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A MAIOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS

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André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
15/4/2010 · 5 · 3
 

Desafiando um axioma básico, lá estava eu tentando explicar a mim mesmo a falência de nossa relação antes de tomar uma decisão definitiva. Já havia assistido àquele filme antes, pensei comigo mesmo, ainda surpreso a encarar uma situação recorrente. Não adiantou a troca da atriz principal, o roteiro era o mesmo. E também o outro protagonista. De qualquer forma, consolava-me na culpabilidade alheia. Além disso, a direção ao acaso pertence. Não procurava justificativas, apenas enxergar uma resposta que não fosse idêntica. “De novo ?” -perguntava-me, atônito. Uma busca contínua poderia ser a porta de acesso para um ciclo interminável.

O jantar começava a ficar frio, e eu saboreava pequenas porções adiando a pergunta que na ponta da língua estava, quase a escorrer num filete de saliva involuntário. Seria o desespero maior que a covardia, ou a esperança de que o dia desinfetasse aquela noite insossa que nos cobria de indiferença, do início ao fim ? Uma busca desenfreada por respostas era a minha desculpa, o meu álibi, a minha companhia naquele final de semana. E por ela, eu me permitia o tormento. Mais ainda, atormentar a nós dois. Estranhos pensamentos que me dominavam naqueles instantes que precediam o fim da refeição, a retirada da louça suja da mesa. A nossa louça, a nossa poça, a nossa louca relação que se esfarelava contida, e a isso eu assistia lembrando de relações anteriores. Como diz a canção: “Esqueci nosso começo inesquecível”.

Estaria adiando as palavras, trocando-as por pensamentos ? E como se não bastasse, uma gota delatora de suor me escorria pela face, materializando o constrangimento à mesa, local que aprendi desde criança ser sagrado. Antes comesse solitário no sofá, bandeja na mão e a mente tola a acompanhar um enlatado superficial que carece de reflexões. Mas o fato é que prometera a mim mesmo que daquele fim de semana não passaria. Não necessariamente o fim de nossa relação, embora fosse provável, mas a libertação das palavras. O ato em si e suas consequências seriam imprevisíveis, mas teriam o mérito de serem fiéis ao pensamento puro, ao desejo imantado que se agrega a uma existência digna. Isso era o que eu pensava, motivo de minhas dores anteriores, e que achei ter superado. Entretanto, o terapeuta não me avisou que eu iria cair na mesma armadilha. Quão cruel, busquei apenas a felicidade.

As travessas estavam quase vazias, a ansiedade que nos dominava naquela noite em particular traduziu-se na fome. Uma fome que não desperdiçava um grão sequer que fosse, que sorvesse até a última gota do vinho barato que reservara para aquele instante, tão distante do bordeaux de nosso primeiro encontro. Por que será que a noite derradeira não merecia o mesmo tratamento ? Era não menos importante, pá de cal naquilo tudo que um dia tivemos. Precisávamos exorcizar nossos fantasmas com estilo. Mas com vinho ou sem vinho, a culpa sempre vinha à tona, por mais que não a merecesse. Não tentara eu, a todo custo, resgatar aqueles primeiros momentos, a energia que circulava entre nós e circundava-nos como uma aura protetora, ignorando desafios, famílias e amigos ?

Naquele momento, a única preocupação que eu tinha era com a palavra. Ou melhor, com as palavras que se aglutinavam ansiosas no céu da boca, loucas para saírem desvairadas em meio ao jantar. E tentando contornar nossa incompetência, eu adiava aquele instante o mais que podia, descortinando cenários fantásticos nada críveis, soluções que iriam ser paridas do nada em uma noite trivial. Por que será que ela não tomava a iniciativa e acabava de vez com aquilo, livrando-nos do sofrimento que nos consumia sem piedade ? Talvez lembrasse de nós tempos atrás, únicos, numa comunhão sem igual, sem história, sem temporalidade. Nossa paixão desafiando a inveja alheia. Mas como as estrelas, começamos a morrer depois do estágio de maior brilho.

As horas se passavam e eu pensava em nosso jantar. Não, não era trivial. Absolutamente, não. Conversamos bobagens no início, e há quinze ou vinte minutos não nos falávamos, não emitíamos uma palavra sequer. Somente grunhidos de ingestão do alimento que ia acabando, ficando cada vez mais escasso. E, como dois primatas famintos, nos fartávamos até a exaustão. Sem nos preocupar com a visão do todo, com a dor do outro, a dor de todos nós. Será que ela também vivenciava aquela angústia, e disfarçava melhor que eu ? Será que ela também sentia que o fim estava próximo, e também tentava contornar o inevitável ? Aquele constrangimento chegou ao limite, e resolvi abrir a boca num ato catártico, vomitando as palavras enquanto pensava no resto de salada que me encarava:

- Me passa o sal, por favor.

Sobre a obra

Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".

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Autoria
André Calazans
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C.E.P
 

muito bacana!

C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2010 21:59
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Cláudia Campello
 

é, as vezes as palavras ficam engasgadas na garganta da gente......
mas esse seu texto esta um luxo!!!!

adorei.

bjssssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 30/4/2010 12:39
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camuccelli
 

Adorei também.

camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 30/4/2010 15:15
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