O companheiro aparecera chapado e nem perguntou pelo moleque, procurou alguma coisa pra beber e não havendo, nem discussão, achatou o nariz da mulher com um soco e virou as costas pro barraco.
O sangue se juntara ao suor seco terra cabelos, à mascara, nojo. O pacotinho não caíra dos braços: uns trapos sujos enrolavam o bebê, apertado protegido embalado, o chocalho. E tantos e tantos afagos nana neném nana neném.
Se levanta cambaleante trôpega, tropêça, arqueada, o olhar no nada, horizonte, além.
Nana neném nana neném ...os dias vão comendo os segundos, as horas, os dias.
Nunca ninguém veio chamar, pedir pouso um trocado aleluia aleluia irmão. Não. Nada.
As noites as luas, passam. As luas as noites. O pacotinho pesado, o corpo esquálido de
água pouca e só. E o vazio sempre do olhar enxerga chorando o moleque: nana neném nana neném.
O vento pesou sobre a miudeza da carne e da alma, traspassou como faca, faminto veio avisar da hora, audaz bateu a porta e a única janela.
A comadre chegou no demorar de longe. Não trouxe presente- ô de casa! o silêncio dos acordos sepulcrais. Deu com os nós dos dedos toc toc, tempo, toc toc. Nunca mais. Acenou com a mão de costas pro barraco.
Carlos,
Doída me foi a leitura. Tapa na cara do que realmente está ali, da nossa janela pra fora (tal qual meu poema "Pela Janela"). Gosto do teu estilo impactante, verdadeiro, óbvio e com uma poesia arrotando a todo instante.
A construção me lembrou Harmada, do João Gilberto Noil.
Depois, quando tiver um tempinho, vc me ensina o caminho?
Com certeza volto pra votar.
ABRAÇOS
obrigado pelo comentário e o caminho com certeza é o da escrita
e esse você o conhece, e bem.
beijo,
Carlos,
Essa realidade que vc tão bem transportou para seu texto
é mais comum do que se imagina.
Frente a uma grande perda, a mente que sofre tende a
procurar um refúgio, e sua personagem encontrou alento
nos pertences do filhinho que se foi.
O mundo exterior se apagou e nada mais existe
será esquecida?
se até a comadre deu as costas...
bjsss
bjsss
Favelas, becos e vielas abundam de cenas rústicas e terminais como essa! É o lado tragédia só, da vida. A alma, instrumento maior de experiências que chocam o nosso emocional!
raphaelreys · Montes Claros, MG 7/11/2008 16:17
Ai Carlos que retrato dolorido de uma realidade crua e tão comum!
Tem uma peça daqui de Brasília que numa das passagens se parece muito com seu poema, não recordo o nome mas é do pessoal da "Ossos do ofício" daqui.
Parabéns ao trabalho
abraços
eu ví nas páginas de jornal e no boletim de ocorrência da Polícia Militar, ou foi no HUGO- Hospital de Urgência de Goiânia, ah! não!
foi mesmo na rua em cada esquina dos homens.
obrigado Doroni Raphael Cristiano, pela leitura e comentários
abraços,
Carlos, "no demorar de longe" seu texto fala de uma dor que nos pega nas 'quebradas" de nossas vidas. Cada um com suas esquinas, né? O anterior foi uma pancada, este é forte mas mias rápido;)
Compulsão Diária · São Paulo, SP 7/11/2008 18:13espetacular seu texto. Poético, sensível, metafórico.... bom demais, gostoso de ler. "O vento pesou sobre a miudeza da carne e da alma.." legal isso... Votarei quando oportuno.
José Cycero · Aurora, CE 7/11/2008 22:32Dolorido, doloroso, cruel e - se me permite a audácia - seu melhor texto que já li.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 7/11/2008 22:36
Dará um bom curta metragem surreal.
Voltarei para votar
Abs
Você achou seu caminho, Carlos.
Viu aí os comentários?
Esse teu interesse e teu jeito de mexer e mostrar a miséria humana é único.
Siga.
Bom dia Carlos!
Iniciando sua votação
bjs
Fantástico,Carlos!!
"Miséria,miséria em qualquer parte, riquezas são diferentes,índio,mulato,preto e branco,miséria é miséria
em qualquer canto..."
Pena que poucas pessoas enxerguem, pena não haver mais o espanto diante de tanta crueldade espalhada por aí...
Uma cena poética de primeira grandeza!
Parabéns!
Beijinhos bluecarinhosos
Blue
Texto e imagem impactantes.
Abraço "primo".
Muito bom. Impactante mesmo, como disse a Fátima. As palavras fluem de uma forma violenta, transformando a leitura em uma visão... gostei pra caramba. Ótimo!
Parabéns. :D
gente já conhecida gente nova lendo meus textos, me faz acreditar que devo continuar, me faz bem...
obrigado manos e abraços,
Ei, você DEVE continuar MESMO. Sem dúvidas. Você é ótimo.
Continue, e conte comigo/conosco!
dor mesmo, aquelas que a gente sbae que tem e sente..alguns sabem, mas ignoram...pobres mortais, pobres de alma...lindo teu discorrer em letras as dores da vida...ab
Cintia Thome · São Paulo, SP 11/11/2008 21:14
os dias vão comendo os segundos, as horas, os dias.
e tudo isso nos envolve e envolve a todos
até que nunca mais se saiba onde é (ou se existe) a saída.
Beleza, Carlos
Um abraço
Carlos, você retratou uma realidade cruenta e verdadeira. Conheci casos assim. Trabalhei em favela de Sampa.
Votei.
Ivette G M
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