Preferi ilustrar o post com foto da
Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, que sofreu
um incêndio em 1999 e logo depois foi resaturada.
Uma bela imagem de Pirenópolis. Vejam a lua no
download do texto.
Antes e depois da lua cheia numa perdida noite de Pirenópolis, em 1992. Somente hoje me dei conta da quantidade de areia acumulada no envelope do tempo, que marcou profundamente as cartas do paraíso. Quase 13 ou mais de 13 anos... Perdi a precisão na contagem absurda do tempo que escorreu entre os dedos e os desejos todos daquela época de transição (im) perfeita. Se fosse inaugurar uma lista de desejos com certeza incluiria Pirenópolis numa noite de lua cheia. E apenas 121 quilômetros separam Goiânia de Pirenópolis, um pulo e tantos motivos para voltar e nenhum foi suficientemente apelativo para provocar o retorno. E desde aquele dia a cidade adquiriu um contorno mágico na minha história pessoal. Talvez seja isso: nenhum apelo foi direto ao coração do dragão. Não teve Cavalhadas, Festa do Divino, passeios ecológicos pelas cachoeiras e parques, festival gastronômico, canto da primavera ou sedutores convites para fins de semana em pousadas ao pé da Serra dos Pirineus que me levassem novamente ao cenário do paraíso que ajudou a acender o fogo do dragão.
Talvez alguma coisa dentro de mim resista para preservar o encanto daquela lua de nunca mais aqueles incêndios no corpo e na alma. Nunca mais aquela maciez imprimindo novas e definitivas sensações no braile encantado dos meus dedos na divindade do corpo etéreo da minha lua cheia. Nunca mais antes da linha aquele toque de adivinhação de todos os desejos. E numa mais uma janela como aquela e com aquele pulo de asas com a sensação de primeiro vôo para o infinito.
Algumas imagens daquela noite de Pirenópolis ficaram como um filme raro na minha alma. Impossível esquecer a primeira sensação daquele casarão com cada coisa em seu lugar e o toque cativante das mãos ausentes que um dia foram ágeis e construíram uma identidade para cada objeto e cada canto da casa. A ausência de quem soprou naquela casa o fogo da lenha das gerações parecia doer incomodamente nas cinzas do fogão, na poeira sobre os móveis, nos sulcos do colchão de palha, nas plantas do quintal ressentidas daquele cuidado essencial.
Mas nada se compara à lua cheia escancarada na janela. A lua vazava por todas as frestas e aguçava a minha fome de vida. Mentalmente abro aqueles janelões duplos e deixo a lua entrar, sem cerimônia. Ponho abaixo a trava e os ferrolhos que vêm de um tempo em que se guardava com cuidado as donzelas. Aquelas janelas de madeira de lei, curtidas pelos séculos, ainda hoje parecem ranger dentro das minhas palavras. A lua de Pirenópolis, definitivamente, acendeu em mim o fogo do dragão.
E quase ousei as labaredas... Mas temi o descontrole do incêndio na floresta. Quis preservar espécies raras. E a mais preciosa delas eu guardo numa redoma: a minha lua cheia e encantada. A frase dita no retorno, depois do marco zero, antes e depois de Pirenópolis, os jardins secretos do paraíso. E um dragão mais acordado do que nunca passeia comigo pelo lado esquerdo do paraíso.
Goiânia, 2006 (Desembrulhando uma memória afetiva de Pirenópolis).
A lua de Piri está também no texto para download.
Algumas reminiscências são deliciosas e quanto mais o tempo passa, mais ficam caras. Se são prazerosas, transformam-se em saudade, pelo medo que temos de que não possamos vivê-las iguais.
abcs
Olá minha querida poeta Saramar,
Teus textos sempre me comovem, agora, esta igreja é uma belezura. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
poxa, só agora li esse seu texto sobre Piri.
Faz quatro anos que não volto por lá, tá na hora de retornar.
A igreja já está reconstruída.
Quero ver o luar de Piri.
beijos Cida!
ps. já foi a olhos d'água?
estou fazendo uma matéria sobre a cidade, depois posto aqui no over.
abçs.
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