a mulher, mas muitos outros recursos do mundo desenvolvido poderiam ser citados. No fim do século 19 a bicicleta foi mais importante para a emancipação feminina que o movimento feminista, e nos dias de hoje existem tecnologias para reconstruir o hímen, realizar abortos seguros e por fim à menstruação.

Por outro lado, as tecnologias e a vida civilizada tiveram o efeito oposto sobre as habilidades masculinas, fazendo os homens tornarem-se dispensáveis. A preciosa carne, que sempre foi um dos trunfos do homem nas sociedades tribais, pode ser facilmente adquirida em supermercados e restaurantes; a força física tem pouca utilidade no ambiente urbano, e a agressividade fica obsoleta diante da proteção do estado ou de armas de fogo. Como colocou uma revista feminina: “Para que você pensa que precisa de homens? Bebês? Pense em inseminação artificial.” É a redução do homem a espermatozóides em um tubo de ensaio.

Devemos pensar, portanto, que a transição para as sociedades agrícolas — que produziu um ambiente protegido das forças da natureza com uma abundância de recursos nunca antes experimentada — pode ter propiciado uma maior tendência das mulheres para o comportamento independente. A nova situação poderia subverter a ordem sexual natural provocando um acentuado deslocamento do equilíbrio social em direção à emancipação feminina. É de se esperar também que quando o trabalho metódico e previsível da agricultura substituiu o heroísmo da caça, e a dócil convivência nos grandes grupos substituiu a vida política tribal, os impulsos masculinos tenham sido direcionados mais intensamente para o sexo, aumentando a importância da mulher na vida social.

Na prática, no entanto, ocorreu o oposto. Os motivos que levaram à opressão da mulher nas sociedades agrícolas não são claros, mas podem estar relacionados a um fenômeno denominado hipertrofia cultural. Nos grupos de caçadores e coletores nômades certas ordens emergem de forma natural e espontânea. Com o surgimento dos grandes grupos, no entanto, tais mecanismos naturais de organização social foram subvertidos, passando a funcionar de forma anômala. Foi necessário, assim, desenvolver e impor uma rígida ordem política para administrar a sociedade, como também uma rígida ordem sexual. Desta forma, o estado e a religião foram criados. Uma das principais funções da religião era fornecer uma “correção moral” que permitisse que milhares de indivíduos convivessem sem com isso se matarem uns aos outros. Essa imposição artificial de uma ordem que deveria ser natural pode ter levado a sua exacerbação.

No que diz respeito às relações entre os sexos, numerosas referências na tradição judaico-cristã enfatizam a necessidade de se controlar a mulher. O mito de Lilith é um dos exemplos mais conhecidos. Lilith foi a primeira mulher de Adão, mas, por questionar a sua posição de ficar por baixo durante o ato sexual, Deus mandou-a para o inferno substituindo-a pela submissa Eva. (É curioso que, dado o seu destino, nos dias atuais Lilith seja celebrada como nossa primeira feminista. Pode se argumentar que esse deus era machista, mas, dentro da tradição judaico-cristã da qual Lilith faz parte, esse argumento não faz sentido.)

Outra forma de interpretar a forte dominação masculina presente nas sociedades agrícolas enfoca a interdependência social. Em uma tribo existe uma razoável independência dos indivíduos e famílias, isto é, a maior parte dos indivíduos sabe caçar, coletar, fabricar coisas e fazer política e guerra. Em sociedades agrícolas, no entanto, existe uma maior especialização, portanto, uma maior interdependência das pessoas e uma maior valorização da posição social que cada um ocupa. Tal situação, em conjunto com a formação do estado, pode ter levado a uma hipertrofia da hierarquia social, culminando com reis e imperadores em uma hierarquia que estava muito distante daquela expressada pelas sociedades em seu estado natural. Como uma das principais funções da política em uma tribo é dividir as mulheres entre os homens sem que eles tenham que se matar para isto, esta hipertrofia da política pode ter levado a uma hipertrofia da dominação masculina sobre as mulheres.

A situação descrita acima se refere às antigas civilizações agrícolas de economia tributária. A introdução da economia monetária, no entanto, subverteu as relações de poder. Neste novo sistema o indivíduo não mais precisava estar integrado à ordem social, com sua rígida hierarquia, para obter seus recursos e levar sua vida. O poder político, baseado na terra e nas ligações entre indivíduos, foi ameaçado por um poder fluido e descentralizado, que funcionava de forma autônoma e era indiferente à ordem social. Este novo sistema democratizou o poder colocando-o nas mãos de cada indivíduo, independente de sexo, raça ou posição social. “Com um punhado de moedas e tentando tirar partido de qualquer situação, o indivíduo faz seu aparecimento na história.” Este sistema, que surgiu na Lídia de 630 AC., se espalhou pela Grécia por volta de 550 AC. O sistema político que emergiu, adaptado à nova situação econômica, foi a democracia, na qual os indivíduos, e não mais a antiga ordem hierárquica de relacionamentos interpessoais, eram os agentes sociais e detentores do poder político.

Na Lídia de 600 AC., onde se iniciou a revolução monetária, o historiador grego Heródoto observou espantado que as mulheres lídias podiam escolher seus próprios maridos. Na juventude elas iam para casas de prostituição e acumulavam dinheiro, que era depois usado para pagar o dote do casamento. Embora no mundo grego as mulheres não dispusessem de nenhum direito político, não podendo sequer sair de casa sozinhas, no mundo romano, muito mais secular, elas eram cidadãs, desfrutando de mais direitos que em qualquer outra civilização. É um fenômeno notável que, à medida que a sociedade romana se desenvolveu, as mulheres se tornaram cada vez mais emancipadas.

Com o colapso da civilização greco-romana e da economia monetária essa tendência se reverteu e a mulher voltou a ser controlada. Os europeus da era medieval invejavam as riquezas de Bizâncio — a parte do Império Romano que sobreviveu ao colapso —, porém criticavam esta avançada civilização argumentando que seus homens eram efeminados e suas mulheres usavam maquilagem. Mas os bravos bárbaros ocidentais não ficaram imunes às influências materiais por muito tempo, e com a prosperidade econômica que se deu a partir do ano mil o feminino começou a retornar.

Por volta do século 12, a idéia do amor romântico, na qual o amante declara devoção à sua amada, começou a se desenvolver, e durante a renascença o humanista Corélio Agrippa defendeu a superioridade do sexo feminino. Essa tendência se acelerou a partir do século das luzes, quando ocorreu a primeira onda de emancipação feminina da era moderna. No ambiente dos salões da época, “a mulher é soberana; ela dirige as conversas, apóia os filósofos, sua influência fazendo-se sentir até na área da política e da economia.” De acordo com o historiador André Bourde, “Seja em Versalhes ou nos jardins do Palais-Royal, nos salões ou nas butiques de moda, as mulheres não são apenas o ornamento do século, mas também sua ponta de lança.” Mas foram apenas com as turbulências políticas do fim do século 18 que as mulheres começaram a demonstrar mais claramente seus desejos de emancipação. No clima revolucionário da França de 1791, a moda feminina se masculinizou, as mulheres começaram a se organizar politicamente, e Olympe de Gouge escreveu a Declaração dos direitos da mulher. Isso, no entanto, foi radical até mesmo para os revolucionários franceses, e todas as associações femininas foram suprimidas, pois iam contra a ordem natural, na medida em que emancipavam as mulheres de sua identidade exclusivamente familiar e privada.

Olympe de Gouge morreu na guilhotina e seus escritos não tiveram muita repercussão. O trabalho que serviu de inspiração para as novas gerações de feministas foi a Vindicação dos Direitos da Mulher, escrito na Inglaterra de 1792 por Mary Wollstonecraft, o que lhe valeu o título de “mãe do feminismo.” Ao longo do século seguinte ocorreu uma reação moral que ficou conhecida como Era Vitoriana, na qual houve um retrocesso nos avanços femininos do século anterior; mas o feminismo continuou a se desenvolver através de mulheres como Susan Anthony — que não ria, era masculinizada e contrária à criação de filhos —, como também de pensadores como John Stuart Mill, que em 1869 publicou a que viria ser a obra-chave da história do feminismo: A Submissão da Mulher. A partir de 1870, um ano após o clássico de Mill, uma série de leis passou a conceder cada vez mais direitos à mulher, em um processo que culminaria com a conquista do voto feminino após a Primeira Guerra Mundial.

Com a chegada do século 20, celebridades que tinham uma vida social própria passaram a ser admiradas como um novo modelo a ser seguido. Alice Roosevelt, filha de um presidente americano, tinha uma intensa vida social, era rebelde, independente e inspirou uma geração de americanas com o nome “Alice.” O cinema também foi um poderoso veículo na construção desta nova mulher. Atrizes como Theda Bara, que fazia o gênero “mulher fatal”, e a debochada Mae West, fascinavam as platéias com sua independência. Passou a ser chique as mulheres das classes altas fumarem cigarro e freqüentarem clubes noturnos.

Esses primeiros movimentos visavam conceder às mulheres direitos à propriedade, educação, guarda das crianças e voto, mas sem alterar a estrutura da sociedade. O mesmo não podemos dizer dos movimentos feministas da segunda metade do século 20, que questionaram os papéis de ambos os sexos promovendo uma das mais radicais transformações da vida cotidiana em toda a história. Com a pós-modernidade esses movimentos ganharam cada vez mais força até que finalmente derrotaram a tradição e passaram a fazer parte da ideologia dominante, sendo absorvidos pelas mídias, leis e por todo o sistema educacional.

...

Sobre a obra

O presente ensaio faz uma análise do movimento de libertação feminina e sexual, procurando identificar sua gênese histórica. A idéia de materialismo histórico é retomada como forma de explicar estes singulares fenômenos de nossos tempos.

compartilhe



informações

Autoria
João de Carvalho
Ficha técnica
Adaptação de parte do livro “Em busca de uma nova ordem: A crise social da modernidade e novas alternativas para o sistema atual.” Copyright © 2003 by João de Carvalho.
Downloads
312 downloads

comentários feed

+ comentar
Martinha Rodrigues
 

Texto legal. Em novos tempos temos novos pensamentos, isso é muito bom. Antigamente as mulheres no sexo eram totalmente fechadas, sem poder ser elas mesmas. Hoje, mesmo com o machismo ainda predominando, já se evoluiu muito.

Martinha Rodrigues · São Paulo, SP 10/10/2015 21:17
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 84 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados